Sábado, 7 de Novembro de 2009

HISTORINHA - A CEGONHA E OS SEUS VIZINHOS

                                

                                                          

           

 
No cimo da torre da capela, um vulto destaca-se no azul do céu.
- Está hoje muito calada, senhora Cegonha! – Nota, em jeito de puxar conversa, o relógio que mora sob o ninho da ave pernalta.
- Faço o contrário do vizinho, que mal abre a boca, não há ninguém que não oiça aquilo que diz!
- O que digo?! Ora essa! Digo as horas! – Abespinha-se o relógio. – E se não falasse tão alto, havia de ser bonito…
- Pois eu, sempre ouvi dizer que falar alto é uma coisa muito feia. – Comenta a cegonha para o irritar.
- Mas não quando se trata de um relógio. E muito menos de um relógio da torre de um campanário! – Contradiz o relógio, a adiantar-se, tiquetaque, com o nervosismo.
O sino, vizinho de ambos, atalha, apaziguador:
- Então, então, meus amigos, temos agora vizinhos quezilentos?
- Eu apenas disse que falar alto não é bonito. – Defende-se a cegonha.
- E eu respondi que, muito embora tenha o costume de falar alto, ainda há por aí quem diga que não me ouve. – Explica o relógio num tiquetaque mais acelerado.
O sino resolve dar a sua opinião:
- Como é do vosso conhecimento, não gosto de discussões. Mas sou forçado a reconhecer, senhora Cegonha, que não foi muito simpática aqui para o nosso vizinho relógio…
- E sabe porquê, amigo Sino? Sabe porquê? – Interrompe a ave migratória. – Porque estou, praticamente, em jejum. É verdade. Em jejum! – Repete, a justificar-se. – E olhe que não é à falta de manter os olhos bem abertos desde que rompeu o dia. Mas cobras e ratos, não há quem os veja… – Lamuria ela.
- E por causa da sua pouca sorte, atira o azedume para cima de mim! – Protesta o relógio, ainda agastado.
- Tem razão. Desculpe. – Pede a cegonha, à beira do ninho, pescoço curvado, o bico quase a tocar o ponteiro dos minutos.
O relógio abranda o tiquetaque.
- O que lá vai, lá vai. – Responde. – Há tanto tempo que somos amigos…
Feitas de um cheirinho a verdete, ouvem-se as palavras do sino:
- Era o que faltava, ficarem zangados. Demais, agora, que chegou o Outono e a senhora Cegonha está de abalada para o Norte de África.
E logo, a quebrar o silêncio que se intrometeu:
- Domingo, no final da missa, tenho dois baptizados. Vai ser um tão-badalão de se lhe tirar o chapéu! – Informa, num entusiasmo.
- Pois eu, vou dar outra volta. Pode ser que desta vez tenha mais sorte… – Despede-se a cegonha, em busca do almoço.
E o relógio da torre da capela, tiquetaque, acrescenta meia hora ao dia que arrefece.
 
Soledade Martinho Costa
   
                                                          
Do livro «Histórias que o Outono me Contou»
Ed. Publicações Europa-América
 
 
publicado por sarrabal às 12:01
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2 comentários:
De Ibel a 8 de Novembro de 2009 às 18:16
Uma história infantil, numa alegoria muito discreta, com significados bem profundos : a vaidade dos poderosos que gostam de alardear peneiras frívolas"- Mas não quando se trata de um relógio. E muito menos de um relógio da torre de um campanário!; as dificuldades de quem tem de lutar para sobreviver, numa azáfama demolidora"- Pois eu, vou dar outra volta. Pode ser que desta vez tenha mais sorte… – Despede-se a cegonha, em busca do almoço"; depois, a voz apaziguadora, voz de quem aparentemente gosta de ver todos em harmonia, mas que se inclina para as bandas dos que podem"- Como é do vosso conhecimento, não gosto de discussões. Mas sou forçado a reconhecer, senhora Cegonha, que não foi muito simpática aqui para o nosso vizinho relógio…"
E eis como, com histórias de meninos, se cumpre o papel do poeta como reconstutor de um mundo menos desigual, um mundo, como dizia sophia, proporcional ao equlíbrio da natureza:
" Sei que seria possível construir uma cidade humana ,fiel à harmonia do universo! Por isso recomeço sem cessar, a partir da página em branco/ e este é o meu papel de poeta para a contrução do mundo".



De sarrabal a 9 de Novembro de 2009 às 20:19
Ibel, muito bom ter lembrado aqui o nome de Sophia, uma das minhas poetas preferidas e amiga que bem conheci. Falei nela num dos meus posts já publicados no Sarrabal: «Uma Livreira Exemplar».
A crítica já me chamou «fabulista». Penso que sim. Servindo-me dos animais, muitos dos meus textos nos livros para crianças retratam as qualidades e os defeitos dos humanos. Essa a função da fábula tradicional. Por vezes de um modo demasiado cruel, considerando, hoje, os parâmetros que regem a educação infantil.
Escrevi dos álbuns onde adaptei algumas das mais conhecidas fábulas. Sem lhes retirar a «lição», acabei por limar-lhes um bocadinho as «arestas». Refiro-me à crueldade - embora o Mundo, infelizmente, continue cruel e as fábulas, por conseguinte, sempre actuais.

Beijinho da Sol


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