Quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

COISAS DA VELHA DO ARCO - ALGUÉM VIU A FILOMENA?

 
O domingo tinha acordado chuvoso. Dia frio o suficiente. Um vento irritante, numa teima de quem pode e manda, fazia dançar a rama das laranjeiras de laranja amarga que se lembraram de plantar ao longo dos passeios. Fevereiro não tem por costume ser um mês ameno.
 
A campainha tocou. «Quem será?», pensei. Espreitei pelo ralo da porta. Vi apenas o cimo de uma cabeça, sinal de que o visitante era de estatura pequena. Não me enganei. Na minha frente estava uma criança. Uma menina. Olhos grandes de um azul pardo a fitarem-me embaraçados e um pouco temerosos: «A senhora precisa de mulher-a-dias?» Ouvi-lhe a voz quase de repelão, rápida e trémula, sem me dar tempo de lhe perguntar ao que vinha.
 
«Mulher?! Mulher aquela criança que não aparentava mais do que uns onze anos de idade?!» Não consegui responder. Entre as ombreiras da porta, agora era eu, de olhar embaraçado, que lhe mirava o rosto magro, os cabelos loiros, húmidos da chuva, e as roupas gastas que lhe vestiam o roer do frio no corpo franzino.
Disse-me chamar-se Filomena. Tinha treze anos (quem diria?!). Na escola andou até à terceira classe. Não continuou. Não pôde. O pai morreu no trabalho. Caiu de um andaime, numa obra. Além dela, a mãe ficou com mais quatro filhos; tinha quatro irmãos, todos rapazes. «Somos muitos, temos que fazer pela vida…», acrescentou, num encolher de ombros, entre resignado e triste.
 
Enquanto conversávamos a dona Mariana subia a escada. Parou a meio do lance, antes do patamar. Olhou a menina. E logo a pergunta, entre surpresa e curiosa: «Tu não és a Filomena? Não foste minha aluna?» E a resposta: «Sou sim, minha senhora. Fui sim minha senhora.» Confirmação dada a custo, voz sumida, ar envergonhado de quem, apanhado em falta, deseja enfiar-se num buraco, olhos presos na ponta das botas largas e velhas, mãos nervosas a rodar nos dedos o cabo do chapéu-de-chuva de cor vermelho vivo – como se a pobreza fosse um crime.
 
A professora subiu o resto dos degraus. Nova pergunta, desnecessária: «E o que andas tu a fazer por aqui?» Nova resposta: «À procura de trabalho.» Dona Mariana abanou a cabeça. Entrou em casa, mas não fechou a porta. Reapareceu com alguns pedaços de pão e uma laranja. «Toma lá.» Disse, e estendeu a oferta à Filomena.
 
Fiquei de novo a sós com ela. A minha filha era um pouco mais velha. Havia sempre roupas que deixava de vestir. Arranjei dois sacos. Meti neles o que pude. «Não são muito pesados?», que não, não eram, podia bem com eles. «Afinal, onde moras, Filomena?» Precisava da informação. Explicou-me. Lá para o «choupal», passando a Formigueira, depois da ponte. Prometi procurá-la, enquanto ela descia as escadas. «Os meus irmãos vão ficar contentes.» foram as suas últimas palavras.
 
Passou algum tempo. Sem custo consegui localizar o local onde morava. Um amontoado de casas, onde a privacidade de cada um era apenas a de um passo entre uma e outra porta. As cores das tintas demasiado garridas, desajustadas. Um mural de desencanto a vestir o labirinto das paredes mal rebocadas.
 
Uma vizinha assomou à estreiteza da janela. Perguntei pela Filomena. «É ali, onde estão aqueles gaiatos à porta.» Informou. Dirigi-me às crianças. Dois rapazinhos de olhos assustadiços, seis, oito anos: «É aqui que mora a Filomena?» Perguntei. Olharam um para o outro. O mais velhito, ar medroso, acabou por dizer: «É.» Insisti: «Ela está?» Que não, não estava. «E a tua mãe?» Também não estava.
 
A vizinha aproximou-se, numa curiosidade aceitável e natural: «Precisa de alguma coisa?» Sim, precisava de saber da Filomena. «Ah, essa já cá não está!», foi a informação. Completa logo a seguir: «Uma senhora veio buscá-la e levou-a para Lisboa.» Entrei no carro. Voltei para casa.
 
Ainda hoje penso naquele rosto magro, naqueles cabelos loiros, húmidos de chuva, nos olhos da Filomena, grandes, de um azul pardo, onde apenas cabia o segredo dos seus sonhos mal sonhados. «Uma senhora tinha-a levado para Lisboa». Menos uma boca a comer naquela casa pobre. Para quê indagar junto da mãe?
 
Ao fim destes anos, não resisto a perguntar: alguém viu a Filomena?
 
Soledade Martinho Costa                                                                    
                                                
                                                   
publicado por sarrabal às 15:56
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4 comentários:
De garatujando a 26 de Novembro de 2009 às 12:40
Do 8º. volume da sua magnífica colecção «Festas e Tradições Portuguesas», a Soledade extraiu os textos dos seus três últimos posts para abordar, em tempo próprio, o tema da “Matança do Porco”, tradição que se insere no “conjunto das tarefas cíclicas do nosso calendário rural”
E como tudo o que consta naquela valiosa obra - única no panorama literário português - a descrição que faz das tarefas relacionadas com o assunto vai até ao pormenor, numa riqueza descritiva a que a autora nos habituou com o seus escritos. Se considerarmos também o “realismo” das gravuras inseridas, o leitor fica verdadeiramente - passe o lugar comum -, ” com água na boca”, fortemente sugestionado pelos textos e pelas imagens. É que o que ali se lê e "vê", causa-nos um prazer que, por ser somente virtual, chega a ser uma crueldade.

Este post último, “COISAS DA VELHA DO ARCO – ALGUÉM VIU A FILOMENA ?” é, -afirmo-o sem rebuço -, dos textos mais belos e emocionantes de quantos o SARRABAL tem publicado.
Que dizer do estilo, do rico “português” que aqui se lê ?
Pela riqueza lexicológica lembra Aquilino Ribeiro; e recorda Augusto Gil pelo pungente realismo da cena descrita.
É também, pelo conteúdo, uma implícita critica social, ao referir a frágil figura duma criança prematuramente feita mulher vergada ao peso duma responsabilidade imposta pela negra miséria da vida.
Marcante texto este, que nos deixa os olhos húmidos e com aperto no coração.

Abraço de muito apreço

Carlos Ferreira


De sarrabal a 30 de Novembro de 2009 às 20:05
Como posso eu responder ao seu comentário, Carlos?
Talvez isto: havendo sinceridade nas palavras (eu sei que há), qualquer autor gosta de agradar aos leitores. É o caso.

Ainda bem que os três textos sobre a matança do porco tiveram o condão de lhe abrir o apetite! Aqui no Algarve (sem ter certezas absolutas) a matança parece incidir mais pelo São Martinho. Ainda com muitas tradições a acompanhá-la, como descrevo.

No que respeita à Filomena, a história é autêntica. aliás como é costume nas minhas crónicas. Para ler e reflectir, evidentemente.

Abraço afectuoso ao meu fiel comentador


De Ibel a 27 de Novembro de 2009 às 16:53
Li o conto e recordei a BOCA ENORME de José Gomes Ferreira, que me provocava sempre arrepios de comoção. Sempre que o lia, molhava o rosto.No meu ano de estágio, quando fazia a leitura, tive de interromper, porque a voz ficou entupida pelas lágrimas. Curiosamente, as alunas também estavam envolvidas na mesma fraternidade de emoção. Respirei fundo e continuei. No fim da aula, olhei para o páto onde a luz redonda do sol era um fogo e disse:"Está um dia de sol tão bonito", ao que os alunos em coro, respondram:"Soltem-na!".
Hoje senti o mesmo, passados que são mais de 32 anos.
Vou procurar " O Mundo dos Outros" para reler. Entretanto, se encontrar a Filomena, digo-lhe que há um coração e uma história que a consevam em poesia.E dar-lhe-ei o endereço.
Num dia de chuva triste, um beijo para si, sol!


De sarrabal a 30 de Novembro de 2009 às 20:26
Num só texto dois comentadores associarem a minha escrita (muita bondade!) a três nomes maiores da nossa Literatura, é, mesmo, caso para ficar sem palavras! Um deles, por associação a um conto de José Gomes Ferreira, faz com que recorde lesse genial vulto da nossa Cutura.

Quando entrei para a Associação Portuguesa de Escritores, o presidente da APE era, precisamente, José Gomes Ferreira. Tenho a sua assinatura no meu cartão de membro. Pessoa de uma simpatia enorme, foi com imensa alegria e amizade que, por esse tempo, recebeu os mais novos. Tinha sempre uma palavra amistosa e um sorriso quando nos falava. Deixou-me saudades por todas as razões, mais a de ter tido o privilégio de conhecê-lo pessoalmente e de com ele privar.

Se o Carlos tem sido desde há muito um comentador fiel dos meus posts, a Ibel está no «bom caminho»! Muito bonito e sentido o comentário que me deixou.

Beijinho para si da Sol



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