Sábado, 10 de Outubro de 2009

SEGREDOS - O ENCONTRO

             Casa de Amália Rodrigues, na Rua de São Bento, Lisboa.     

  

      

             Amália Rodrigues                                     Dulce Pontes

   

Muitas vezes se pronunciou o nome de Dulce Pontes em casa de Amália Rodrigues. Nos serões (inesquecíveis), falava-se de tudo um pouco, sem que nunca ficassem de fora os cantores, os fadistas, a música, os músicos, os poetas e a poesia.
 
Sobre Dulce, Amália costumava dizer: «Tem uma grande voz. Mas não para cantar o fado. Ela deve cantar canções. Mesmo jazz. Fado, não!»
 
Concordando ou discordando desta opinião, uma coisa é certa: Amália sentia-se melindrada (e disso não fazia segredo) pelo facto de Dulce Pontes ter gravado o álbum «Lágrimas» (onde se podem ouvir muitos dos fados de Amália), argumentando: «Devia ter tido uma atenção para comigo. Um simples telefonema bastava.» Nessas ocasiões, costumava lembrar-lhe que Dulce lhe dedicara esse trabalho. Mas Amália não abrandava o melindre.
 
Sendo eu também amiga de Dulce, e ouvindo-a enaltecer constantemente Amália Rodrigues, este desentendimento entristecia-me. Saber aquelas duas grandes vozes, não direi de costas voltadas, mas com um muro invisível a dividi-las, fazia-me pensar.
 
Certa vez, Dulce, confessou-me: «Num espectáculo em que participei, vi a dona Amália sentada na plateia. Fiquei aterrada. Quando entrei no palco, as minhas pernas tremiam como varas verdes!». A admiração de Dulce por Amália não tinha limites. A admiração de Amália por Dulce era limitada, devido a «um simples telefonema» que não fora feito.
 
Um dia perguntei a Dulce Pontes se gostaria de visitar Amália. A resposta veio, num entusiasmo: «A Soledade fazia isso? Fazia? Era a coisa que mais desejava!». Faltava-me «investigar» a outra parte.
 
Foi fácil. Quando falei a Amália na grande vontade de Dulce em visitá-la, mostrou-se amuada: «Ora, ora. E porque foi que não me telefonou? Era assim tão difícil?». Expliquei que Dulce se sentiu inibida, mas que a adorava desde criança. Antes do serão terminar, disse-me: «Então, traga lá a pequena. Ela que venha. Marcamos uma noite destas.» Assim aconteceu.
 
Marcou-se o dia, depois do jantar, por volta das dez da noite. Combinámos o encontro à porta de Amália, na Rua de São Bento, indo eu de Alverca do Ribatejo e a Dulce do Montijo. Quem chegasse primeiro, esperava.
 
É aqui que entra um dos meus costumados «pequenos trocos» (trocas). Dei, à Dulce, o número da porta de Amália mas…errado! Quando visitava Amália, nem reparava no número; conhecia o prédio de cor. Nessa noite, não. Cheguei primeiro, olhei o número da porta e apercebi-me que não era o mesmo que havia dado a Dulce Pontes!
 
Nessa altura (já lá vão uns anos), não tínhamos, como hoje, um telemóvel à mão. Com Dulce a caminho, restou-me uma alternativa: deixei a pessoa que me acompanhava à porta de Amália (não fosse Dulce ter dado pelo engano) e, pelo sim, pelo não, fui postar-me à porta do número errado – para meu azar, situado bem lá ao fundo da Rua de São Bento. Pouco depois, ao longe, era alertada por gestos: Dulce tinha chegado à porta de Amália!
 
Resumindo. Ao dar ao taxista a morada de Amália (Dulce tinha carta e carro mas não conduzia), este alertou: «Esse não é o número da porta da dona Amália. Mas não se preocupe. Eu conheço bem o prédio».
 
Dulce Pontes estava bonita: vestido comprido, com casaquinha justa, em tom pérola, botinhas e chapéuzinho na mesma cor. Nas mãos um bouquet de rosas. Quando lhe relatei o meu lapso, respondeu-me, para consolo da minha auto-estima: «Ora, Soledade, isso não é nada, comparado com o que se passou comigo. A poucos minutos de chegar, lembrei-me de abrir o CD que trago para oferecer à dona Amália. Estava vazio! Devia ter sido a minha mãe para o colocar na aparelhagem. Pedi ao taxista para me levar rapidamente ao Centro Comercial das Amoreiras e fui comprar, imagine, o meu próprio CD! Olhe se calha não o ter aberto?!»
 
No meio de risos, subimos e aguardámos na sala. Amália jantava tarde, adormecia tarde e levantava-se tarde. Quando entrou, simples no vestir, como sempre  acontecia quando estava em casa, pigarreou. Lembro-me das suas primeiras palavras: «Lá está o meu pigarro. Fico sempre pior quando estou nervosa». Não. Não era pigarro. Era a doença ainda não detectada.
 
O serão foi especialmente agradável. Depois de Dulce ter confessado a Amália «que se tinha mantido em silêncio, por acanhamento», a conversa tornou-se solta e tomou o seu rumo: falou-se de mil e uma coisas, incluindo «alguns comportamentos» de editoras discográficas, de edições piratas, de espectáculos, de viagens – pelo meio, com Amália a insistir no conselho: «A Dulce deve cantar boas canções. Fado, não. Aquilo que canta não tem nada a ver com o fado!». Para logo acrescentar, num elogio meio discreto: «Olhe que fui eu quem deu o seu nome e o da Teresa Salgueiro para os espectáculos lá em Tóquio, por serem duas boas vozes!»
 
Trocaram-se sugestões sobre chás: Dulce a indicar o «chá de perpétuas roxas», que Amália prometeu experimentar, esta a sugerir o «chá de cebola», que Dulce garantiu ir experimentar também. À saída renovou-se o convite: «que Dulce voltasse para outro serão». Pouco faltava para as quatro horas da manhã quando saímos de casa de Amália – que veio despedir-se à varanda, como sempre fazia.
 
Senti-me feliz. Com a sensação de um dever cumprido. Juntar as duas maiores vozes femininas do fado e da canção nacionais, aproximá-las, fora dos palcos, na compreensão, no companheirismo, no respeito mútuo, sem esquecer o beijo de despedida que trocaram, constituiu, para mim, um acontecimento que jamais esquecerei.
 
Pouco tempo depois, era diagnosticada a doença de Amália, seguindo-se a sua ida para os Estados Unidos, onde se manteve durante meses. Dulce telefonava-lhe. Quando Amália regressou, enviou-lhe flores. Mas a visita não se repetiu. Ficou a amizade entre as duas. A admiração de uma pela outra.
 
Ficou, igualmente, o meu espanto por ser eu a juntá-las. E ainda a pergunta que faço a mim própria até hoje: porquê, eu? Nunca saberei responder. Provavelmente, porque o destino me colocou no caminho de ambas. Deve ter sido.
 
Soledade Martinho Costa
 
                                                          
                                                    Guitarra portuguesa
publicado por sarrabal às 00:40
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4 comentários:
De garatujando a 10 de Outubro de 2009 às 15:51
SOLEDADE

Muito interessante este circunstanciado relato do encontro da Dulce Pontes com a Amália, em casa desta. Deve ter sido um acontecimento marcante para as duas (uma a grande Senhora do Fado, a outra, Dulce Pontes, uma voz que, mais que uma promessa, era já uma fascinante realidade no panorama musical em Portugal e no mundo. E imagino a íntima satisfação que a Soledade terá experimentado na altura, pelo privilégio de ter sido a promotora de tal encontro. Aliás, essa satisfação perpassa ao longo de todo o bem elaborado relato em que, aqui e ali, são notórios os momentos da sua contida emoção, no decurso de uma noite invulgar dada a personalidade e reconhecido prestígio de cada uma das três participantes.

Abraço amigo

Carlos Ferreira


De sarrabal a 10 de Outubro de 2009 às 21:39
Noite invulgar, sim, diz muito bem, Carlos. Jamais a esquecerei; foi única! Estava capaz de afimar: «Foi Deus» que me deu esta oportunidade tão singualar - talvez não esteja muito longe da verdade...

Abraço muito amigo

Sol


De IBEL a 3 de Março de 2011 às 01:35
Nem sabe o quanto me agradou esta história verídica. Eu gosto da Amália, mas adoro a Dulce pontes, a meu ver, uma das melhores vozes da actualidade. Que inveja tenho desse encontro. quem me dera ter estado com as duas. Não sabia que era tão íntima da nossa falecida deusa do fado.
Olhe que há coisas mesmo destinadas!
"Senti-me feliz. Com a sensação de um dever cumprido. Juntar as duas maiores vozes femininas do fado e da canção nacionais, aproximá-las, fora dos palcos, na compreensão, no companheirismo, no respeito mútuo, sem esquecer o beijo de despedida que trocaram, constituiu, para mim, um acontecimento que jamais esquecerei."
Que mulher de sorte, Sol!
Gostei mesmo!!!!!
PS. Que pensa da Marisa, se não estou a ser indiscreta? É que não me convence...


De sarrabal a 5 de Março de 2011 às 01:34
Ora, o que penso da Mariza não tem resposta fácil, Ibel. De início, sou sincera, notava-lhe qualidades, mas ainda por desenvolver. Hoje gosto mais. Por vezes, gosto mesmo, sem rodeios. A Mariza foi ganhando doçura na voz, foi cantando com o sentimento de quem entende os poemas que canta. Foi gritando menos. Foi suavizando o ritmo do canto. Foi aprendendo, foi crescendo como fadista. Ainda terá algum caminho a percorrer, mas acredito que irá lá chegar sem grande esforço. Tem uma voz potente e presença em palco - embora me pareça que uma certa «encenação» estará a prejudicá-la. A simplicidade é sempre um trunfo. Mas há por aí outras vozes jovens a competir com ela - e bem! Simplesmente, a Mariza já leva algum avanço... Além disso, tem por trás uma boa equipa e algum «apoio» também!
É o que penso. Beijinho da Sol


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