Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

SEGREDOS - AVÓS DO SÉCULO XXI

Foto: «O Blog do Mota». 
 
Com quatro netos (três «imperatrizes» e um «imperador»), estou hoje incluída no grupo das Avós. No mesmo gupo, muitas das minhas amigas.
 
Acho absolutamente fantástico que duas delas sejam já Bisavós. Casaram e foram mães muito cedo: ambas com dezoito anos. As filhas seguiram o caminho das mães. Às vezes, acontece. É, pois, natural que as minhas duas amigas tenham, cada uma, um bisneto.
 
Vem isto a propósito das Avós (e Bisavós) destes tempos: século XXI.
 
Se bem me recordo, quando era criança, na adolescência e depois, durante anos, era absolutamente normal ver senhoras de idade com um aspecto de «velhinhas». Sobretudo as Avós. Muito mais as Bisavós!
 
Minha Avó materna, Maria Estrela, era uma delas, Hoje, verifico que a sua idade, aquando do seu falecimento, nem sequer seria muita: setenta e seis anos. Mas o aspecto dela era, sem dúvida, o de uma «velhinha».
 
Em sua casa os espelhos de corpo inteiro estavam nos quartos. Na casa de banho havia apenas um espelho, onde só nos era dado ver pouco mais do que o rosto. O quarto da Avó Estrela não tinha espelhos. Lembro-me da cama, das mesas-de-cabeceira, de uma arca enorme, para mim cheia de segredos, de um cadeirão junto da janela e de uma cómoda. Devota de Santo António, era ali que a Avó venerava uma imagem do santo, já antiga por esse tempo. Alumiada noite e dia por uma lamparina de azeite e com um cravinho na mão – umas vezes viçoso, outras nem tanto. A imagem passaria depois a outra casa, sobre um outro móvel, legada que foi ao filho mais velho que, por sua vez, a ofereceu ao filho e este ao seu próprio filho  – bisneto da Avó Estrela.
 
A Avó não tinha paciência (nem vaidade, julgo) para ir «mostrar-se», como diz a minha neta Teresinha, aos espelhos dos quartos. Limitava-se a mirar-se no pequeno espelho da casa de banho.
 
Muito menos gostava de incomodar. Isto é, de «invadir» a privacidade dos filhos. Os quartos com espelho pertenciam a três dos seus filhos que, depois de casados, não abandonaram a casa materna. Mãe de sete filhos, ficou sem dois, em dois anos seguidos. Os mais velhos. Ele de 24, ela de 21 anos. Não os conheci. Conheço as histórias.
 
A palavra alegria não voltaria a fazer parte da vida nem do vocabulário da Avó Maria Estrela.
 
Aconteceu pelo Natal, quando, ao contrário do que sempre sucedia, a família (na altura numerosa) não se reuniu na casa da Avó Estrela, mas na da sua filha mais velha, para passar a Consoada e o próprio Dia de Natal.
 
Na tarde desse dia a Avó Estrela entrou comigo no quarto da filha. Havia um grande espelho no quarto. Foi assim que a minha Avó deparou, inesperadamente, com a sua imagem reflectida no espelho. Atónita, surpreendida consigo mesma, o espelho revelou-lhe uma verdade para a qual não estava preparada. Num sussurro, disse-me apenas: «Ah, como eu estou velhinha, minha filha!» Adolescente, como eu era, sei, agora, que não a devia ter consolado muito. Penso ter-lhe dito: «Ora, está agora velhinha, Avó!»
 
A verdade, é que nunca mais esqueci esse episódio. Minha Avó Estrela viu-se no espelho como mulher. Não gostou do que viu. Na sua frente estava a imagem de uma «velhinha». E nem o seria. Teria, por essa altura, os seus setenta anos. Creio que a sua vida mudou um pouco a partir daí. Passou a lidar com uma imagem de si própria desconhecida até então.
 
Não encontro, hoje, a mínima razão para que as mulheres desse tempo se deixassem envelhecer assim. Talvez a falta de informação, aquela que nos chega actualmente a toda a hora. Com a menopausa, aceitava-se, resignadamente, embora de um ponto de vista errado, que as mulheres tudo perdiam: feminilidade, juventude, beleza, até o direito a serem mulheres. Como tudo isso mudou!
 
As avós do século XXI vão à praia, vestem biquini, andam bronzeadas, cuidam da pele, escondem os cabelos brancos atrás da pintura (na maioria loira) dos penteados, vestem roupas modernas, juvenis (agora com decotes ultra-generosos). Vão ao teatro, ao cinema, ao futebol, aos concertos musicais, sabem o nome das «bandas» e dos seus cantores, entram nas «maratonas», frequentam as universidades, os ginásios, andam a pé para manter a linha e porque convém à saúde, vigiam a alimentação. Enfim, um nunca mais acabar de precauções para que não ouçam um dia essa palavra que marcou as mulheres ao longo de gerações: «velhinha!» Bom, e tomam conta dos netos – coisa que talvez as avós de outrora não fizessem: as mães estavam em casa a cuidar dos filhos, não tinham, como hoje, a preocupação das carreiras profissionais.
 
Sei das excepções. Todos nós sabemos que existem. São as avós que vivem em precárias condições (ou não), sozinhas, na solidão das suas casas. São as avós que se encontram em casa dos filhos, a sentirem-se um peso, revezando-se, muitas vezes, os filhos para acolherem as mães por um prazo determinado. São as avós «depositadas» nos lares de terceira idade. Muito drama, muita tristeza, muito abandono, muita solidão. Mas sei, também, das dificuldades familiares. Das imposições actuais a que a vida familiar e profissional obriga. Nem todos o fazem deliberadamente ou por opção. Alguns, sim.
 
Quando a Avó Estrela adoeceu (coração muito débil), o seu quarto passou a ser a sala de estar da família. Rodeada dos cinco filhos, das noras, dos genros, dos netos, dos amigos. Hoje, quem se dá a esse «luxo»? Responda quem o souber. Só o ritmo da vida actual pode dar origem a que se instale no coração de cada um uma certa frieza, um certo desapego, uma certa distância entre aquilo que está certo e aquilo que está errado. O respeito, o dever e o amor pelas Avós parecem andar de costas voltadas. Antes assim não fosse.
 
Soledade Martinho Costa
 
                              
 
publicado por sarrabal às 00:12
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2 comentários:
De Ibel a 3 de Janeiro de 2010 às 21:47
Emocionei-me com este texto., talvez por já estar a entrar numa idade mais próxima das velhinhas do que das jovens.E também pelas situações reais, tal como a da avó Estrela.Engraçado.A avó Estrela, a neta Sol(edade).
Realmente envelhecia-se cedo, antigamente.As mulheres paraciam antecipar fisicamente a morte. No entanto, a velhice era doce, porque era impensável abandonar-se um familiar. Também tive experiências como as que conta, em que os quartos dos tios ou parentes idosos passavam a ser a sala de visitas quase diária dos familiares.
Hoje morre-se sozinho, apesar da net e das televisões e dos rádios e de...
Isso assusta mesmo, como a chuva desalmada que bate na vidraça.


De sarrabal a 4 de Janeiro de 2010 às 02:17
Ibel, sabe que não tinha reparado na coincidência dos dois nomes? Estrela e Sol!
As minhas crónicas, como já tenho afirmado, são escritas com o coração, com toda a ternura e verdade que a memória e os sentimentos colocam à minha disposição. Depois, é deixar correr os dedos sobre o teclado. Mas sinto que alguma coisa de mim e dos outros fica como testemunho para quem lê e se sente, por vezes, despertado por recordações ou sentimentos semelhantes. Esse é o principal objectivo deste género de textos.

Que os meus posts continuem a agradar-lhe, Ibel.

Mais um beijinho da Sol


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