Domingo, 17 de Maio de 2009

O TEATRO POPULAR EM PORTUGAL - «AUTOS PASTORIS» / FIGUEIRA DA FOZ (VII)

 

Parte I – Origens e Tradições
Parte II – Origens e Tradições
Parte III – «As Brincas» (Évora)
Parte IV – Da «Fama» aos «Quadros Vivos»
Parte V – «Presépios Vivos» (Estremoz)
Parte VI – «Autos Pastoris» (Figueira da Foz)
Parte VII – «Autos Pastoris» (Figueira da Foz)
 
 
Já com luz eléctrica e diversas comodidades para o público, começaram a aparecer na Figueira da Foz, entre outros, o Grémio Lusitano (1882); o Grémio Recreativo (1888); o Teatro Operário e o Teatro Nicolau, todos eles desaparecidos.
 
Por outro lado, sendo no início do século IV que se divulga entre os cristãos a celebração do nascimento de Cristo, tornando-se esta comemoração na festa principal da Igreja Cristã, logo surgiram os «Mistérios» e «Milagres», relatando o nascimento de Cristo e o drama da Paixão, com as respectivas representações a terem lugar nas igrejas. Daí, que uma das hipóteses para a proveniência dos autos populares, religiosos e profanos, recaia nessas primeiras encenações, transmitidas oralmente e manuscritas depois, ou nos próprios autos de Gil Vicente.
 
No que respeita a datas, as opiniões dos investigadores divergem também. Para uns, os «autos pastoris» da Figueira da Foz datam dos finais do século XVII ou inícios do século XVIII, enquanto para outros, aparecem apenas no primeiro quartel do século XVIII. Outros ainda, defendem que não devem remontar para além dos meados do século XVII. Ainda assim, existem autos escritos e assinados já no século XIX.
 
O texto primitivo dos autos que continuaram a representar-se na Figueira da Foz, em verso (redondilhas), foi, no decorrer dos anos, alterado, acrescentado, modificado, como várias das cenas o atestam, embora se mantenha simples, quase ingénuo, na articulação da sua escrita, com narrativas inspiradas na Bíblia (outras não), acompanhadas de alguns suaves cânticos e danças ao longo da representação.
 
Até (pelo menos) 2003, os antigos autos continuavam apenas manuscritos, sem que nunca tivessem sido impressos, não constando neles nome de autor ou autores dos versos nem da música. Passados de mão em mão, geração após geração, são chamados os «cadernos do presépio».
 
Nos nossos dias, conquanto a tradição tenha deixado de ser a mesma, os «autos pastoris» ou «presépios» da Figueira da Foz, representados noutros tempos em quase todos os teatros e colectividades do concelho, continuam vivos na quadra do Natal, graças ao grupo de actores amadores figueirenses pertencente à Sociedade Filarmónica 10 de Agosto, fundada em 1880, a única que nunca deixou de pôr em cena todos os anos os centenários autos -  com os bilhetes oferecidos (contando com o apoio da Junta de Freguesia de São Julião), contribuindo, assim, «para a preservação do património cultural e popular da cidade e do concelho da Figueira da Foz».
 
A Sociedade Filarmónica Figueirense, fundada em 1842, forçada a interromper as representações devido à quase extinção da sua secção cénica devido à derrocada da sede nos anos setenta, retomou, entretanto, o tradicional «Cortejo da Espera dos Reis Magos», pretendendo recuperar também os «autos pastoris». Em ambiente de boa vizinhança, a Sociedade Filarmónica 10 de Agosto (conhecida popularmente por «a Teimosa») deslocou-se à Figueirense em 2001 para apresentar ali o famoso «presépio».
 
Divididos agora em quatro actos, uns religiosos outros profanos, os «autos pastoris» continuam a perfazer cerca de três horas de representação, repartidos, na versão actual, da seguinte maneira:
 
1º Acto – «Prólogo» – Personagens: Nossa Senhora, São José, Anjo da Anunciação, a Lua, o Sol e a Noite. «Os Pastores Brutos» – Personagens: o Anjo, Almeno, Alceus, Albino, Frondoso e o Moço.
2º Acto – «Cena Nova» – Personagens: Belmira, Silotino, Rosália e Sileno. «Romagem das Cebolas» – Personagens: Joana, Estrela, Amélia, Adrasto e Zé das Cebolas. «Camilo e Cassilda» e «A Passarola» – Personagens: Pastor, Moço e Pascoal.
3º Acto – «Um Sermão» – Personagens: Gonçalo, Catarina, Frade e Beata. «A Pastora Perdida» – Personagens: Pastora, Maria e Velha. «O Cego e o Moço» e «As Cinco Pastoras» – Personagens: Ludovina, Rosalina, Andresa, Domingas e Faustina.
4º Acto – «A Romagem do Diabo» – Personagens: Anjo, Lúcifer, Jerónimo, José, Samuel, Faustina e Domingas.
 
De resto, há a dizer que os teatros existentes na Figueira da Foz, que levam à cena boas peças, são, entre outros, o Teatro Trindade (miniatura perfeita do teatro de Lisboa) e o Teatro Caras Direitas, ambos em Buarcos, além do Teatro Taborda, em Brenha, possuidor de um valioso e cuidado guarda-roupa. O Teatro Parque Cine e o Teatro Chalett deixaram de existir, enquanto o Teatro Príncipe D. Carlos ardeu em 1914. O Teatro Circo Saraiva de Carvalho, aberto ao público em 1884, considerado o maior do País até à inauguração, em 1890, do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, passou mais tarde a Casino Peninsular, tornando-se depois no actual Grande Casino da Figueira da Foz.
 
Todavia, também se faz óptimo teatro noutros locais, que possuem salas de espectáculo com palco e belíssimos cenários e guarda-roupa, estreando peças de qualidade, servidas por bons actores amadores locais, casos da Sociedade Boa União Alhadense; Ateneu Alhadense; Grupo de Instrução e Recreio Quiaiense; Quiaios Clube; Clube União Brenhense; Sociedade de Instrução Tavaredense (com teatro mais erudito) e Grupo de Instrução Musical da Fontela, entre outros. Para trás ficam o Ginásio Clube Figueirense, hoje virado para o desporto, mas que pôs em palco boas peças de teatro, com excelentes actores, e a Associação Naval 1º de Maio, que ardeu em 1997, à qual cabe um importantíssimo trabalho em prol do bom teatro que sempre se fez na Figueira.
 
Ainda em favor da cultura, foi inaugurado no dia 1 de Junho de 2002 o Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz, onde os figueirenses podem assistir a espectáculos de teatro, ópera e bailado, possuindo o Centro dois auditórios, um deles com capacidade para oitocentas pessoas e várias salas destinadas a exposições temporárias.
 
 
              A seguir: Parte VIII – «Danças de Entrudo» e «Bailinhos» (ilha Terceira)
 
 
Soledade Martinho Costa
                     
                               
publicado por sarrabal às 00:24
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