Sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

PASSADO E PRESENTE - AS PROMESSA DO POVO

 

                                                  Fátima.
 
No culto pagão ou politeísta (que admitia a pluralidade dos deuses) e mesmo nas religiões monoteístas (que só reconheciam a existência de um deus único), praticavam-se três actos fundamentais: a oração, o sacrifício e a oferenda, que consistiam, por sua vez, em três propósitos: o propiciatório, na intenção de aplacar a fúria dos deuses, o expiatório, referente a qualquer mau procedimento, e o gratulatório, como gratidão pela graça concedida.
 
Três passos ainda hoje associados aos dias dedicados aos santos – aqueles que o povo consagra para desenvolver práticas de carácter específico (provenientes de remotos cultos agrários mágico/religiosos), que se mantiveram como elemento de sobrevivência, escolhidos, principalmente, para o cumprimento de promessas correspondendo à acção de graças obtidas dos santos advogados de um mal determinado, em rituais que representam uma das vertentes mais significativas e tradicionais das nossas romarias.
 
Sendo certo que a religião popular revela nas promessas a sua principal característica, não é menos verdade que algumas promessas de expressão penitente chegavam, mesmo, por tempos mais recuados, a tomar aspectos marcadamente dolorosos ou arrepiantes, como o de roçar a língua pelas paredes da capela, apresentar-se amortalhado ou ser levado em caixão de defunto.
 
Também as penitências que consistem em caminhar de joelhos durante um certo percurso, começam, por vezes, a partir do local de onde, pela primeira vez, a pessoa que a vai cumprir avista o santuário.
 
Fazem-se promessas de flores, rosários, ouro, círios, velas (que podem apresentar a altura ou o peso exactos da pessoa agraciada) e outros objectos em cera (figurações de animais e de partes do corpo humano), produtos da terra, gado, dinheiro, etc.
 
Entre outras, registam-se, especificamente,  promessas a Santa Luzia, advogada contra as doenças dos olhos, com a promessa de «olhos vivos» (animais vivos); a São Gil, advogado contra as doenças malignas, com promessas de flores e figurações em cera; a São Lourenço, advogado contra as dores de cabeça, dores de dentes e queimaduras (estas devido à tradição do santo ter sido queimado vivo numa grelha), com promessas de velas e figuras em cera, antigamente com a promessa de telhas; a Santa Marta, protectora das parturientes, com a promessa de «ir de luto», vestindo os promitentes roupa preta atrás da procissão (caso da romaria de Santa Marta de Portuzelo, Minho); a Santa Justa, advogada do leite materno e da esterilidade feminina, com a oferta de frangos e frangas brancos (representando o branco, na linguagem cristã, o símbolo da alegria, da inocência e da pureza) e a Santo Ovídeo, advogado contra as dores dos ouvidos e os maridos infiéis, neste último caso, com a antiga promessa (sem certeza de ter caído em desuso) da oferta de telhas, levadas com milho dentro, que teriam de ser roubadas pelo caminho até às capelas do santo.
 
Esta prática aparece como propiciatória no roubo ritual que se fazia outrora do Menino Jesus que Santo António segura ao colo, muitas vezes desaparecida das imagens do santo, tradição que se manteve até aos inícios do século XX, efectuada, segundo o povo, «para dar sorte».
 
Soledade Martinho Costa
                                  
                   
 
 Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol.VI
Ed. Círculo de Leitores
publicado por sarrabal às 00:05
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2 comentários:
De garatujando a 23 de Outubro de 2009 às 19:55
Esclarecedora digressão esta, que Soledade faz pelas tradições religiosas de promessas e penitências. Rebuscando origens no passado e projectando-as no presente - com oportuna relevância para o fenómeno de Fátima -, a autora faz um interessante estudo sobre o tema, aqui vertido numa linguagem clara, erudita sem afectação, numa dádiva de conhecimentos perfeitamente acessível. Ao percorrer o texto o leitor "revê" manifestações piedosas que constituem a base religiosa das muitas romarias que, tão ao gosto do nosso povo, têm lugar ao longo do ano, de norte a sul do país,
O SARRABAL sai sempre mais e mais enriquecido assim, com textos da qualidade a que os leitores já se habituaram.

Para a Soledade, o abraço de sempre

Carlos Ferreira


De sarrabal a 23 de Outubro de 2009 às 21:40
E, como sempre, o prazer que me dá ler os seus comentários. De quem sabe, de quem sente, de quem se interessa pelas tradições deste nosso povo. O que fica, são as restantes palavras, tão gratificantes para mim, de um leitor e de um amigo
que muito prezo - com a certeza de que voltarei a este tema (já no próximo post!)

Outro abraço amigo para si, Carlos.

Sol


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