Domingo, 12 de Julho de 2009

CRÓNICAS DE PORCELANA - SOLI E OS ANIMAIS

 
Aproveitando umas curtas férias, a Soli veio passar uns dias comigo no Algarve. Fomos dar uma volta e a Soli, faladora como é, entra em confissões:
- Sabes uma coisa, vó?
- Não. – Respondo
- É assim: eu, lá na escola, nunca canto o «atirei o pau ao gato». Fico sempre calada. Não gosto nada daquela cantiga. Nadinha mesmo!
- Ah, não? E porquê? – Pergunto. A Soli explica:
- Porque nunca se deve atirar paus nem pedras aos gatos e aos cães. – E continua: - Eu, quando tiver um gato, um cão e um burrinho com uma carrocinha, nem vou bater no burro com aquela coisa, sabes? Aquela coisa…
- A chibata. – Ajudei.
- Sim, com a chibata. Quando ele quiser andar, anda, quando não quiser andar, não anda!
- Muito bem, Soli. Fico contente por pensares assim. – Voltei a responder. E a Soli:
- Sabes, também não vou prender o meu cão com uma corrente. Gostavas de estar «atada» com uma corrente, vó?
- Não, claro que não! – E a Soli outra vez:
- Os cães, coitadinhos, também não gostam. Não fizeram nenhum mal, pois é?
- Pois é, Soli. – Concordei.
 
Com esta conversa acabámos por entrar numa loja de artigos de decoração, onde há coisas muito bonitas. A Soli aprecia e vai dando opiniões e sugestões. Em exposição muitas almofadas. Reparei numa delas, ao contrário das outras, bastante feia. Tinha umas aplicações a imitar pêlo de animal, a dar ideia de pêlo de cão. Daqueles arruivados, de pelo comprido. Achei de muito mau gosto mas não me pronunciei. À Soli a almofada, infelizmente, também não lhe passou despercebida:
 
- Vó, olha-me para esta almofada. É pêlo de cão. Que horror!
Dito isto, começa a puxar-me pela mão:
- Vó, vamos já embora. Não quero ficar mais aqui. Coitadinho do cão!
- Mas, ó Soli, aquele pêlo é só a imitar o pêlo de um animal. – Expliquei.
- Mas eu não quero olhar. Vamos embora, vó! - Insistiu a Soli.
Saímos. A Soli, indignada, foi ter com o pai:
- Papá, sabes o que está naquela loja? Uma almofada com pêlo de cão. Que horror!
 
O pai olhou-me indeciso. Expliquei. Foi depois a vez dele me contar que tinham oferecido à Soli um CD onde está incluído o «atirei um pau ao gato». Resultado: à viva força, a Soli pretende que o pai retire a cantiga da respectiva faixa. Noutra ocasião, viu na TV maltratarem um animal. Foi o suficiente para entrar num choro aflitivo que só a muito custo os pais conseguiram  fazer parar.
 
De repente, a minha memória, como um palco onde o reposteiro vai abrindo lentamente, fez-me recordar um episódio passado comigo na infância. Nessa altura andava na escola primária (como se dizia então). No regresso a casa o que vi eu? Uns três ou quatro garotos entretidos a atirar um gatinho muito pequeno ao ar e a apanhá-lo depois. Temerosa mas decidida dirigi-me a eles pedindo que não fizessem «aquilo» ao gatinho. Atitude que de nada me serviu. A brincadeira, para meu desgosto e aflição, continuou.
 
Cheguei a casa lavada em lágrimas e contei o sucedido. Conforme pôde, a minha mãe secou-me as lágrimas e acalmou-me dizendo que «àquela hora já os meninos tinham parado com a brincadeira». Mas deu-me razão, «o que os meninos fizeram era uma grande maldade».
 
Resumindo: nessa noite ardi em febre, falei alto «no gatinho» e no dia seguinte não fui à escola. Não me recordo se voltei a ver os tais garotos. Provavelmente, sim, deviam morar por ali perto. Ainda hoje me lembro, nitidamente, daquela (para mim) horrível brincadeira que tanto me marcou.
 
Por isso, quando oiço a Soli falar desta forma, penso, satisfeita, que terá herdado o meu amor pelos animais. Só não sei se ela irá chegar ao ponto de abastecer com açúcar os carreiros de formigas, como eu fazia. Além de um entretenimento – passava horas a observá-las –, era uma alegria para mim saber que as formigas ficavam com o celeiro bem fornecido. Isto, para arrelia da minha mãe, principalmente quando o carreiro de formigas aparecia não fora mas dentro de casa!
 
 
Soledade Martinho Costa
  
                             
 
publicado por sarrabal às 00:34
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2 comentários:
De garatujando a 12 de Julho de 2009 às 11:50
Ao leitor atento do "Sarrabal" não escapa a frequência com que nele se vê temas como este. É notória a preocupação da SOLEDADE em induzir, nos seus pequeninos leitores, salutares conceitos de carácter pedagógico
E fá-lo por meio de interessantes narrativas às quais sabe dar um toque pessoal, integrando nelas personagens de que faz nítidos e mimosos retratos, para além das ilustrações muito apropriadas que enriquecem cada post.
É assim que o "Sarrabal" conta com uma alargada faixa etária de visitantes que, pelo interesse dos temas tratados, são seus fieis leitores - tanto crianças como adultos.
Não haverá muitos blogs de tão larga abrangência como este.

Carlos Ferreira


De sarrabal a 13 de Julho de 2009 às 00:18
Carlos:
É muita bondade sua, certamente. Mas, sabe, gosto de escrever estas pequenas crónicas para não esquecer episódios que me são gratos. Além de me ajudarem a elaborar posts para o blog...

Abraço da Sol


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