Domingo, 4 de Outubro de 2009

BORDA D'ÁGUA - O LINHO - DA FLOR À «BAGANHA» (I)

Linhar em flor.
 
Desaparecidas quase (ou mesmo) por completo em certas regiões onde a cultura do linho tinha outrora grande significado (Minho, Entre Douro e Minho, Trás-os-Montes e Beira Litoral, embora se verificasse o seu cultivo um pouco por todo o País), as espadeladas constituem, presentemente, uma recordação que o tempo vai diluindo na memória das comunidades rurais e das suas populares e ancestrais tradições.
 
        
                                                 Flor do linho
 
Associada a antigos ritos que expressam raízes culturais milenárias, mantidos ciclicamente em manifestações circunscritas a conceitos de trabalho e a praxes comunitárias, inseriam-se, tal como as lavradas, as sachas do milho, as desfolhadas, a apanha da cebola e da azeitona, as podas das videiras ou a vindima, no grupo das tarefas agrícolas feitas por troca, ou seja, por entreajuda familiar, ou de amigos e vizinhos da mesma povoação e de povoações próximas (que toma, na região transmontana, o nome de «torna-geira»), numa tradição rural de cariz comunitário que se conservou até aos nossos dias. O próprio empréstimo de animais, aves e gado, para cobrição ou trabalhos agrários, ainda hoje se mantém nas nossas aldeias.
 
               
                                         Casulo do bicho-da-seda.
 
No século XIII o linho, utilizado ao longo de toda a Idade Média para o pagamento das rendas aos abades e senhores e dos dízimos às igrejas, constituía a primeira indústria do nosso País, lugar que conservou até ao século XV. No século seguinte principia a sua decadência, para isso contribuindo a desertificação dos campos a favor das navegações para o Oriente e o início da cultura do bicho-da-seda. No século XVII verifica-se o avanço do milho no cultivo das terras, acrescido da proibição por Filipe III da exportação do linho, tecido ou em rama, enquanto no século XIX a preferência recai no algodão, que havia entrado em Portugal na primeira metade do século XVI.
   
         
                                              Lençól de linho.

  

A importância da cultura do linho, a remontar, segundo os especialistas, «ao período neolítico no território português», nunca deixou de manifestar-se, de tal modo, que, na ilha da Madeira (Fajã de Ovelha), até meados do século XIX, o «dote» das noivas ou das raparigas era avaliado pelo número de «teias» (tecido) de linho que possuíam. Se bem que servisse para comercializar, o linho destinava-se, sobretudo, a «prover aos dotes». Actualmente, o cultivo do linho encontra-se ali praticamente extinto, enquanto no que se refere aos dotes, resta deles a tradicional lembrança.
                             
                       
                            Linho após a secagem, Castro Verde, Beja
                
Semeado na primeira quinzena de Abril (linho «galego»), é arrancado em Julho, conforme o tempo e o seu crescimento (as sementes germinam ao fim de três a cinco dias), com as espadeladas, chamadas mais a Sul «gramadouros» ou «gramadoiros», a terem lugar nos meses de Setembro e Outubro, quando o linho já se encontra em condições de ser batido com a espadela (instrumento de madeira) - tudo dependendo das condições do tempo, para secar o linho e proceder-se às operações seguintes, todas elas trabalhosas e demoradas. O linho «mourisco» é semeado no Outono.
 
Linhar depois da monda.
 
Após o campo ter sido bem estrumado, lavrado, gradado e dividido em leiras, para facilitar o trabalho da sementeira, esta é feita em lanço farto (às mãos cheias), verificando-se, por vezes, o antigo costume de molhar com saliva a cabeça do dedo polegar e encostá-la à terra: se vierem sete sementes agarradas a ela, o campo considera-se bem semeado. Um mês mais tarde procede-se à monda das ervas daninhas, tarefa bem patente na quadra: «Eu hei-de ir ao teu linhar/Que o teu linhar tudo tem/Tem gorga, tem saramago/E pessêguelo também.»
 
 
Linho transportado para a secagem, Bogas de Baixo, Fundão.
  
O campo é regado ao fim de três dias de semeado, no caso do tempo estar quente, com pouca água, e não mais de doze vezes, divididas por várias alturas, durante o crescimento da planta, utilizando-se nesta operação um «basculho», feito com ervas secas amarradas na ponta de um pau.
  
 
 Linho já seco, Bogas de Baixo, Fundão.
  
Pelos inícios de Julho, perdida a flor, de um tom azul-violeta, o linho começa a ganhar uma cor amarelada e a apresentar nas extremidades a «baganha», espécie de casulo que substitui a flor, dentro da qual se encontram as sementes do linho, ou a linhaça (à roda de dez a doze sementes por «baganha», se o linho se apresentar forte): está na altura da «arrinca» ou «arreiga» (arrancar o linho à mão) – a juntar festivamente, ainda hoje, quem deseja ajudar na tarefa.
  
 
 «Arrinca» do linho, Bogas de Baixo, Fundão.
   
O linho é então reunido, sempre com a raiz para o mesmo lado, sendo-lhe retirada a «baganha» com a ajuda do «ripo», «ripador» ou «rapigo», utensílio de madeira semelhante a um grande pente com dentes de ferro (na Covilhã, Beira Baixa, chamado «ripanço»). A esta operação davam em Santo Tirso (Douro Litoral) o nome de «desbaganhar», «ripar» ou «arripinhar». Daí, que se continue a cantar em Pedraça (Cabeceiras de Basto, Minho): «Donde vens, ó Ana?/Venho da montanha/De regar o linho/Que já tem baganha.»
 
                   
                                     Molho de linho com «baganha».
 
Da linhaça, reserva-se uma parte para nova sementeira e a restante para a indústria de tintas e vernizes (óleo de linhaça) e fins medicinais – chás, com algumas das sementes dentro de uma «boneca» de pano, introduzida na água até esta ferver um pouco, ou nas antigas e conhecidas «papas de linhaça».
 
                     
                                               Sementes do linho.
 
Liberta de sementes, a «baganha», depois de esmagada, servia em anos idos para encher os travesseiros e almofadas, tecidos, por sua vez, com linho suficientemente grosso, de modo a minimizar a relativa ou nenhuma macieza do enchimento. Acontecia assim em Pedraça, na serra de Arga (Alto Minho), em São Martinho da Gândara (Ponte de Lima, Minho) e no Mezio (Castro Daire, Beira Alta).
 
         A seguir: Parte II - O Linho - Da Roca e do Fuso à Dobadoira.
 
Soledade Martinho Costa
 
                    
                  «Ripanço», Fráguas, Vila Nova  de Paiva.
 
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol.VI
Ed. Círculo de Leitores
 
 
publicado por sarrabal às 00:22
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3 comentários:
De garatujando a 10 de Outubro de 2009 às 15:17
SOLEDADE

Este seu post sobre o linho, pelos conhecimentos que transmite, é muito importante e útil, principalmente para quem se interesse pela nossa etnografia. A vida rural e tudo o que com ela se relaciona é praticamente desconhecida nos meios urbanos, nomeadamente das novas gerações, que encontram nas modernas tecnologias e nos novos conceitos de vida, motivação que as desviam do interesse pelas nossas tradições.
É neste contexto que a sua admirável obra "Festas e Tradições Portuguesas" adquire uma importância fundamental no registo e divulgação de costumes e de eventos, e ganha já uma dimensão histórica, não só para os actuais leitores, mas também para os futuros estudiosos.

O amigo abraço de sempre

Carlos Ferreira


De sarrabal a 26 de Outubro de 2009 às 01:51
Caro Carlos, acredite que só agora, por acaso, vi o seu comentário. Provavelmente, já não vai ler estas palavras. Mas aqui ficam: é bom ter leitores assim, fiéis e com capacidade intelectual para apreciarem este género de textos, como o meu amigo. O que diz é uma verdade. Por isso insisto nestes posts. Algum resultado hão-de ter...

O abraço de sempre da Sol


De isabel tiago a 28 de Setembro de 2013 às 15:08
Cheguei aqui por acaso

Gostei muito do que escreveu sobre o linho e as suas tradições.

Isabel Tiago


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