Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

COISAS DA VELHA DO ARCO - «INCONVENIÊNCIAS» INFANTIS

  

 

Já tenho abordado nas minhas crónicas o quanto as crianças são observadoras, perspicazes e oportunas nos seus ditos. Com muita graça alguns, outros com uma ternura imensa, tão grande, com tal profundidade, que nos fazem pensar como as crianças estão, ainda, no seu «estado puro». Comentários inesperados, em respostas, observações e opiniões, dadas de acordo com os factos que se passam ao seu redor (ou não), que nos espantam pela capacidade e espontaneidade de raciocínio, absolutamente singulares e geniais – privilégio que só a infância possui. E são esses seus ditos e comportamentos inteiramente imperdíveis, que não deixo de aproveitar para elaborar alguns dos textos que escrevo. Perpetuá-los, para que deles não nos esqueçamos é o meu objectivo. As crianças merecem isso.

 

Mas não falei nas suas «inconveniências», que também as têm, a demonstrar, numa espécie de contradição, o seu lado menos angelical – como seres humanos que são. Imprevisíveis, sempre, no bom e no «mau» sentido.

 

E porque os momentos passados continuam vivos no presente, recordo a imprevisibilidade de algumas situações, a testemunhar as tais «inconveniências» em que as crianças são igualmente peritas.

 
O meu neto Rafael não teria mais de cinco anos quando a mãe entrou com ele num estabelecimento em Alverca do Ribatejo. Depois de atendida, despediu-se do dono da loja, senhor já de alguma idade: «Boa-tarde e obrigada.» O Rafa, na intenção de imitar a mãe, achou por bem despedir-se também do lojista: «Adeus e uma boa vida sexual!» Com estes votos, ignoro quem terá ficado mais surpreso: se a mãe, estupefacta e envergonhada, se o dono da loja, a olhar, atónito, a criança. A mãe do Rafa nada comentou com o filho. Achou melhor. E era. Uma palavra ou frase ouvida aqui ou ali, sem lhe saber o sentido, deu, naturalmente, este resultado.
 
Numa outra ocasião, aí por volta dos seus sete anos, o Rafa acompanhou a mãe a uma consulta de rotina. Enquanto a mãe conversava com o médico, manteve-se sentado numa cadeira a aguardar o final da conversa. Calado e bem-comportado, como é seu costume. A dado momento, vá lá saber-se porquê, levanta-se, aproxima-se da mãe e pergunta: «Mãe, quando chegarmos a casa vais espancar-me?» Imagine-se o espanto da mãe! Felizmente, o clínico era pessoa amiga da casa. Caso contrário, a situação poderia ser embaraçosa. Sempre que me recordo deste insólito «imprevisto», não consigo deixar de rir. Quem não achou graça foi a mãe.
 
Estes dois episódios fizeram lembrar-me um outro, passado com o meu filho Luís Miguel. Ofereci um jantar em minha casa. O meu filho teria uns oito anos. Familiares e amigos encontravam-se à mesa. Estava o jantar no início, quando o meu filho, aproveitando um momento de silêncio, levanta na mão o garfo do peixe e faz a pergunta que me arrepiou: «Mãe, o que é isto?» Respondi com outra pergunta e um sorriso amarelo: «Então, filho, o que é isso?» E a resposta, óbvia: «É um garfo de peixe.» Estava salva a situação. A «inconveniência» do meu filho poderia levar a supor que o talher do peixe nunca vinha a mesa. Não era verdade. Os meus filhos usavam-no, frequentemente, para comer o peixe.
 
Ainda num consultório – o da médica pediatra do Rafael e da Teresinha –, teria o primeiro uns oito anos e a irmã seis. Ao contrário do habitual, e enquanto a mãe falava com a médica, as duas crianças pareciam ter sido possuidas por um espírito traquina: falavam alto, riam, agarravam-se, mexeram em tudo aquilo que puderam – sempre com a mãe a repreendê-los e a de nada servir. Acredite-se ou não, acabaram a rebolar no chão do consultório. Quando a mãe saiu, envergonhada, o Rafa e a Teka olharam-na com carinhas de anjo e perguntaram numa voz doce: «Mãe, portámo-nos bem?» – sabendo ambos, perfeitamente, que não. Talvez numa espécie de desafio perante a autoridade materna. Imagina-se a resposta!
 
O resto do dia foi passado de «castigo». Nada de desenhos animados, nada de vídeo, nada de histórias ao deitar (como era costume). Além de terem ido para a cama «com as galinhas»! Eis o remate para um episódio completamente fora do normal.
 
Fica o aviso: mesmo os meninos bem-comportados têm dias…
 
Soledade Martinho Costa
  

 

                                          
 
 
publicado por sarrabal às 13:15
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2 comentários:
De garatujando a 10 de Dezembro de 2009 às 14:43
Por alguma razão o Poeta dizia que "... o melhor do mundo são as crianças".
Para além de relembrar esta verdade, esta pequena crónica retirada das suas "Coisas da Velha do Arco" é, por si só, um hino ao amor. Ao amor pelas crianças. E, sobretudo, revela uma sensível Mãe / Avó que ao relembrar "inconveniências" das "suas crianças" encontrou motivo para um mimoso post, bem ao jeito da Soledade que nós conhecemos.

O abraço amigo
do
Carlos Ferreira


De sarrabal a 12 de Dezembro de 2009 às 19:38
Bem ao seu jeito é este comentário, Carlos. Sempre generoso nas palavras, meu Amigo!

Sim, gosto de lembrar mesmo as «inconveniências» dos meus netos. É da maneira que não as esquecemos...

Abraço da Sol


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