Terça-feira, 20 de Outubro de 2009

SANTOS PADROEIROS - ORIGENS

Santa Justa e Santa Rufina, Murillo, Museu de Belas Artes de Sevilha.
 
As promessas que se fazem e se cumprem aos santos, resultam da fé, da devoção e do culto religioso que o povo presta aos oragos de um lugar, de uma aldeia, de uma vila ou de uma cidade – ou, tão-só, ao titular de uma igreja ou de uma capela.
 
Anteriormente ao século VII, as catedrais, igrejas ou localidades não possuíam santos titulares ou padroeiros. Apenas as basílicas e igrejas que conservavam as relíquias de um santo mártir podiam adoptar o seu nome como santo padroeiro ou titular desses lugares sagrados.
 
A partir desse século quase todas as igrejas começam a organizar-se no sentido de elegerem os seus padroeiros, sendo escolhidos, em primeiro lugar, naturalmente, as figuras do Divino Salvador e da Virgem Maria, seguidas dos Santos Mártires.
 
Por altura da conquista da Espanha pelos Árabes, já todas as igrejas possuíam um santo padroeiro, a dar o seu nome ao templo e a servir de patrono às comunidades.
 
Em documentos da Idade Média, é usual o nome das localidades ser antecedido do nome do seu padroeiro, datando dessa época o processo da constituição das paróquias formadas em núcleos sociais, a assinalar a vida comunitária e religiosa das populações.
 
Reposto o culto cristão após a Reconquista, reatou-se esta tradição cristã (que nunca deixou de manter-se), a englobar capelas, igrejas, mosteiros e lugares, numa reafirmação da religiosidade popular.
 
Os novos colonos das comunidades, que tomaram para si as terras abandonadas pelos Mouros, no sentido de as povoar e cultivar, acabaram por ser eles próprios a contribuir para devolver às populações as práticas da devoção cristã, incluindo as do culto prestado aos seus santos padroeiros, procedendo à reconstrução ou edificação de capelas e igrejas, entretanto destruídas, de modo a que o povo pudesse praticar os preceitos religiosos da sua devoção em locais sagrados.
 
À frente dos templos, como responsáveis e orientadores pastorais dessas mesmas comunidades, eram colocados sacerdotes, por esse tempo a designarem os fiéis por fili eclesiae («fregueses»), designação que se estendia à localidade, dando-se-lhe o nome de  «freguesia» - a substituir a anterior denominação, «paróquia», actualmente recuperada, embora de certa forma circunscrita às actividades paroquiais (religiosas) de cada terra.
 
O processo de reorganização e formação das comunidades rurais, conquanto moroso (vai do século V ao século XI), é retomado a partir de então, agora com a igreja ou a capela sob a invocação dos santos a associar-se, em estreita união com as populações, no sentido de passar a celebrar-se em data fixa o dia dedicado ao orago, escolha a recair no seu dia litúrgico, estipulado pela Igreja Católica, ou em datas ligadas a acontecimentos importantes ocorridos no seio das comunidades e relacionados com a figura do santo.
 
Por outro lado, a origem das romarias deriva, supostamente, das peregrinações da era apostólica ao túmulo de Jesus, em Jerusalém, às quais se seguiram as peregrinações a Roma, capital da Igreja Católica, com grupos de peregrinos em cumprimento de promessas aos túmulos dos apóstolos São Pedro e São Paulo.
 
Como alguém escreveu, «os crentes iam a Roma, romeavam, eram romeiros», diferindo das grandes peregrinações o facto de as romarias serem realizadas anualmente em caminhadas de menor percurso.
 
Às peregrinações a Roma e a outros santuários de invocação a Cristo ou à Virgem Maria, associaram-se depois as de veneração aos santos, acrescentando-lhe o povo a parte profana – a diversão –, ou, simplesmente, mantendo-a, vinda de épocas pré-cristãs.
 
Com o passar do tempo, em certas localidades, alguns dos antigos padroeiros acabaram por ter pouco significado, verificando-se, mesmo, a extinção da sua festa, quer por motivos da ruína dos templos e consequente desinteresse das populações, quer por terem sido ultrapassados, no decorrer dos anos, por uma devoção maior a outro santo.
 
Símbolo da fé do povo e sinónimo de protecção à comunidade paroquial – a delimitar, por vezes, o próprio território que lhe cabe, como guardião das terras e dos seus respectivos habitantes –, o santo padroeiro significa o amparo e o confidente, o protector, aquele que, por sua intercessão junto de Deus, tem a faculdade e a missão de defender e obter para quem a ele recorre, o louva e nele confia, as graças pedidas em oração e voto de promessa – particularmente, nas alturas mais precisas e difíceis da vida de cada um.
 
 
Soledade Martinho Costa
                                                         
                                          
                            Capela da Senhora de Alcamé, Vla Franca de Xira.
 
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol.VI
Ed. Círculo de Leitores
 
publicado por sarrabal às 00:03
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6 comentários:
De RicardoN a 21 de Outubro de 2009 às 19:15
Oi amiga. Está um prémio para si no meu blog (http://golfinhoalegre.blogspot.com).
Muito sucesso!

Melhores cumprimentos


De sarrabal a 22 de Outubro de 2009 às 19:54
Ricardo:

Agradeço mais esta gentileza da tua parte. Já fui buscar o prémio e vou publicá-lo, como mandam as regras!

Abraço amigo para ti da Sol


De garatujando a 22 de Outubro de 2009 às 11:21
No SARRABAL encontra-se sempre motivos de interesse, porque os temas são variados e de substantivo conteúdo.
Desde a poesia à literatura infantil; desde artigos de opinião a relatos factuais; desde divulgação cultural de sentido lato à etnografia em particular, tudo suscita a atenção do leitor.
Neste post, Soledade transcreve da sua valiosa obra em oito volumes «Festas e Tradições Portuguesas», um artigo que nos fala dos Santos Padroeiros, assunto de especial acuidade na tradição reliogiosa do nosso povo. Este artigo evidencia sério e aprofundado estudo sobre o tema - como de resto acontece com tudo quanto pode ler-se naquela admirável obra.
O estilo elegante e sóbrio usado pela autora, confere aos seus trabalhos, seja prosa ou poesia, leitura fácil e agradável, que induz o visitante a voltar mais e mais vezes.
É o que acontece comigo, assiduo leitor que sou deste muito interessante blog. E de cada vez que o faço só encontro motivo para expressar à Soledade merecidos parabéns.
Aqui deixo o abraço amigo de sempre.
Carlos Ferreira


De sarrabal a 22 de Outubro de 2009 às 20:02
Carlos:

Como sempre, presenteia-me com um belo texto! Nem todos os comentadores têm tanto talento para analisar um post, acredite.

Só posso agradecer-lhe a permanente visita ao Sarrabal e testemunhar-lhe o gosto que tenho em recebê-lo. Espero continuar a merecer o seu apreço e amizade.

Abraço amigo da Sol



De Thamiris Lacerda Duarte a 22 de Maio de 2016 às 01:33
Olá!
É mais um pergunta do que um comentário, estou pesquisando sobre o santo padroeiro de minha cidade, assim gostaria de saber qual base vcs usaram para esse texto.


De sarrabal a 26 de Maio de 2016 às 21:49
A sua cidade fica em Portugal? Vá ao Google e coloque. PADROEIRO DE..... (Nome da Terra). Para elaborar este texto, foi bastante mais difícil, como pode imaginar. Trata-se de um trabalho que fiz com 8 volumes... Saudações!


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