Domingo, 25 de Outubro de 2009

O OURO - ENTRE O SAGRADO E O PROFANO

 

Senhor Santo Cristo dos Milagres, igreja do Mosteiro da Senhora da Esperança, Ponta Delgada, São Miguel, Açores.
 
As promessas de objectos pessoais em ouro feitas aos santos, na sua maioria peças de estimação, a simbolizar, no acto de quem delas se desfaz, o culto maior e o valor máximo da oferta atribuída, em troca da graça concedida (por vezes com a dádiva em dinheiro equivalente ao valor desse mesmo objecto), continuam a verificar-se nos dias actuais, com maior incidência no Douro Litoral e Minho, embora essa tradição religiosa se encontre quase perdida no resto do país.
 
                    
São Bento, Santuário de São Bento da Porta Aberta, Rio Caldo, Terras do Bouro, Minho.                
 
Uma das referências mais significativas vai para a grande romaria de São Bento da Porta Aberta, onde grande número de promessas são cumpridas com a oferta de objectos em ouro, parte deles expostos na chamada Casa das Estampas: pulseiras, cordões, anéis, alianças, medalhas, brincos (contando-se na peregrinação feita em Março de 2001 a oferta de onze pares), numa manifestação de religiosidade popular, a situar-se entre o sagrado e o profano.
 
                            
Escultura de Asclépio, que pode admirar-se em Epiduro, cidade da Grécia Antiga, famosa pelo templo a Asclépio e pelo majestoso Teatro, considerado Património da Humanidade pela Unesco.
 
O próprio culto a Asclépio, deus grego da medicina e protector da saúde (em Roma, Esculápio), era consumado com os doentes a agradecerem ao deus oferecendo-lhe objectos de ouro, que atiravam para a sua fonte sagrada, ao mesmo tempo que dependuravam ex-votos no seu templo.
                       
«Moisés com a Tábua das Leis», Rembrand, Museu Staatliche, Berlim.
 
Alguns autores relacionam a utilização do ouro nas práticas de religiosidade popular com a subida de Moisés (o vulto maior do Antigo Testamento) ao monte Sinai, a chamada «Ascensão de Moisés», quando o povo, na planície, julgando ter sido por ele abandonado, resolve juntar todo o ouro que possuía e construir com o metal precioso um bezerro, que passou a adorar, como se de um verdadeiro deus se tratasse.
 
 
                
Eventual protótipo do «Bezerro de Ouro», encontrado em 1990 nas ruínas da antiga cidade portuária de Ascalom, Israel
 
No regresso, Moisés, desiludido com a descrença do povo, destruirá o símbolo profano, pois só a um único Deus deveria o povo prestar obediência e culto.
 
Monte Sinai.
 
A oferta de ouro, poderá, então, simbolizar uma demonstração de veneração e arrependimento legada à humanidade, manifestada pela dádiva desse mesmo ouro «em pedaços» (que de pedaços foi moldado o bezerro), como sinal de respeito e de crença num único Deus e nos seus santos, em analogia ao «Bezerro de Ouro» despedaçado por Moisés ao descer do monte Sinai.
            
Por outro lado, se as promessas cumpridas com a oferta de objectos em ouro vão sendo mais escassas, continua a estar em uso, principalmente nas nossas comunidades rurais, o costume de utilizar o ouro proveniente de promessas para com ele adornar em datas festivas os santos que desfilam nos andores, além de ser o ouro, também, que enfeita as cruzes e os altares caseiros.
 
             
               Cruz Caseira, Vila Nova de São Bento, Serpa, Baixo Alentejo.
 
Nas Festas da Santa Cruz, em Vila Nova de São Bento (Serpa, Baixo Alentejo), cada cruz é ornamentada com objectos em ouro pertencentes aos donos da casa onde a cruz é erguida em cumprimento de promessa, juntando-se o ouro pedido e emprestado para essa ocasião.
 
Na Gaula (Santa Cruz, ilha da Madeira), no dia da festa e da procissão de Nossa Senhora da Luz, diz o povo que «a Virgem e o Menino ostentam o seu ouro», ou que «a Senhora vai carregadinha de ouro», numa afirmação onde a vaidade popular se confunde com a fé e esta com a adoração que, desta forma secular, se manifesta no culto prestado à sua padroeira.
 
Freguesia da Gaula, Santa Cruz, ilha da Madeira.
 
 Pode dizer-se que muitas festas e romarias são particularmente conhecidas pelo ouro que veste os seus padroeiros, caso, entre outros, de Nossa Senhora da Ortiga (Ortiga, Fátima, Vila Nova de Ourém), que sai na procissão coberta de ouro, oferecido, ao longo do tempo, pelos seus promitentes; de Nossa Senhora do Monte (Funchal), padroeira da ilha da Madeira, vestida com o ouro das promessas – peças do seu antigo «tesouro» composto por coroas, cruzes, anéis, pulseiras, arrecadas, cordões, fios, corações, e demais objectos de joalharia, quase todos incrustados de pérolas e pedras preciosas: esmeraldas, diamantes, ametistas, turquesas, topázios e outras («tesouro» vendido em parte a certo estrangeiro por volta de 1878 e já valioso em 1489); de Nossa Senhora da Piedade (Caniçal, Machico), a única procissão por mar realizada na ilha da Madeira, onde a imagem da Senhora ostenta grande profusão de ouro, a cobrir-lhe todo o peito, e de Nossa Senhora da Ajuda (Arranhó, Arruda dos Vinhos, Lisboa), com a parte da frente da imagem completamente coberta de ouro, numa profusão de cordões, arrecadas, fios, anéis, pulseiras, brincos, medalhas, medalhões e outras peças de ourivesaria – embora, por muitas se contem também as notas colocadas (pregadas) no andor pelas mãos dos devotos, igualmente em cumprimento de promessas.
 
        
Senhor Santo Cristo dos Milagres, no seu esplendoroso trono, forrado a veludo e cetim, bordado a ouro e ornado com flores de seda sob um dossel em talha de cedro dourada.
 
Outro imensurável «tesouro» pertence ao Senhor Santo Cristo dos Milagres (Ponta Delgada, São Miguel), onde a imagem, adornada ao longo de três séculos com riquezas de valor incalculável, resultantes de ofertas e promessas provenientes dos nobres ricos de épocas passadas  e  de devotos onde se inclui grande número de emigrantes açorianos espalhados pelo mundo, em particular na América, desfila na mais importante procissão dos Açores, representando a sua festividade uma das maiores manifestações religiosas açorianas.
 
             
 
Da infinidade de jóias de extraordinário valor material e artístico que a imagem ostenta, refira-se, entre outras, o relicário, com um enorme rubi e grande número de diamantes e brilhantes; a coroa, em ouro, ornamentada com mais de mil pedras preciosas, mandada fazer em Lisboa entre os anos de 1738 e 1759; o ceptro, onde se vêem vários ramos de folhas rematadas nas pontas por flores silvestres, decoradas com brilhantes, esmeraldas e rubis, espigas de trigo, com brilhantes e diamantes embutidos a servir de grãos, e grande laço de fita de ouro, em desenhos simétricos, num listrado de cinco faixas longitudinais, revestidas a pérolas, ametistas e esmeraldas, e as cordas que lhe atam as mãos, com mais de cinco metros de comprimento, compostas por cordões de pérolas enrolados entre si, intercalados numa corda entrançada em ouro.
 
                    
                         A veneranda imagem e o seu resplendor.
 
De toda esta riqueza e magnificência, destaca-se, sobretudo, o resplendor, peça verdadeiramente surpreendente, de platina folheada a ouro, com mais de seis milhares de pedras preciosas: esmeraldas, brilhantes, topázios, ametistas, safiras e rubis. Nele estão representados todos os símbolos da Paixão de Cristo, além da figuração de uvas e de espigas de trigo. Mandado executar em Lisboa, no século XVIII, encontra-se classificado entre os tesouros da arte sacra como «o mais valioso da Península Ibérica». Segundo a opinião dos especialistas, «absolutamente sem preço», só comparável à Custódia de Belém.
 
             
                                       Igreja Matriz de Quefes.
 
Recuando no tempo, em certas localidades do Algarve (Quelfes, Pechão, Santa Bárbara de Nexe, São Brás de Alportel, Querença, Lagoa, Estombar, Porches), pelo Natal, as mulheres percorriam as casas para recolherem os fios de ouro destinados a ornamentar o Menino, deitado numa caixa, cujo tampo, enfeitado com flores e estampas alusivas à quadra, era revestido no interior com um espelho, onde a imagem se reflectia ao abrir-se a caixa, dando a ilusão de levar maior quantidade de ouro do que aquela que na realidade continha. Este costume manteve-se na aldeia de Quelfes (Olhão) até aos anos cinquenta, com as mulheres a «sentirem orgulho por emprestarem o seu ouro para o Menino da Charola».
 
Mas existem também praxes de índole supersticiosa ligadas ao ouro. Na freguesia de Mar (Esposende, Minho) era uso, quando do primeiro banho do recém-nascido, fazer sobre ele uma cruz com o dedo polegar molhado na água, onde mergulhavam objectos de ouro na maior quantidade possível, de modo a que a criança, «durante a sua vida, fosse bafejada pela fortuna».
 
Soledade Martinho Costa 
       
                                                                                                          
 
Dos livros «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. IV, VI e VII
Ed. Círculo de Leitores
publicado por sarrabal às 14:11
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4 comentários:
De garatujando a 27 de Outubro de 2009 às 10:59
Aqui está uma abordagem diferente do tema, sempre preconceituoso, da religião. A fé numa entidade superior que rege os nossos destinos origina, qualquer que seja a religião que se siga, comportamentos os mais diversos. A necessidade, pungente por vezes, de auxílio num grave momento de aflição, leva-nos a evocarmos o auxílio de Deus e dos Santos em que depositamos a última esperança. E se adrega que a esperança se realiza, há que cumprir a promessa feita no momento da prece. Isto vale para todas as épocas, todas as religiões e todas as culturas. Está entre nós em discussão pública a suscitar as mais desencontradas opiniões, exemplos citados na Bíblia, o livro sagrado dos cristãos que serve de mote a uma obra polémica recentemente vinda a publico.
Mas o que está em causa neste post prende-se mais com aspectos culturais e etnográficos da nossa gente, aqui referidos com o conhecimento e a capacidade descritiva que são apanágio da Soledade, a merecer os aplausos de sempre por parte dos seus leitores.

O meu abraço

Carlos Ferreira


De sarrabal a 1 de Novembro de 2009 às 10:45
Se esta é, para si, uma abordagem diferente, Amigo Carlos, decerto irá notar «outra abordagem diferente» no post que vou colocar, exactamente sobre a tal discussão pública: o livro de José Saramago. Depois me dirá.

Grata pela sua opinião, sempre favorável em relação a mais este meu texto.

Abraço da Sol


De Daniel a 30 de Outubro de 2009 às 15:15
Belo trabalho, minha cara amiga. Só não cncordo (e estou convencido de que a Soledade tão-pouco) que a oferta de oiro tenha algo que ver com o episódio do bezerro adorado nas faldas do Sinai.
Um abraço.
Daniel


De sarrabal a 1 de Novembro de 2009 às 11:11
Se não concordasse, caro Daniel, creia que o não teria escrito. Hipoteticamente e por analogia, quem sabe se assim não é? Há que fazer comparações, deduzir, aventar. O trabalho do investigador, pode incluir os seus próprios pontos de vista ou suposições baseadas em factos. O texto diz: «A oferta de ouro poderá, então, simbolizar...», não dá certezas; sugere, apenas. Desta vez não estamos em sintonia!

Fiquei mais descansada por não referir a parte dedicada ao Senhor Santo Cristo dos Milagres. Mas de pé atrás...

Beijinho da Sol


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