Segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

BORDA D'ÁGUA - O LINHO - DA ROCA E DO FUSO À DOBADOIRA (II)

Fiar o linho, S. Joanico, Vimioso, Bragança.

 

Parte I - Da Flor à «Baganha»

Parte II - Da Roca e do Fuso à Dobadoira
 
Depois da «arrinca» do linho (apanhado à mão) e da sua separação em molhos, estes são «enriados» ou «afogados», isto é, mergulhados num tanque, entre dez a quinze dias, onde ficam para fortalecer e soltar a parte fibrosa, colocados em camadas paralelas, com tábuas por cima e algumas pedras sobre elas, de modo a conservá-los fixos e submersos. Em Roriz, Outeiro, Veiga e Leiroinha (Braga) com as chamadas «poças do linho» (já desaparecidas), usadas outrora unicamente para esse fim.
 
«Afogar» o linho, Bogas de Baixo, Fundão, Castelo Branco.
 
Retirados da água, abrem-se os molhos e deixam-se no campo a «corar» de oito a doze dias, após o que são malhados na eira com um mangual, para quebrar a palha.
 
Retirar o linho da água, Trancoso, Guarda.
 
A tarefa imediata (reduzida sempre que se procede à operação anterior), consiste na «massagem» efectuada no engenho hidráulico (outrora de tracção animal), com o linho «maçado» ou «tascado» no «maçadouro» (laje lisa), para se tornar flexível, tomando em Valongo (Douro Litoral) o nome de «estrigão» e em Pedraça (Minho) a designação de «maça» ou «manta». A partir desta altura o trabalho começa a ser executado somente por mulheres.
 
                                     
                                                   Fiandeiras, Castro Daire, Viseu.
 
 As espadeladas tradicionais, hoje muito poucas, podem ocorrer na própria eira ou ao serão, em casa dos lavradores, juntando-se familiares, amigos e vizinhos – em tempos mais recuados, com a participação de grupos de raparigas e rapazes vindos de aldeias vizinhas, trazendo as suas danças e cantares, acompanhados dos indispensáveis instrumentos típicos da região: bandurra, harmónica, concertina, bombo, pandeiro, ferrinhos…
 
             
                        Tocador de acordeon, Monte Judeu, Faro.
 
Por vezes, juntava-se mais do que uma rusga, sendo a ocasião propícia a jogos, brincadeiras e namoricos, terminando o serão com um «magusto» ou o tradicional «ciinho» (pequena ceia servida em terras minhotas), um bailarico, cantares ao desafio, e um despique entre tocadores, ganhando sempre, não o que tocava melhor, mas o que tinha melhor reportório – tradição que se vai conservando, num lugar ou noutro, agora apenas com algumas cantigas.
 
                  

                          «Espadelar» o linho, Massamá, Sintra.

 
Os «espadeladeiros», «espadeladouros» ou «cortiços», em madeira ou cortiça, enrolada em forma cilíndrica por meio de arame, com pedras no fundo, para lhes dar maior fixação ao solo, são utilizados pelas mulheres («espadeladeiras», «espadadeiras» ou «tascadeiras»), sentadas atrás, a agarrar o linho à mão em pequenas porções e a colocá-lo na «boca» (abertura) dos «cortiços», procedendo à tarefa de «espadelar» ou «gramar» (bater) o linho com a ajuda da «espadela», «espadeladouro» ou «gramadeira» (espécie de cutelo em madeira), de forma a fazer desaparecer as arestas (fragmentos linhosos da planta) e a sacudir a palha e outras impurezas. Por acção do batimento vão-se soltando os «tomentos», ou seja, a fibra mais áspera do linho.
 
               
                       «Espadela», Fráguas, Rio Maior, Santarém.
 
Mas o ritual do linho não acaba aqui. Cabe-lhe passar pelos dentes do «sedeiro» (de madeira, com duas fiadas de dentes de ferro: uns mais afastados, outros mais juntos), a fim de separar o linho da «estopa», fibra igualmente áspera, e da «estopinha», fibra áspera, embora mais fina, ambas «rasteladas» ou «carpeadas» (penteadas) depois, com a ajuda do «rastelo« ou «carda» (pente arredondado, munido de cabo e varias fiadas de dentes metálicos), resultando daí os rolos alongados designados por «manelos» e «roçadas», provenientes dos «tomentos».
 
               
                           Fiandeira, Aboim da Nóbrega, Vila Verde, Braga.
   
Segue-se o trabalho de fiar o linho, quase sempre também ao serão, junto da lareira, com a ajuda da roca e do fuso, a transformar o linho em fio e depois em meadas, utilizando-se o «sarilho», objecto rotativo – na serra de Arga feito de canas, noutros lugares em cana ou madeira.
                                
                
                                 «Sarilho», Zagalho, Penacova, Coimbra.
 
A fase seguinte, chamada «barrela ou «cozedura», destina-se a «corar» (branquear) as meadas, feita durante uma semana dentro de «cortiços», panelas de ferro ou cestos (caso do Mezio, Beira Litoral), com as meadas escaldadas em água a ferver, à qual se junta cinza retirada da lareira, operação executada diariamente (chamada em Valongo (Porto), «joeirada»), com o cuidado de manter-se a «barrela» sempre quente e bem tapada. Há quem proceda à cozedura das meadas dentro do próprio forno, aquecido e depois revestido com palha-centeia, molhada, para «quebrar o calor», desta maneira demorando a «barrela» mais uns dias.
 
                   
                          «Barrela» do linho, Lousada, Porto.
 
Em qualquer dos casos, a preferência vai para a cinza proveniente da lenha de vide, dizendo-se em Pedraça (Minho) que «as meadas estão «emburriadas» em cinza». Nesta localidade acrescentam-se à cinza algumas ervas «para amaciar o linho»: mentrastos, funcho e aradeiras.
 
              
                    Secagem das meadas do linho, Lousada, Porto.
 
Após a «cozedura», as meadas são batidas e lavadas nas pedras do rio ou num tanque grande, de preferência com água corrente, e estendidas para secar, enfiadas em canas dispostas nos campos.
 
 
 Tecedeira, Rates, Póvoa de Varzim, Porto.
 
Quando seco, o linho vai à dobadoira manual, para se fazer com ele os novelos, que são dispostos no «urdidor», «urdideira» ou «espadilha», equipamento que serve para montar a «teia» ou «urdidura», a resultar no cruzamento dos fios que vão ser tecidos, com o fio a passar ainda pelo «rastilho» (peça de madeira com vários dentes), a fim de colocar-se a «teia» no tear.
 
               
                                               «Lançadeira»
 
Enchem-se seguidamente as «canelas», utilizando-se o «caneleiro», o fio passa para a «lançadeira» e começa-se então – com o tear a mover-se comandado pelos pés da tecedeira, num movimento sincronizado –, finalmente, a tecer o linho.
 
                                
                        Dobadoira, Zagalho, Penacova, Coimbra.
 
Hoje, naturalmente, com a maioria do nosso (pouco) linho a ser tecido por fiação mecânica (invenção ocorrida em 1810), verificando-se a instalação dos primeiros teares mecânicos em Guimarães no ano de 1884. 
 
A seguir: Parte III (Conclusão) – «Depois do Oiro é o Linho»
 
 
Soledade Martinho Costa
                                           
                                                    Rocas e fusos.
 
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. VI
Ed. Círculo de Leitores
 
publicado por sarrabal às 14:22
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