Terça-feira, 3 de Novembro de 2009

SEGREDOS - OS SAPATINHOS DE VERNIZ

                        

                                                 Farol de São Pedro de Muel.
 
O meu filho teria pouco mais de três anos de idade. Mas a memória guarda as imagens e as palavras, por vezes tão nitidamente, tão fielmente, que nem damos pela passagem do tempo. Tempo que nos traz de volta momentos que considero verdadeiras preciosidades, guardadas nos olhos, nos ouvidos e no coração.
 
É verdade que noutras ocasiões não acontece assim. O que sucedeu dilui-se, esfuma-se entre outras recordações, sem que possamos sequer lembrar um pouco só que seja do episódio acontecido, por mais boa vontade que tenhamos, por mais esforço que façamos na intenção de recordar, com maior ou menor exactidão, o que passou. Pode dizer-se que se trata, nestas circunstâncias, de uma espécie de amnésia total. Não é o caso. Pelo contrário.
 
Por essa altura era moda as crianças, meninos e meninas, usarem sapatinhos pretos de verniz. Era bonito, ficava bem e eu comprei uns sapatinhos ao meu filho. A minha filha, mais velha do que o irmão vinte e um meses, não chegou a usar. Nos meninos, sim, gostava de ver, nas meninas nem tanto.
 
O certo é que nesse dia foi uma festa lá em casa. O Luís Miguel não se cansava de calçar e descalçar os «sapatinhos de verniz», ou de os guardar na caixa, para logo os retirar de lá. Nesse e nos dias que se seguiram, falava e mostrava os sapatos ao pai, ao avô, à avó, aos amigos ou a quem passou lá por casa nessa ocasião. A caixa ficava à vista no quarto e a conversa do meu filho, volta não volta, tinha como tema «os sapatinhos de verniz», que, entretanto, já calçara por diversas vezes.
 
Sei que as férias chegaram por essa altura. Aliando uma coisa à outra, penso que a compra dos sapatos terá sido feita no mês de Julho, pela certa, visto as nossas férias, nessa época, recaírem no início de Agosto.
 
Por esses anos, a «nossa praia» era São Pedro de Muel, onde eu já passava férias desde os meus quinze anos. Praia linda, mar perigoso, tempo incerto, casacos de fazenda à noite, sempre – mesmo em Agosto. Uma praia em que as famílias, vindas de Coimbra, de Leiria, mas, principalmente, da Marinha Grande, formavam uma grande família. Ali todos se conheciam, todos conviviam, todos se estimavam. Hoje um pouco diferente, mesmo assim, São Pedro de Muel continua a conservar muitas das características de tempos mais recuados. Permanece o costume da caminhada tradicional em grupo, a dar pelo nome da «volta aos sete» – sete quilómetros de um percurso maravilhoso por entre o pinhal, a contornar S. Pedro e a terminar nas arribas da praia; o passeio obrigatório ao farol; a apanha das camarinhas pelos pinhais de D. Dinis e os concorridos e animados piqueniques sobre o denso tapete da caruma, à sombra dos pinheiros e dos medronheiros.
 
As jovens desses anos, como eu, são agora avós, e são os netos, ainda pequenos, a usufruírem da praia, sempre bonita, limpa e apetecível, do pinhal que a circunda, com o eterno «Bambi» (esplanada) sob os pinheiros, ponto de encontro, ainda hoje, de adultos e crianças, que se conhecem entre si, a fazerem até ao final da tarde (actualmente mesmo à noite) o convívio de mais um dia passado em agradável cavaqueira e companhia amiga.
 
Na primeira manhã dessas férias, já preparados para seguir rumo à praia, a pé (ainda hoje os carros em São Pedro praticamente não circulam), vejo o meu filho junto a mim com os sapatinhos de verniz na mão. Convém lembrar que, nesses anos, era de bom-tom em São Pedro de Muel, a partir da tarde, adultos e crianças «vestirem bem». E também à noite, se esta se mostrava convidativa para dar um passeio até à «esplanada da praia», lugar de encontro nocturno das famílias (hábito que se mantém), ou ao Casino (já desaparecido), que não passava de outro lugar aprazível para dançar e conviver.
 
Edificado rés à areia, terraço debruçado sobre o mar, orquestra, salão de buffet e de baile, sendo um edifício antigo e simples, de um só piso, o Casino, nos meses de Verão, constituía o centro da vida social de São Pedro de Muel. A entrada das crianças era livre e os sapatinhos de verniz davam, neste caso, um certo jeito. Actualmente, é menor a preocupação com o vestir.
 
Ao olhar o meu filho com os sapatos na mão fiquei por momentos sem atinar com o motivo da sua atitude. Mas o meu «porquê» depressa obteve resposta: «Vou calçar os sapatinhos de verniz, posso?» A minha reacção foi imediata. Que não, que os meninos não iam à praia com sapatinhos de verniz. «Mas eu ando só na areia!» insistia o meu filho, procurando uma argumentação mais válida. Expliquei que uma coisa dessas era impossível. Que os meninos não calçavam sapatinhos de verniz para ir à praia, muito menos para andarem com eles na areia. Dei as minhas razões, contrapus, enfim, disse redondamente que não. Nessa altura surgiu outro pedido, tão inesperado quanto o primeiro: «Mas posso levá-los dentro do saco da praia, deixas?» Aí, dei-me por vencida. Os olhos que me fitavam, ansiosos, a expressão suplicante à espera da minha resposta, foram a gota de água e condescendi: «Pronto, está bem, vamos levar os sapatinhos dentro do saco.» A alegria do meu filho não teve limites.
 
Durante vários dias os sapatinhos de verniz foram levados até à praia, embrulhados, dentro do saco das toalhas. Se lhes fez bem o ar do mar, é coisa que estou ainda hoje por saber. Agora que o meu filho se sentiu uma criança feliz, isso, posso garantir que sim.
 
Soledade Martinho Costa
 
                                         
publicado por sarrabal às 15:22
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4 comentários:
De Ibel a 3 de Novembro de 2009 às 21:13
Também eu guardo segredos destes quando a minha filha era botãozinho em flor.E de mim, quando era catraia, na Póvoa de Varzim, nas matinés do casino e nos longos passeios de bicicleta ao fim da tarde. E também recordo os casacos de Inverno nas noites de verão.Guardamos ternuras, guardamos os afectos mais preciosos, guardamos sapatinhos de verniz, vestidinhos de bordado inglês e esboços de sonhos a ganhar asas.
É bom revitar a casa que fomos e dá-la de presente aos filhos.Será o que ficará de nós, de tão íntimo , que as paredes da ternura deles estremecerão quando a travessia se fizer.E gostarão de nos lembrar com flores nas saudades que deles serão. Um dia. Hoje ainda há verniz na memória.


De sarrabal a 3 de Novembro de 2009 às 23:42
Ibel, fico vaidosa por ter no Sarrabal comentadores assim. A escreverem bem, a terem sensibilidade, a compreenderem um texto que sabem ler do avesso.
Agradeço-lhe as visitas e a escrita. Gosto da forma como escreve. É uma poetisa, Ibel! Os seus comentários são verdadeiros posts. Depois, sabe, eu conheço bem a Póvoa de Varzim. Passei lá férias. Vivem lá alguns amigos.
Ainda tenho sapatinhos guardados - não os de verniz, esses, perderam o brilho ao longo do tempo. Mas sempre que quero, volto a vê-los, a calçá-los ao meu filho: são as recordações que nos ajudam a viver e...a escrever crónicas!

Beijinho da Sol


De garatujando a 4 de Novembro de 2009 às 14:13
Com um pretexto comezinho (uma criança deslumbrada com uns sapatinhos de verniz que a Mãe, Soledade, lhe dera), a autora, no seu jeito de escrever, claro e fluido, conduz-nos através da sua memória onde conserva, segundo as suas próprias palavras, verdadeiras preciosidades guardadas nos olhos, nos ouvidos e no coração, e que não se diluíram nem esfumaram entre outras recordações.

Narrativa simples, despretensiosa , refere uma variedade de assuntos que abarcam
aspectos e hábitos que marcaram uma época já distante em S.Pedro de Muel .
A própria estância balnear, muito conhecida e apreciada, aparece-nos neste texto como uma aguarela, de pinceladas leves e sugestivas, com o seu pinhal, as suas esplanadas, o casino existente à época, os pontos de convivência dos veraneantes nas suas amenas cavaqueiras …
O pequenino Luís Miguel, então com pouco mais de três anos, enche o cenário, colorido e movimentado, com o forte apego aos seus novos sapatinhos de verniz, de que não queria separar-se nunca, nem mesmo na areia da praia,

Da singeleza da estória , e do tranquilo ambiente em que decorreu, Soledade soube fazer um agradável texto descritivo, que a capacidade narrativa da autora transformou em motivo de interesse para os seu leitores

O meu abraço

Carlos Ferreira


De sarrabal a 4 de Novembro de 2009 às 21:35
Carlos, é o que disse: posso gabar-me de ter como comentadores dua pessoas que sabem o que escrevem - e bem! Uma delas, ultimamente, a Ibel. A outra, o meu Amigo. Como agradecer as suas palavras? E já foram tantas! Sim, de vez em quando, há outros comentadores, igualmente generosos...
Quando verifico o meu contador, dou com um número gratificante de visitantes (à volta de duzentos, por vezes um pouco mais, diariamente). Páginas lidas mais ainda. Vou investigar a duração das visitas. Verifico que tanto podem ser três minutos, ou menos, mas também há casos em que a leitura dos posts chega a ultrapassar uma hora. Mas sem comentários. Então, deduzo: se uma pessoa esteve mais de uma hora a ler os meus textos, decerto lhe agradaram. Só não manifestou esse agrado.
Também é verdade que os blogs que «discutem« política têm, por regra, muitíssimos comentários. Os que falam de futebol, a mesma coisa. Para os do meu género (e do seu, Carlos) é mais difícil encontrar comentadores. Há um retraimento, principalmente, quando se trata de poesia.
Poucos, mas bons, sempre ouvi dizer, verdade?

Beijinho da Sol


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