Quinta-feira, 10 de Setembro de 2009

HISTORINHA - A RAPOSA E O PORCO-ESPINHO

 
A raposa põe o nariz fora da toca. Fareja o ar. Arrebita as orelhas. Cautelosa, avança. Coloca uma das patas dianteiras sobre as folhas secas que ocultam a entrada da sua casa. Logo a seguir, a outra. Com metade do corpo fora do buraco, olha à sua roda, focinho levantado.
- Que rico tempo! – Exclama, a bocejar, saindo para a mornez da tarde.
Espreguiça-se. Dá meia volta. Não. Não há sinal de perigo. Volta a meter a cabeça na toca e chama:
- Vamos, meus raposinhos, são horas. O dia está no fim. Vamos, toca a levantar!
Entra de novo no covil. Com o focinho põe-se a empurrar o corpo felpudo dos raposinhos, ainda enroscados no torpor do sono. E logo torna:
- Vamos, vamos, preguiçosos, não ouviram chamar? São horas, raposinhos. Não há tempo a perder!
Um raposinho e uma raposinha levantam-se de um salto.
- Preparem-se para viajar. – Anuncia a dona raposa.
- Viajar? – Repetem, num espanto, a raposinha e o raposinho.
- Sim, vamos mudar de casa. – Explica a mãe. – Estamos no Verão, vamos passar algum tempo mais perto das searas.
  
 
  
Quando os filhos nasceram, na Primavera, a mãe raposa teve um trabalhão para os alimentar. E também para os ensinar a serem prudentes. Agora, com três meses feitos, espigadotes, estão capazes de enfrentar a vida e os seus perigos. Pois se até já aprenderam a caçar! Mas a raposa sabe que os raposinhos só irão abandoná-la lá pela chegada do Outono. Nessa altura, voltará a casa o seu marido, o senhor raposão.
Mãe e filhos saem de casa numa restolhada. Ao porco-espinho não escapam os preparativos da partida.
- Outra vez de abalada, comadre Raposa? – Pergunta, curioso, à entrada da toca.
- É verdade, senhor Porco-Espinho. Chegou a hora de descansar um pouco, que a minha vida, nos últimos meses, não tem sido um regalo.
- Diz bem, comadre. Diz bem! - Responde o outro numa aprovação. – Alimentar e cuidar desses diabretes não é tarefa fácil, não senhor. E para onde é a ida? Para o sítio do costume, não?
- Claro! Nesta altura do ano, com o trigo, o milho, a cevada e o centeio que por aí há, não vai faltar passarada nem roedores. Isto, sem falar nos cordeiros… Os meus raposinhos vão encher a barriguinha à vontade, e eu vou poder descansar desta lufa-lufa que me traz derreada!
 
 
Só então o porco-espinho repara na magreza da comadre raposa. Coitada, está a pele e o osso. Por isso, recomenda:
- E veja se engorda um pouco lá por essas bandas, que bem precisa.
A raposa lança sobre si um olhar atento.
- Estou magrita, estou. – E acrescenta, os olhos agora embevecidos pousados nos filhotes: - Também, não admira. Além de os amamentar, fartei-me de andar por aí, esfalfada, em busca do melhor para matar a fome aos meus raposecos!
E logo, bisbilhoteiro, o senhor porco-espinho:
- Muitas visitas às capoeiras, naturalmente…
E a raposa, atrevida, num desafio feito de queixas:
- Pois, então. E que havia eu de fazer? Deixá-los morrer de fome, aos meus raposinhos?!
O porco-espinho, bicho nocturno como ela, concorda, num aceno.
E de novo a raposa, toda espevitada:
- Bem faz o compadre, que se empanturra antes de chegar o Inverno.
- Ora, comadre, bem sabe que sou obrigado a hibernar! – Atalha, a justificar-se, o porco-espinho. – Por isso alimento-me o mais que posso de raízes, de tubérculos e de cascas macias de ramos.
- Tem sorte, é o que é. Come daquilo que gosta. Enquanto eu, no Inverno, ando sempre de olho em tudo que me encha a barriga. Não posso ser esquisita no que respeita ao alimento.
Quanta verdade nas palavras da raposa. Com efeito, no Inverno e no início da Primavera, a pobre vê-se aflita para arranjar sustento. A caça é pouca, muitos animais hibernam ou fogem ao frio, agasalhados nos seus esconderijos. E a raposa, ou se afoita a assaltar alguma capoeira, ou, então, não tem outro remédio senão alimentar-se do que encontra: ovos, frutos, répteis, insectos…Ainda que, no Verão, não rejeite uma saltada à vinha para comer um bom cacho de uva moscatel. Ou ao meloal, em busca de melão ou de alguma abóbora madura.
E logo, cheia de pressa, a raposa prepara-se para a partida.
- E agora, adeus, senhor Porco-Espinho. Até à vista. Passe bem. Vou aproveitar o Verão enquanto dura! – Regouga ela.
- Boa viajem, comadre Raposa. Saudinha é o que eu lhe desejo! – Responde o porco-espinho, a pensar que são horas de ir em busca da ceia.
 
Soledade Martinho Costa       
 Do livro «Histórias que o Verão me Contou»
Ed. Publicações Europa-América
 
publicado por sarrabal às 00:58
link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De garatujando a 10 de Setembro de 2009 às 13:44
Um conto intencionalmente simples para ser bem entendido, personalizando os intervenientes para os aproximar dos pequeninos leitores a quem se destina.
Interessadas, as crianças ao mesmo tempo que se divertem com a estória, vão aprendendo pormenores da vida dos bichos de que ouvem falar, da sua maneira de viver, dos seus hábitos alimentares, dos seus costumes sazonais. No fundo é o dar a conhecer às crianças, através da literatura infantil -que não é tão fácil como pode parecer - formas de vida dos nossos companheiros de outras espécies, que connosco formam este vasto e fervilhante universo de que todos fazemos parte.
É também incutir-lhes, desde já, o amor pelos animais, que é uma outra forma de se afirmar o amor entre as pessoas.
A SOLEDADE é bem um exemplo seguro de como se pode fazer pedagogia através da arte de escrever.

Abraço de sempre

Carlos Ferreira


De sarrabal a 11 de Setembro de 2009 às 23:57
Ensinar as crianças a conhecer melhor os animais - e a respeitá-los e a amá-los - é, sem dúvida, a intenção destas minhas histórias. Sei que os leitores mais pequenos gostam, porque são muitas as reedições dos meus livros. Sinal de agrado. Da parte dos professores tem havido, até hoje, o mesmo apreço. Nos livros de texo (leitura) são frequentes estes meus contos. Dizia um amigo meu muito querido, Sidónio Muralha, que faleceu há uns anos em Curitiba (Brasil), grande Poeta e grande autor para crianças que «Aprender sorrindo é a melhor forma de ensinar!». Foi o que tentei fazer, caro Carlos...

Obrigada pelas suas palavras sempre tão amigas, pela sua presença constante, aqui no Sarrabal, e pela forma inteligente e brilhante como elabora a avaliação dos meus escritos.

Um beijinho da Sol


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Maio 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
16
17
18
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


.posts recentes

. CANTO DO VENTO

. ZECA AFONSO

. 23 DE ABRIL - DIA MUNDIAL...

. DEDICATÓRIA

. SEMANA SANTA - O GALO DAS...

. CELEBRAÇÕES DA QUARESMA -...

. CALENDÁRIO - MARÇO

. CARNAVAL - A MÁSCARA

. TODOS OS LUGARES SÃO TEUS

. BOLO-REI - ORIGENS

. A VIAGEM DOS TRÊS REIS MA...

. FELIZ NATAL E BOM NOVO AN...

. OUTROS NATAIS

. UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM...

. OUTRO MILAGRE

. «SEARINHAS» DE NATAL

. COMO SE FOSSE HERODES O M...

. NATAL - AS FOGUEIRAS DO M...

. CALENDÁRIO - DEZEMBRO

. VULTO DE UM PAÍS

.arquivos

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

.tags

. todas as tags

.links

.Contador

Site Meter
blogs SAPO