Sexta-feira, 12 de Junho de 2009
SANTO ANTÓNIO - AS MARCHAS - TRADIÇÃO E HISTÓRIA

Marcha de Alcântara.

 

Após algumas rupturas pelo meio, os festejos dos santos populares regressaram a Lisboa a partir de 1925, a impor a sua tradição e colorido, reabrindo-se as portas do Mercado da Ribeira, fechadas ao povo desde 1916. Em 1932, além das cerimónias litúrgicas, o figurino dos festejos renova-se no que respeita aos arraiais, ao enfeite de ruas, becos e pátios alfacinhas, e mesmo aos próprios «tronos de Santo António».
  
Marcha do Alto do Pina.
 
Nesse ano são incluídas as «marchas populares», com desfile colectivo dos moradores de cada bairro da capital, ao som de músicas alegres, a obedecer, tal como as letras, o trajo dos marchantes e a própria ornamentação dos arcos enfeitados com balões, a um tema alusivo – histórico ou referente às características de cada bairro.
 
Marcha da Mouraria.
 
Poder-se-á dizer que a ideia foi apenas retomada em novos moldes, isto é, recriada e (re)construída como criação lúdica de um espectáculo de rua, apropriado depois pelo povo reunido nas colectividades de recreio dos bairros da capital, que torna as marchas num símbolo festivo, popular e urbano, e um dos pontos altos das festividades lisboetas, tal como então foram concebidas e hoje as conhecemos.
 
Marcha de Marvila.
 
Muito mais remotamente exibia-se já a chamada «Marche aux Flambeaux» (adaptada da tradição francesa, popularmente designada por «Marcha ao Flambó», com origem provável nas «danças de Entrudo»), organizada por cada bairro, mercado ou local onde se festejasse o Santo António, formada por pequenos grupos (trinta a quarenta participantes), que desfilavam sem grande aparato de apresentação ou de coreografia, geralmente dirigidos por um ensaiador que os orientava utilizando um apito, exibindo-se os marchantes, preferencialmente, «às portas e em frente das janelas dos Paços Reais, dos palácios da nobreza ou das casas ricas».
 
Marcha do Bairro Alto.
 
Nesse ano (1932) foi instituído um prémio para a melhor marcha, tendo concorrido apenas três bairros de Lisboa: Alto do Pina, Bairro Alto e Campo de Ourique. Outros três limitaram-se a participar: Alcântara, Alfama e Madragoa. Dois anos depois concorreram doze bairros. A ideia estava lançada e bem aceite por toda a cidade, tornando-se as marchas na maior manifestação etnográfica dos festejos de Santo António, com os desfiles e exibições habituais na Avenida da Liberdade e Parque Eduardo VII – à conquista do prémio para a melhor marcha, sempre efusivamente festejado por quem o alcança.
 
Marcha da Madragoa.
 
Até 1950 as marchas sofreram alguns interregnos, embora voltando sempre com nova vitalidade, colorido e maior esplendor. A partir de 1990 tomam ainda, se possível, maior relevo, integradas nas Festas de Lisboa, com o início dos festejos no dia 1 de Junho e a prolongarem-se até ao dia 30.
 
Marcha de Alfama.
 
Em 1998 adoptou-se um novo figurino, com as celebrações a incidirem de 1 a 13 (finalizando com as marchas) abrangendo as áreas do Terreiro do Paço ao Largo do Chafariz de Dentro.
 
Marcha do Beato.
 
Em 1999 optou-se pela noite do dia 12 até 30 de Junho, com as festividades a decorrerem desde o Terreiro do Paço – onde foi armada uma praça e efectuada uma corrida de toiros, a lembrar tempos antigos – até à Praça de D. Luís. O calendário repetiu-se no ano 2000, contemplando as celebrações a zona ribeirinha e o Parque Eduardo VII.
 
Marcha de Alcântara.
 
Em 2001 manteve-se a mesma data, agora com os festejos espalhados pela cidade, oferendo a maior diversidade no que respeita a animação, mas tendo como ponto central os bairros históricos. Actualmente, concorrem dezoito bairros (ou marchas), a que se junta a Marcha Infantil da Voz do Operário, saída pela primeira vez em 1966 e depois apenas em 1990 para continuar até hoje.
 
Marcha Infantil da Voz do Operário.
 
Aos festejos associaram-se em 1958 as «noivas de santo António», numa iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa, com mais de uma dezena de casais unidos religiosamente numa única cerimónia no dia 13 de Junho, iniciativa interrompida em 1973 e só retomada vinte e quatro anos depois (1997), mantendo-se nos anos seguintes.
           
Noivas de Santo António.
 
As cerimónias litúrgicas contam, no dia 13, com missa de hora a hora, das sete da manhã ao meio-dia, celebradas na Igreja de Santo António.
 
              
                           Interior da Igreja de Santo António de Lisboa.
 
A procissão sai às dezassete horas, apenas com o andor do santo, para percorrer algumas das ruas de Alfama.
  
                              
                               Procissão de Santo António de Lisboa
  
No trajecto juntam-se ao préstito processionário os andores de São João da Praça, São Miguel, Santo Estêvão e São Tiago, patronos dessas paróquias.
 
                  
                 São João da Praça, Santo Estêvão, São Miguel e São Tiago.
  
No retorno, em frente da Sé, é proferida uma homilia por um bispo ou pelo próprio patriarca e há a actuação de um grupo coral. As celebrações religiosas encerram com outra missa pelas vinte e uma horas.
 
Soledade Martinho Costa
 
                               
 
In «Festas e Tradições Portuguesas», Vol.V


publicado por sarrabal às 15:00
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8 comentários:
De garatujando a 13 de Junho de 2009 às 00:13
Muito desenvolvido e ilustrado com belas gravuras este repositório histórico das marchas de Lisboa.
Num estilo escorreito, pormenorizado q.b., dá-nos uma perfeita ideia de como começaram e evoluíram os festejos de Santo António de Lisboa, incluindo uma referência muito interessante às "Noivas de Santo António" numa lógica integração na quadra, já que o Santo tem fama de casamenteiro.
A SOLEDADE tem um variado e riquíssimo acervo documental respeitante aos costumes populares, de que é referência especial o vultoso trabalho «Festas e Tradições Portuguesas», único no género no nosso país.
Por isso, a começar pela bela poesia com que nos brinda, pela variedade dos temas que aborda, pelo interesse daquilo que escreve, não só para os adultos como também para as crianças - género em que é especialista -, o SARRABAL é de leitura obrigatória que, com o maior gosto, visito todos os dias.

Abraço afectuoso
Carlos Ferreira


De sarrabal a 13 de Junho de 2009 às 18:55
Caro Carlos:

Em véspera de Santo António, achei por bem dar a vez às marchas. Se os meus textos forem ao encontro dos leitores do Sarrabal, tanto melhor. Pelo menos, um leitor assíduo eu sei que tenho: o Carlos, evidentemente! Um amigo meu, que colabora num outro blog, costuma dizer: «se tiver um único leitor, já mereceu a pena ter escrito o meu texto».
No meu caso, o «sitemeter», vai-me dando conta do número de visitantes e posso dizer que estou satisfeita. Com o decorrer do tempo, os visitantes são cada vez mais. Mas há a dizer que o Sarrabal e o seu Garatujando têm muio em comum, não é verdade?

Como sempre, fica o abraço amigo da Sol


De Pedro Mota a 17 de Junho de 2009 às 16:19
Boas,

Só queria "corrigir" algo. Na Marcha infantil da Voz do Operário não voltou em 1997 mas sim em 1990. Tenho 100% de certeza visto que eu participei nas marchas :P Era a mascote aonde fui ler o Manjerico ao Dr Mário Soares Presidente da Republica nessa altura.

Muito bom este post :D

Obrigado
Pedro


De sarrabal a 20 de Junho de 2009 às 03:08
Pedro:

Eu é que tenho a agradecer-lhe. Mas, repare, não referi a data de 1997 no que respeita à Marcha Infantil da Voz do Operário. Escrevi, sim, que saiu pela primeira vez em 1966. Todavia, se me diz que só voltou a sair em 1990 , ainda por cima tendo nela participado de forma tão especial, e que lhe vai servir, certamente, de agradável recordação (ser mascote da marcha e ter lido a quadra do manjerico ao Presidente da República dessa época, Dr. Mário Soares) , apressei-me a corrigir o post.
A documentação de que me servi para a colecção «Festas e Tradições Portuguesas» (neste caso referente ao quinto volume, isto é, ao mês de Junho) foi-me cedida em grande parte pela Câmara Municipal de Lisboa. Sim, que datas, quando aprofundamos as coisas, nem sempre dão certas.
Grata pela ajuda e pela visita. Reparei que é fã das marchas. Ainda continua a colaborar ou já não?

Saudações cordiais de Soledade Martinho Costa


De criação de sites a 29 de Abril de 2010 às 08:04
Muito bonita as fotos e o evento tá de parabéns!
Me pareceu muito bem organizado e feliz!
Abraços!


De sarrabal a 6 de Março de 2011 às 17:11
Grata pelas palavras. É sempre agradável saber que o nosso trabalho agrada aos leitores!
Retribuição de abraços!


De moveis paços de ferreira a 5 de Março de 2011 às 17:07
Excelente conjunto de fotografias. Gostei muito.


De sarrabal a 6 de Março de 2011 às 17:34
Ainda bem que gostou! Penso que talvez lhe interesse ler o texto «Tradições - Romaria de Santa Luzia ou Feira dos Capões em Freamunde» (Paços de Ferreira) publicado em 13/12/2010. Poderá procurar no arquivo. Por baixo da minha foto, em «pesquisar», basta escrever «Freamunde» e fazer ok. Abre uma página com o texto.
Saudações cordiais

Soledade Martinho Costa


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