Terça-feira, 19 de Maio de 2009

O TEATRO POPULAR EM PORTUGAL (Conclusão) - «DANÇAS DE ENTRUDO» E «BAILINHOS» / ILHA TERCEIRA (IX)

  

Parte I – Origens e Tradições
Parte II – Origens e Tradições
Parte III – As «Brincas» (Évora)
Parte IV – Da «Fama» aos «Quadros Vivos»
Parte V – «Presépios Vivos»
Parte VI – «Autos Pastoris» (Figueira da Foz)
Parte VII – «Autos Pastoris» (Figueira da Foz)
Parte VIII – «Danças de Entrudo» e «Bailinhos» (Ilha Terceira)
Parte IX –  (Conclusão) – «Danças de Entrudo» e «Bailinhos» (Ilha Terceira)
 
 
Uma «dança de Entrudo» açoriana divide-se em três partes distintas:
 
A «entrada» ou «saudação»: (em quadras ou quintilhas cantadas pelo «mestre», acompanhado pelo coro/grupo, ou seja, os cumprimentos à assistência e a apresentação do grupo, antecedida pela actuação (intróito) de um conjunto de instrumentos de sopro (trompete, cornetim, clarinete, saxofone baixo e barítono – e caixa, esta por vezes), a que se segue a primeira «dança»).
 
O «assunto»: (também chamado «declame» ou «discutimento», teatro narrado em verso (sextilhas ou estrofes de mais versos), em que é relatado o argumento ou enredo da trama teatral (sempre para rir), cantado ou declamado pelos actores, acompanhados durante a representação por um conjunto de cordas (rabeca, violinos e viola).
 
A «despedida»: (igualmente em verso (quadras, quintilhas ou sextilhas), em que o «mestre» e o grupo agradecem o acolhimento e apresentam as despedidas «até para o ano», seguindo-se a última «dança», com uma coreografia idêntica à do início ou diferente, de acordo com a imaginação do «mestre» e dos seus acompanhantes – a chamada «sapateia», nome que se dá à última dança em todos os bailes populares dos Açores, enquanto a primeira, também na generalidade, leva a designação de «charamba», termos muito utilizados durante a actuação dos ranchos folclóricos açorianos).
 
Entre as «danças» e o «enredo», com originais e adaptações assinados por um número incontável de poetas, quer antigos quer actuais, o espectáculo tem a duração aproximada de 45 minutos.
 
A palavra «dança» significa ainda o nome do agrupamento (a «dança das Lajes» ou a «dança do Porto Judeu») e do «enredo» encenado para ela (a «dança da Maria Madalena» ou a «dança da forca»).
 
Antigamente, as «danças de Entrudo» seguiam pelas ruas em cortejo até ao local de exibição, acompanhadas pelos músicos, constituindo a sua passagem uma verdadeira festa. Hoje, é um pouco diferente. As «danças» fazem as suas actuações apenas em recintos fechados, deslocando-se também a locais distantes das suas localidades. Pode dizer-se que a maioria dos grupos se cruza por toda a ilha nas suas variadas deslocações -  com uma «dança de Entrudo», no final da sua actuação, a dar, por vezes, lugar de imediato a outra «dança de Entrudo», assim decorrendo, num verdadeiro corrupio os três dias e as três noites de Carnaval.
 
No que se refere às «danças de espada» da Terceira, inspiradas no teatro popular da Quaresma, numa tradição do chamado teatro de adro ou teatro vicentino (fonte das «danças de pandeiro», que saíam, outrora, durante a Quaresma, logo na quarta-feira de Cinzas, no sábado Santo e no domingo de Páscoa), embora já não se exibam como era tradição nos adros das igrejas ou em frente das casas das pessoas mais gradas das terras, percorrendo as freguesias, marcam, ainda assim, a sua presença nos palcos das Colectividades nestes dias de Entrudo a ombrear com as «danças de pandeiro» e os «bailinhos».
 
A diferença está em que nestas «danças» o «assunto» (enredo) retrata, regra geral, aspectos de carácter bíblico (vidas de santos), histórico (factos relevantes da História de Portugal e da História da ilha Terceira), ou de ficção (casamentos desfeitos, amores não correspondidos, emigração, doenças, etc.), numa linguagem dramática, onde, não raras vezes, ressaltam os vocábulos provenientes do meio ruralista dos participantes: o campo e o «monte» terceirenses.
 
No caso destas «danças», o «mestre», além do apito, utiliza uma espada a servir de batuta ou marcador do ritmo e acção durante a actuação do grupo – considerada um símbolo de comando, visto as antigas «danças» no início e no final da sessão serem de carácter guerreiro, a retratar quase sempre as lutas entre Mouros e Cristãos.
 
A cargo do «mestre» ficam as «entradas» e as «despedidas», actuando o grupo, em termos de sequência da «dança», de forma idêntica à adoptada pelas «danças de pandeiro». As «danças de espada» continuam a fazer a sua aparição, se bem que menos frequentemente na quadra pascal.
 
Actualmente, após a actuação de uma «dança de Entrudo», em vez do antigo peditório à assistência, é feita uma colecta a nível particular, com o dinheiro obtido a reverter para a «dança» (aquisição de trajos e adereços) ou a favor da Igreja ou do Império.
 
Numa visualização mais remota das «danças», vamos encontrá-las, como já foi referido, nas próprias procissões, com destaque para as procissões do Corpo de Deus, onde desfilavam integradas nos cortejos processionais, sendo mais tarde proibidas pela Igreja.
 
Algumas destas «danças», sobretudo as «danças de espada», poderão significar resquícios das «danças pyrrichas» ou «pírricas», danças guerreiras de origem grega, muito praticadas pelos soldados romanos, principalmente quando se preparavam para os combates.
 
Lendariamente estarão associadas a Júpiter (na Grécia, Zeus), pai e soberano dos deuses, deus do céu, do raio e do trovão na religião grega e romana, ante o qual, ainda criança, os habitantes da Frigia que viviam em Creta, dançavam à sua volta para o distrair uma dança guerreira – a «pírrica».
 
 
«BAILINHOS»
 
 
Significa uma dança mais ligeira, surgida no último quartel do século XX, com origem na «dança de pandeiro» e inspirada no teatro de revista, na qual realçam as brincadeiras de Carnaval.
 
Apresenta em regra menos componentes, sempre travestidos, enquanto os «enredos» incluem maior crítica ao poder político, com a caricatura de figuras públicas locais, nacionais ou internacionais, zombarias às instituições, à Televisão e aos próprios acontecimentos ou «mexericos» ocorridos na localidade durante o ano, a mais das vezes com linguagem jocosa, picaresca ou mesmo picante. As músicas são as actuais, ouvidas na rádio ou na televisão.
 
 
Soledade Martinho Costa
                      
                          
In  «Festas e Tradições Portuguesas”, volumes II e VIII
Ed. Círculo de Leitores

 

publicado por sarrabal às 00:17
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1 comentário:
De Azoriana a 8 de Março de 2010 às 10:29
Muito obrigada por elevar as nossas tradições com uma prosa rica do testemunho carnavalesco terceirense. Gostei muito mesmo.

Agradeço também o comentário na "Aldeia da Minha vida" e no meu blog. O "Sarrabal" é um novo blog favorito.

Grande abraço no Dia da Mulher!

Rosa Silva


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