Sexta-feira, 4 de Setembro de 2009

COISAS DA VELHA DO ARCO - UMA LIVREIRA EXEMPLAR

 

 
Entrei na livraria com a intenção de comprar um livro para oferecer a uma muito jovem amiga. Passara já o tempo em que lhe fui oferecendo os meus próprios livros.
 
Levava escolhido o título da obra a adquirir. Tratava-se de «Os Contos Exemplares» de Sofia de Mello Breyner. A livraria, na Rua Marquês de Tomar, conheci-a eu muitíssimo bem. Dirigi-me ao local onde previa encontrar o livro e não me enganei. Lá estava ele entre os muitos livros infanto/juvenis. Uma solícita empregada, que me pareceu cara nova por ali, ao ver-me com o livro na mão perguntou, numa voz como se quisesse dizer-me um segredo:
 
- A senhora vai levar esse livrinho?
- Sim, vou levá-lo. – Respondi.
Aquilo que em seguida ouvi, deixou-me estupefacta. Sempre a meia-voz e sem que a pequena perdesse o ar simpático com que me abordou, deu-me este singular conselho:
- Não leve. Esse livro é já muito antigo. Foi escrito há muito tempo. Tem aqui outros mais modernos… Não quer ver?
 
A empregada de uma livraria catalogar assim um clássico da nossa literatura juvenil, só por ignorância, certamente! E pensei, nesta como noutras áreas profissionais, não há forma de dar a estes jovens, neste caso candidatos a livreiros, alguma formação, algumas noções básicas onde se agarrem, antes de começar a atender os clientes? Num país onde não se lê, onde as pessoas não têm o hábito de frequentar livrarias nem bibliotecas, onde não se conhecem as obras dos seus escritores, onde a Literatura teima em sobreviver, sem apoios, sem estímulo, sem o respeito e a divulgação que merece serão livreiros como esta jovem, provavelmente, os indigitados condignos para não destoar do contexto. Será?
 
Um pouco incomodada, confesso, com a falta de conhecimento demonstrado pela jovem, levei-a para um local mais discreto da livraria e perguntei-lhe:
- Sabe quem escreveu este livro?
- Não, não sei. Mas sei que é antigo. Conheço o título. – Acrescentou.
- Pois é, quem escreveu os «Contos Exemplares» foi um grande nome da nossa Literatura. Uma grande poetisa. Este livro, a que chama antigo, tem tido ao longo dos anos muitas e muitas reedições.
Aqui parei, acauteladamente, e perguntei:
- Sabe o que são reedições?
- Sim, é o livro ser feito várias vezes. – Respondeu.
«Vá lá, menos-mal», pensei. E prossegui:
- Um livro que se mantém nos escaparates com reedições consecutivas, quer dizer que agradou aos leitores. Por isso os editores investem nas reedições para atender ao interesse manifestado pelos leitores. – Expliquei.
 
Seguiu-se uma espécie de palestra sobre livros «antigos», clássicos, contemporâneos, novíssimos. Que não havia livros modernos, mas livros actuais, publicados recentemente. Veio à baila Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis, até chegar aos alfarrabistas. 
Olhou-me calada e com semblante sério.
- Compreendo. – Foi a resposta.
 
Lembrei-me, então, de Sofia. Na altura, se lhe tivesse contado este episódio, sei que não teria estranhado. Estava habituada a situações semelhantes. Não foi por acaso que se recusou a ir receber o Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças, pelo conjunto da sua obra, em 1994. A verdade – e ela sentiu-a –, é que Sofia de Mello Breyner só foi distinguida com este prémio quando muitos outros autores de menor gabarito o tinham recebido já em anos anteriores. Sofia sentiu-se magoada. E com razão.
 
Tempo antes tinha falado neste assunto a José Hermano Saraiva, à época um dos elementos do júri deste prémio. Lembro-me também que publiquei um artigo sobre este tema com o título «Sofia de Mello Breyner um Nome à Margem», num ano em que mais uma vez o seu nome foi esquecido. Disse-me José Hermano Saraiva: «Eu tenho insistido. O prémio já devia ter sido entregue à Sofia. Mas a resposta que ouvi foi a de que tinha poucos livros para crianças publicados, imagine!». Juntei a minha indignação à de José Hermano Saraiva. Quando se mede a quantidade pela qualidade, é normal que outros autores tenham arrecadado o prémio primeiramente.
 
Mas este facto nem sequer corresponde à verdade. Sofia de Mello Breyner conta na sua bibliografia com 13 títulos publicados na área da literatura infanto/juvenil: O Rapaz de Bronze; A Menina do Mar; A Fada Oriana; Noite de Natal; Contos Exemplares; O Cavaleiro da Dinamarca; Os Três Reis do Oriente; A Floresta; Tesouro; Contos; Histórias da Terra e do Mar; A Árvore e Era uma Vez uma Praia Lusitana.
 
Durante mais de uma década, a partir de 1976, Sofia esteve representada nas bibliotecas das escolas do Ensino Básico apenas com uma das suas obras, enquanto autores menores estavam representados com todos os seus livros, alguns somando mais de 30 títulos.
 
No caso do Prémio Gulbenkian, nem José Hermano Saraiva teria força, por muitos argumentos apontados, para que Sofia fosse galardoada entre os primeiros. Estava sozinho e o compadrio político possuía toda a força do mundo. Ainda hoje o possui. O nome de Sofia só foi indigitado quando o bodo já estava devidamente distribuído. Daí, a sua recusa em apresentar-se na Gulbenkian.
 
Mas não é só. Certo dia telefonou-me para me perguntar: «Soledade, você conhece jornais ou revistas que tenham publicado críticas ou recensões sobre alguns dos meus livros?». Respondi que não, que não conhecia. Sofia, então, esclareceu-me: «Sabe, há um editor japonês que quer editar um livro meu e pediu-me para lhe enviar algumas críticas. Mas só encontro as que a Soledade publicou, não encontro mais nada. E não me parece bem enviar-lhe só as suas, não acha?».
 
Ignoro como terá, Sofia, resolvido este assunto. Sei apenas que sempre fiz referência aos seus livros, quer tratando-se de um título novo ou de uma reedição, nos vários anos em que desempenhei essa função no Expresso e no extinto Diário Popular (neste, semanalmente, durante cinco anos).
 
Numa outra ocasião, em conversa, Sofia também me confessou a sua mágoa pelo facto do seu livro “A Menina do Mar” ter sido utilizado para um belíssimo espectáculo para crianças, que passou num dos canais televisivos de Itália. «Aqui em Portugal nunca fizeram nada e a comunicação social ignorou por completo este trabalho dos italianos. Nem sequer a Televisão Portuguesa se mostrou interessada em passá-lo no nosso país» – Desabafou.
 
Palavras sentidas de quem tem apenas a seu (des)favor a grande qualidade literária da sua obra destinada aos mais pequenos. A mediocridade não aceita comparações. Não gosta de perder. Só os medíocres rivalizam entre si. Dá menos nas vistas. A sua mediania torna-se menos evidente. A qualidade faz-lhes sombra e mostra, com mais evidência, as limitações dissimuladas de cada um.
 
Bom, saí da livraria com o livro de Sofia muito bem embrulhado e com um lacinho a enfeitar. Por pouco, pensei, Sofia sairia uma vez mais derrotada. Se a pessoa pretendente aos “Contos Exemplares” fosse menos conhecedora ou mais incauta poderia seguir o inconcebível conselho. Neste caso, foi o nome da autora que ganhou. Não direi de forma simples. Mas simplesmente pela falta de conhecimento da livreira. Aqui, ao contrário de outras situações, não havia capelinhas, comadres, compadres ou fadas madrinhas. Só havia desconhecimento. Facto que, por si só, já considero uma vitória. Sem dúvida alguma.
 
Soledade Martinho Costa
                                              
 
 
                               
publicado por sarrabal às 00:48
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7 comentários:
De garatujando a 5 de Setembro de 2009 às 22:41
Como é possível que esteja no balcão de atendimento de uma livraria uma pessoa que revela falta de cultura literária em tão absurdo grau ?!

E como pode permitir-se que uma figura intelectual da dimensão de Sophia de Mello Breyner seja "ignorada" por quem tem obrigação de prestar publico reconhecimento do seu valor ?!.

Realmente os compadrios e os interesses obscuros que lhes estão subjacentes estendem os seus tentáculos a todas as áreas de onde possam tirar proveito, valendo-se impunemente de todos os atropelos.

No pais que temos seriam necessárias muitas mais pessoas com a coragem e a determinação da SOLEDADE para darem a conhecer as gritantes injustiças como as que aponta.

O meu abraço
Carlos Ferreira




De sarrabal a 10 de Setembro de 2009 às 00:07
Sim, Carlos, o que se passou comigo e a jovem livreira é verídico, e nem por isso tão raro assim, infelizmente.

Sophia, como outros nomes grados da nossa Literatura, que também escreveram para crianças (Maria Lamas, Irene Lisboa, Luísa Dacosta ou Manuel Ferreira, para citar apenas alguns), foram nomes à margem na representação das suas obras, que se desejava obrigatória, nas bibliotecas das escolas do Ensino Básico. E nem sequer se trata de ideologias políticas, mas dos tais «interesses obscuros» que deram nome e dinheiro (do erário público!), apenas a certas editoras e a certos autores. Isto, durante mais de uma década. Hoje, não sei ao certo, mas desconfio...

Sim, também já me chamaram corajosa. Muitas vezes. Mas olhe que sai muito caro, creia, meu amigo...

Beijinho da Sol


De Daniel a 6 de Setembro de 2009 às 02:08
História exemplar. Mas, ao contrário da opinião de "Garatujando", não me parece que aqui haja uma questão de compadrios. O caso deve ser semelhante ao que faz com que tenhamos traduções feitas por gente que não sabe a língua de que traduz nem aquela para que traduz. Já me aconteceu, entre outras barbaridades, ver "sideração" traduzida como "astrological influences". Ou "Ilha Terceira" (traduzida, sim!) por "Third Island". Ou as "Velas" (de São Jorge) por "Candles". O meu actual editor tem cuidado na escolha dos tradutores e paga bem. Que é o que outros não querem.
Quanto à Sofia, a gente sabe que nem sempre a luz que mais ilumina é a que mais facilmente se olha...


De garatujando a 6 de Setembro de 2009 às 10:20
Para DANIEL

Ao fazer o comentário pretendi referir-me a dois assuntos distintos:
1 - O caso da livraria e da sua inapta funcionária; e
2 - As arbitrariedade, injustiças e interesses ocultos que se verificam, a cada passo, em organismos que têm por missão reconhecer valores , nomeadamene no campo literário.
Realmente, por involuntária omissão, não fiz, no comentário, a devida destrinça.
Mas estou certo de que a SOLEDADE soube faze-la

O comentário de DANIEL constituiu útil chamada de atenção, que agradeço

Carlos Ferreira


De Daniel a 7 de Setembro de 2009 às 01:54
E eu agradeço a delicadeza da sua resposta, meu Caro Carlos.
Um abraço.
Daniel


De sarrabal a 10 de Setembro de 2009 às 01:07
Está enganado, querido Daniel. Houve (há?) compadrio, sim, no que respeita a muitos dos nossos autores para a Infância (alguns deles nomes grandes da Literatura Portuguesa), que se viram marginalizados por uma Comissão de Leitura que funcionava na Direcção-Geral do Ensino Básico, cabendo-lhe a escolha das obras a enviar às bibliotecas das escolas. Quando não escolhiam os amigos eram as obras estrangeiras, mal traduzidas e de conteúdo medíocre, as seleccionadas, com compras de 16 mil exemplares por título!
Se «nem sempre a luz que mais ilumina é a que mais facilmente se olha», posso dizer-lhe que a Literatura Portuguesa para a Infância tem feito uma caminhada completamente às escuras. E olhe, Daniel, que sou especialista no assunto...

Abraço muito amigo da Sol



De Daniel a 10 de Setembro de 2009 às 02:22
Querida amiga Sol
Pelos vistos, expliquei-me mesmo mal. Quando disse que talvez não se tratasse de uma questão de compadrio, referia-ma à poupança que térá levado a contratar alguém inapto para o cargo de livreira.
Quanto a compadrio nas letras, disso sei eu há muito tempo. E por experiência própria até. Um meu livrinho que anda por aí, e que a Sol conhece, foi rejeitado por um editor lisboeta alegando que os leitores querem é ódio e sangue nas cidades e não amor e cabanas em aldeias da serra. Pois dá-se o caso de que um realizador francês, que tem andado pelos Açores, gostaria de ter meios de o levar ao cinema!
Há uns boms pares de anos, escrevi um artigo para um jornal do Porto, dirigido por pessoa amiga, defendendo a candidatura de Vergílio Ferreira ao Nobel. Ele, o director, não publicou o arigo, dizendo, entre desculpas, que a corrente era no sentido de candidatar outro escritor que não aquele, pelo que não convinha desfazer a unanimidade.


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