Segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

BORDA D'ÁGUA - O LINHO (CONCLUSÃO) - «DEPOIS DO OIRO É O LINHO»

«As Fiandeiras», Diego Velásquez, Museu do Prado, Madrid.
 
 
Parte I - Da Flor à «Baganha»
Parte II - Da Roca e do Fuso à Dobadoira
Parte III (Conclusão) - «Depois do Oiro é o Linho»
 
 
Considerada ainda não há muitos anos uma espécie de símbolo da coesão familiar, o linho representava, por isso mesmo, uma herança transmitida de pais para filhos, quer constituída por reservas de roupa branca de vestir e destinada à casa, quer em roupas do «bragal» (enxoval) das raparigas ou em peças inteiras guardadas em rolos nas grandes arcas, como um tesouro de real valia.
 
                 
 
De um modo geral, tudo se fazia com o linho: lençóis, toalhas de mesa ou de rosto, colchas, camisas, saias, coletes, toalhas de altar e os antigos «sacos de côngrua», enfeitados com uma renda na abertura – que serviam para meter o milho oferecido em certas aldeias, pela maior parte das pessoas, ao padre no dia da visita pascal – o «compasso» –, como acontecia no Sobrado (Valongo, Porto).
 
                      
 
As peças de vestuário ou destinadas à casa, confeccionadas em linho, na sua maioria bordadas, continuam, nos dias actuais, embora dispendiosas, a ser amplamente comercializadas, tendo em conta a sua beleza e sentido da verdadeira riqueza que representam no contexto da nossa tradição artesanal – bem elucidativo, em termos de valor, no ditado local de Ponte de Lima (Minho): «Depois do ouro, é o linho».
 

 

Os «tomentos» eram antigamente utilizados em panais para a apanha da azeitona, colchões e sacos para guardar os cereais, enquanto a estopa era usada em calças, saias e aventais de trabalho – hoje a servir à confecção de carpetes, tapetes, reposteiros e ainda à execução dos trajos destinados aos ranchos folclóricos, onde se aplica, igualmente, a estopinha.
 
         
                              Rancho Folclórico da Golegã.
 
Por merecer reparo, registe-se que, no Porto, na noite de São João, mandava a tradição que fosse colhido um raminho de linho em nove linhares, formando com eles um único ramo, que se guardava depois com fins mágico-propiciatórios.
 
Linhal.
 
Em Santo Tirso (Porto), era igualmente hábito, entre Maio e Junho, irem casais de jovens aos campos de linho, antes deste ser arrancado, para formarem pares e rolarem sobre os linhares, num evidente ritual pagão de fecundidade, chamado ali, o «talhar da camisa» – tradição não completamente esquecida, pelo menos nas aldeias ao redor de Arco de Baúlhe (Cabeceiras de Basto, Minho), onde os mais antigos e os mais novos continuam a manter o preceito. Por isso, a quadra: «Raparigas e rapazes/Ó jovens de Portugal/Vinde talhar a camisa/Em cima do meu linhal.»
 
                 
  
Considerada uma actividade caseira, praticada especialmente por mulheres, mostrava-se mais desenvolvida na região norte, com várias centenas de artesãs concentradas, sobretudo, no Vale do Sousa. Na sua forma artesanal, o linho pode apresentar trabalhos misturados com lã, seda, algodão ou estopa.
 
             
 
Na Beira Baixa (Alcains, Caria, Belmonte, Pêro Viseu, Oleiros e, principalmente, na Covilhã) o número de tecedeiras, por volta de 1865, segundo estatísticas da época, era de mil trezentas e noventa e cinco, que possuíam teares, enquanto o total de linheiras, que trabalhavam apenas os fios de linho, era de cento e uma.
 
                
                          Tear, Zagalho, Penacova, Coimbra.
 
Actualmente, com o linho, na sua maioria, importado de Itália, Bélgica e Irlanda, para «urdir» (ir ao tear) e para «tapar» (já tecido), o número de tecedeiras e bordadouras é de alguns milhares espalhados por todo o país, embora, mais marcadamente, em certas localidades e regiões, casos de Apúlia (Minho); Guimarães, Boucos, Agra e Arouca (Douro Litoral); Simões, Vilarinho, Bilhó, Mondrões e Agarês (Trás-os-Montes); Castro Daire (Beira Alta); Vale de Cambra e Almalaguês (Beira Litoral) – com destaque para os bordados manuais de Lixa, Felgueiras, Lousada e Paços de Ferreira (Douro Litoral), que apresentam bainhas abertas, ponto aberto, crivo, matiz, alto-relevo, richelieu, etc…
 
Tear, Sendim, Miranda do Douro.
 
Lugares onde ainda se semeia e tece o linho tradicionalmente, cada vez mais raros, por não ser economicamente viável, vamos encontrá-los, entre outros, em Pedraça, Predaído, Corrilhã, Moreira, Covide e Apúlia (Minho); Tropeço, Nespereira e São Pedro de Raimonda (Douro Litoral); Soutelo e Paradela do Rio (Trás-os-Montes); Cruz dos Madeiros (Monchique, Algarve) e Lombo do Curral (Santana, ilha da Madeira), lugar conhecido, antigamente, por «fazer os melhores panos de linho».
 
          

 

Algumas das localidades em que se procede à encenação das antigas espadeladas, como espectáculo recreativo e cultural, situam-se em Corredoura (Guimarães), a cargo do rancho folclórico local; Moreira (Monção), a cargo da Casa do Povo de Vale da Gadanha; Barroças e Taias (Monção), a cargo da Junta de Freguesia e Ribeira de Pena (Trás-os-Montes), a cargo da Câmara Municipal.

 

 

Soledade Martinho Costa
 
                                         
 
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. VI
Ed. Círculo de Leitores
 
publicado por sarrabal às 21:44
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11 comentários:
De Armando Pinto a 6 de Outubro de 2009 às 23:52
Descobri agora este site e gostei muito.
Sobre o linho (como obviamente outros temas, mas este é que vem ao caso) escrevi em tempos um artigo no livro oficial de um festival de folclore, de um Rancho, que se quizer (bastando enviar-me para meu mail « apintolongra@gmail. com » o s/ endereço electrónico) lhe posso enviar.
Cumprimentos do
Armando Pinto


De sarrabal a 7 de Outubro de 2009 às 00:01
Armando Pinto:

Fico satisfeita por ter gostado do meu blog.
Vou enviar-lhe o meu e-mail. Tenho todo o gosto em receber o seu texto e saber mais sobre si, poderá ser?

Saudações cordiais

Soledade Martinho Costa


De José Dias a 21 de Outubro de 2009 às 10:52
Sou José Dias de Macedo de Cavaleiros
Na pesquisa tecelagem das "Colchas de Agarês " vi o sue Blog.
Gostava de saber mais sobre esta origem das "Colchas de Agarês ".


De sarrabal a 22 de Outubro de 2009 às 19:25
Caro José Dias:

Embora no meu texto não me refira, propriamente, às «colchas de Agarês», mas a algumas das localidades onde é mais significativo o número de tecedeiras, caso de Agarês, aqui lhe deixo alguns dados sobre o que me pede:
As colchas que menciona são, com efeito, características dessa aldeia do distrito de Vila Real. As mais tradicionais levam o nome de «coroa do rei», seguindo-se as que apresentam o brasão de Vila Real (uma cercadura de parras atravessada na vertical por uma espada) e as que ostentam o clássico monograma, todas elas em relevo.
Ainda assim, os trabalhos em linho mais conhecidos de Agarês, são os «panos de tabuleiro», com origem nos modelos antigos, isto é, nos panos de linho que serviam, outrora, para tapar a «merenda» dos trabalhadores rurais, levada na loiça de barro negro tradicional de Bisalhães e, de um modo geral, típica de todo o distrito de Vila Real.
Recentemente, foi lançado um livro, «Artesanato em Portugal», editado pelo Centro de Artes Tradicionais do Porto, onde a artesã Adelaide Barrias, natural de Agarês, oferece ao leitor uma entrevista onde fala do seu trabalho de muitos anos a tecer estas belas e tradicionais peças de linho.
Espero que as informações tenham sido úteis.

Saudaçõs cordiais.

Soledade Martinho Costa


De Maria Regina Zambianco a 9 de Novembro de 2013 às 16:58
Cara Soledade!!
Gostei muito dos seus textos históricos sobre o linho.
Moro no Brasil, mais precisamente no sul de Minas Gerais numa cidade chamada Itajubá.
Minha descendência tanto paterna quanto materna é italiana e herdei o gosto por bordados.
Quero saber se é possível encontrar riscos de bordados dos panos de tabuleiros antigos ou até riscos de enxoval de bebê.
E se é possível enviá-los por e-mail.
saudações cordiais.
Maria Regina



De sarrabal a 13 de Novembro de 2013 às 01:34
Cara Maria Regina, grata por ter gostado dos meus textos. Quanto aos riscos antigos, não posso ajudá-la. Só em revistas da especialidade. Procure no Google em desenhos de peças de linho antigas, ou como melhor entender. Por exemplo: títulos de revistas de trabalhos manuais em linho. Vá procurando, é possível que encontre alguma indicação.
Abraço!


De bordadosdevilacova a 24 de Maio de 2010 às 12:51
óla gostei muito da toalha gostava muito de ver o gráfico aqui esposto, e se podesse mandar-me tambem o gráfico das letras tambem são muito bonitas, sabe é que vou fazer uma esposiçao e gostaria muito de fazer esse trabalho muito obrigado.


De sarrabal a 25 de Maio de 2010 às 01:11
Lamento muito mas não me é possível ajudá-la. Tenho apenas as fotografias. Felicidades para a sua exposição!

S. M. C.


De Algecira Castro a 17 de Setembro de 2010 às 18:54
Amiga, juro que um dia ainda visito essas cidades maravilhosas e suas bordadeiras com seus maravilhosos bordados. Sou apaixonada por bordados e as materias estão prazeirosos de se lê. Parabéns! Convido a visitar meu blog: http://alcastrosantos.blogspor.com será um prazer receê-la. Abraços


De sarrabal a 27 de Setembro de 2010 às 19:06
Algecira:

Ainda bem que gostou do post. Aí do Brasil, será um prazer recebê-la aqui em Portugal. Venha quando puder. Sonhar nada custa, minha Amiga!

Beijinho da Sol


De sarrabal a 27 de Setembro de 2010 às 19:15
Algecira:

Pelos dados que deixou, não consegui encontrar o seu blog. Quer deixar mais algum esclarecimento?

Outro beijinho

Sol


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