Terça-feira, 9 de Junho de 2009

POR MILAGRE

 
Hoje não vou escrever poemas eruditos
Que me proponham forma, métrica, vanguarda
Herméticos, medidos, depurados
A exaltarem o consenso das elites.
 
Mesmo que pareça mal aos literatos
Vou usar, das palavras que conheço
Apenas as mais simples, triviais
Iguais a lágrima, raiva, morte, drama
E vou gritá-las aos ouvidos surdos dos humanos
Para dizer bem alto que respiro
Que estou ainda viva e amo a vida
A vida que me arrasta e me fascina
Embora disso me acuse e me arrependa.
 
Para dizer bem alto, sem pudor
Plena de experiência e de juízo
Que não entendo os homens nem o Mundo
Este Mundo vil, fútil, agressivo      
Este Mundo impudente, empedernido
Coberto de luxúria e de preguiça
Onde transito por ora a tempo todo.
 
Para dizer bem alto, sem receio
Pelos deuses e pelo seu castigo
Que não entendo a guerra, a fome, a injustiça
A constância das horas condenadas
O respirar dos dias sem começo
As noites dos segredos violados
A mentira, a opressão, o medo
O desencanto na voz dos rios tristes
O holocausto dos actos desmedidos
Os crimes cometidos sem castigo.
 
Que não entendo os homens nem o Mundo
Este Mundo de tretas e de letras
Onde o peso das palavras dos poetas
Não muda um milímetro sequer
A face ao planeta.
 
Porque hoje vi seis jovens condenados
Seis corpos ainda de criança
Famintos, doentes, destroçados
Seis infantes sem nome, torturados
Sem direitos, sem voz e sem justiça
E um deles não era por milagre
O meu filho ou o teu
No rosto, na idade, no recorte da boca, nos cabelos.
 
Porque hoje vi seis jovens condenados
Por defenderem aquilo em que acreditam
De mãos atadas, imundos, mutilados
Cobertos de feridas e excrementos
Mas de olhos postos em nós
Em mim, em ti
À espera de um sinal, de um recado.
 
É por isso que escrevo estas palavras
Estas palavras simples e as remeto
Sem esperança, sem data, sem endereço
Porque afinal de contas o que faço
Após este débil arremesso
É ficar aqui silenciada
Alimentada de raiva e de impotência
A rabiscar as letras de um poema
Que não pode ser mais que um desabafo.
 
 
Soledade Martinho Costa
 
 
publicado por sarrabal às 17:23
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2 comentários:
De garatujando a 10 de Junho de 2009 às 19:47
Com este poema vigoroso, pleno de força que a força da razão lhe dá, a SOLEDADE pode não ter feito uso da sua consabida erudição - que aqui, certamente, seria desnecessária.
Necessário foi mostrar, em palavras simples e sentidas, que está atenta ao que se passa neste "Mundo vil, fútil, agressivo - Este Mundo impudente - empedernido " .
Necessário foi dizê-lo assim, bem alto, num grito genuíno de protesto e de revolta, para dar peso às palavras dos verdadeiros poetas, que não são certamente aqueles que estão "cobertos de luxúria e de preguiça"
Este seu poema é um libelo acusatório contra ninguém, porque é destinado a "este mundo de letras e de tretas" em que todos vivemos distraídos.
O seu poema é já "um sinal e um recado", aquele recado e aquele sinal que, de olhos postos em nós, esperam todos os injustiçados do mundo.
Ben haja SOLEDADE, pela lição.

Solidário abraço do
Carlos Ferreira


De sarrabal a 11 de Junho de 2009 às 01:15
A intenção do poema foi bem interpretada na leitura
que fez, Carlos. Encontrou em si o eco que seria bom os responsáveis máximos pelo destino do Mundo apreenderem. Missão impossível, eu sei. Mesmo assim, há que tentar, embora sem esperança de «recados» como este chegarem aos ouvidos surdos de quem manda.

Abraço grato da Sol


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