Quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

DIA DE SÃO MARTINHO - PREGADORES, CHOCALHADAS e QUEIMA DE SÃO MARTINHO (ANTIGAS TRADIÇÕES)

                   

                «São Martinho e o Mendigo», El Greco, National Gallery of Art, Washington   

 

Por tempos idos, muitas eram as situações de perfeita embriaguês que se verificavam no dia de São Martinho na intenção de louvar o santo. Assim acontecia em Alcains e noutras localidades da Beira Baixa, onde se festejava o São Martinho com os homens a beberem sem conta nem medida.
 
Mal a noite descia, vinham para a rua grupos de amigos do tinto, do branco, da água-pé e da jeropiga, uns cantando, outros tocando gaitas-de-foles e guitarras. Bebendo, cantando e tocando, em grande algazarra, já fora de horas, galgavam então, quando era caso disso, as escadas e varandas das casas, para melhor serem ouvidos, pregando de lá os populares «sermões de São Martinho». Davam-se vivas ao santo, à videira, aos lavradores e aos amigos, acordavam-se os que não se metiam em tais andanças, e, por vezes, havia desacatos.
 
Quando o Sol rompia, o espectáculo não deixava de ser insólito: corpos adormecidos junto das portas, roupas num desalinho, garrafões e garrafas estilhaçados, os instrumentos musicais e o livro do sermão abandonados onde calhava, e o sono profundo dos «compadres», cansados da bebida e da noitada.
 
Este género de manifestação festiva e báquica, era comum e perfeitamente natural, repetindo-se nestes moldes pelo menos até à década de cinquenta, particularmente nas nossas aldeias. Assim acontecia também em Monsanto (mesma região), com os «pregadores de São Martinho», eleitos todos os anos (por vezes os mesmos), a dirigirem-se no seu discurso à «irmandade de São Martinho», sendo eleitos como «mordomos» e «mordomas» os homens e as mulheres que mais frequentemente se embriagavam.
 
Hoje celebra-se o santo mais moderadamente, embora não deixem de verificar-se alguns excessos, sobretudo nas localidades em que o vinho – independentemente do São Martinho – continua a ter (e antes o não tivesse) grandes amigos.
 

Ainda por aldeias da Beira Baixa, onde, à semelhança do que acontece por todo o país, São Martinho representa o advogado dos ébrios, era na noite de dez para onze de Novembro que se dava início à tradicional festa de homenagem aos maiores bebedores da terra. Nessa noite, os rapazes das aldeias, munidos de chocalhos que retiravam do gado, dirigiam-se em grupo a casa dos «festeiros de São Martinho» – eleitos sem que para tal tivessem dado o seu consentimento –, entoando cantigas alusivas à ocasião e ao santo, convidando o «festeiro» por eles escolhido a abrir a porta da sua adega.

 

Se o convite era aceite, abria-se a porta, bebiam-se uns copos de vinho, de água-pé ou jeropiga, davam-se vivas ao «festeiro», faziam-se as despedidas e o grupo seguia, dirigindo-se às casas dos restantes «festeiros» por si eleitos nessa noite. No caso de algum deles recusar abrir a porta da adega, era contemplado com uma estrondosa «chocalhada», acompanhada da ritual «assuada» (piadas e zombarias), nem sempre bem recebida.

 
Terminada a primeira ronda, elegiam-se os «festeiros» para o ano seguinte (sempre escolhidos entre os maiores bebedores da terra), seguindo-se nova ronda pela aldeia para os felicitar, aproveitando-se a oportunidade para convidá-los a deixá-los entrar na adega e a provar do seu vinho.
 
Uma vez que nem todos aceitavam de bom grado a eleição, recusando-se a abrir a porta, repetia-se a ensurdecedora «chocalhada» e a respectiva «assuada», a pôr a nu pecados escondidos. A festança terminava de madrugada, com aqueles que conseguiam, de pé, levar a festa até ao fim.
 
Noutras aldeias da Beira Baixa, também por tempos distantes, o dia de São Martinho costumava ser celebrado com os rapazes a improvisarem um andor onde colocavam um boneco de palha vestido com roupa velha. Ao som de campainhas e de chocalhos, o andor era levado pelas ruas, enquanto os elementos do cortejo e os acompanhantes que se iam juntando, principalmente a garotada, entoavam cantigas alusivas ao santo, sendo o boneco queimado no final da celebração. A «queima do São Martinho» verificava-se em diversas regiões, embora o ritual, ao longo dos anos tenha caído em desuso.
 
Consagrado por tradição à abertura nas adegas do vinho novo e da água-pé, o dia de São Martinho reveste-se, entre nós, país vinícola, de um simbolismo ainda marcadamente pagão. Daí, dizer-se, que as festas populares da abertura do vinho novo no mundo pagão grego-romano vieram a ter a sua réplica cristã nas festividades em louvor de São Martinho.
 
Soledade Martinho Costa
 
                                
                     
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas»
Ed. Círculo de Leitores, Vol. VIII
publicado por sarrabal às 00:30
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4 comentários:
De garatujando a 12 de Novembro de 2009 às 16:49
Na vasta obra de Soledade Martinho Costa - escritora, poeta e jornalista - avultam, como trabalho de grande fôlego, os oito volumes de "Festas e Tradições Portuguesas", colecção .editada pelo "Círculo dos Leitores", que nos põe em contacto com o que há mais profundo nas tradições da nossa gente.
A sua leitura conduz-nos numa digressão fascinante pelo nosso património etnográfico, e pelo mágico encanto das nossas tradições. É como que um excitante passeio, mês a mês, ao longo de todo o ano, em que se nos patenteia toda a diversidade dos costumes do nosso povo, do Minho ao Algarve, do litoral às mais remotas aldeias do interior.
Na sua descrição, fluida e amena, rica de pormenores valorizados por copiosa soma de imagens de grande qualidade, .Soledade empenhou toda o sua capacidade de investigação jornalística para nos proporcionar uma obra única no panorama literário português.
É desse seu valioso repositório cultural e etnográfico que Soledade extrai, de quando em quando, textos e gravuras com que enriquece o SARRABAL , como acontece neste post em que nos fala do S.Martinho " e dos eventos próprios desta quadra.

O meu abraço

Carlos Ferreira


De sarrabal a 12 de Novembro de 2009 às 20:40
Não posso deixar de agradecer este comentário - quase uma crítica (muito favorável!) - ao meu trabalho «Festas e Tradições Portuguesas».
Sim, de facto, de vez em quando publico textos retirados dessa obra. Outros irão sair. É uma boa publicidade aquela que faz! Neste momento não sei, com exactidão, o número de reedições do Círculo. Mas foi muito gratificante e importante para mim contribuir com este trabalho - que não estava ainda feito.

O abraço amigo de sempre.

Sol


De Ibel a 12 de Novembro de 2009 às 23:33
Curiosamente, embora aprecie sobremaneira as tradições populares, não lhes conheço as raízes profundas, motivo pelo qual, a leitura deste texto contribui para o conhecimento de rituais associados ao São Martinho que desconhecia completamente.
Muito obrigada.


De sarrabal a 14 de Novembro de 2009 às 20:23
Ibel, nada tem a agradecer, embora o seu agradecimento corresponda a uma evidente simpatia e amabilidade. Ainda bem que posso contribuir para melhor ficar a conhecer algumas das nossas tradições. Umas já passadas, outras ainda a fazerem parte de muitas das nossas festividades, ou de datas específicas do nosso calendário religioso e etnográfico. Como calcula, sobre esta temática muito tenho ainda para publicar no Sarrabal - não falando nos posts que já foram publicados.

Beijinho da Sol


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