Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

O TEATRO POPULAR EM PORTUGAL - ORIGENS E TRADIÇÕES (I)

 

 
Teatro do povo, por ele feito e a si destinado, tomou desde sempre a designação de teatro popular – teatro em verso, cantado ou declamado.
 
Trata-se de textos antigos, obrigados a enredos (histórias) e modas (danças e cantigas), girando os temas quase sempre em torno de factos religiosos (bíblicos ou não), históricos ou simplesmente de ficção, baseados em lendas e tradições, segundo o critério e gosto de cada autor, escritos por poetas ou prosadores populares, na sua maioria desconhecidos, onde não raras vezes ressalta a exaltação dogmática católica ou simplesmente de índole moral.
 
Geralmente dispostos na forma de drama, ou mesmo a atingir a tragédia, estes textos integram também a comédia ou a farsa, com os escritos mais recentes datados do século XIX. A sua proveniência, que se perde no tempo, aponta o seu início entre nós a partir do século XII, estendendo-se pelo século XIII até ao século XV. Neles se inclui parte dos antigos autos – muito em voga na transição da Idade Média para o Renascimento, com os «autos sacramentais» –, onde se misturam o canto e a declamação, a lembrar a moderna opereta, alguns deles considerados autênticas óperas, em representações não declamadas, mas apenas com movimentação de autores e canto.
 
O teatro moderno, de que os autos foram a primeira versão, nasceu como espectáculo popular nos adros ou dentro das igrejas, sendo natural que as próprias ordens religiosas que se instalaram em Portugal tivessem encenado no interior dos templos os seus chamados «mistérios» e «moralidades», os primeiros com os intervenientes a representarem a figura de Deus, dos anjos, dos santos e dos demónios, as segundas a valorizarem a moral de certas fábulas ou narrativas.
 
Daí, que os «autos sacramentais» em Portugal, assim designados por serem concebidos para abrilhantar as festividades do Corpo de Deus, ao fazerem parte das celebrações litúrgicas do Corpus Christi, desfilassem com os seus intervenientes nas procissões, o que obrigava a várias e demoradas paragens no percurso, para que os autos pudessem ser representados, o mesmo acontecendo com as danças.
 
Essas e outras encenações, por alegados excessos, acabaram por dar origem a que passassem a vigorar formas proibitivas face a tais espectáculos, com as culpas atribuídas aos eclesiásticos, mas sobretudo ao povo, que se comportava, segundo a Igreja e o Poder, de forma pouco própria, tendo em conta a ocasião e os lugares sagrados em que decorriam as representações.
 
 D. Sebastião proíbe as «mascaradas e representações profanas dentro das igrejas» em 1215, proibição confirmada depois por D. Duarte em 1426 e por D. João em 1538.
 
Acabaram assim por prevalecer as encenações de carácter estritamente litúrgico, ligadas ao presépio e aos Reis Magos, e outras de aspecto igualmente devoto, como os «autos da Paixão e do Ramo», realizados durante a Semana Santa, também eles, com o decorrer do tempo, a deixarem quase por completo de realizar-se.
 
Anteriormente aos autos efectuavam-se os chamados «arremedilhos», a cargo de jograis e trovadores, que consistiam em representações por mímica e curtas recitações de conteúdo dramático – no dizer de alguns investigadores estando o «arremedilho» na origem do que veio a ser o «fio da tradição dramática».
 
Antes destes, tinham lugar os «momos» (quatrocentistas), acção igualmente mimada, com dança e por vezes recitada, que servia, principalmente, para divertimento do rei e da corte, neles chegando a participar o próprio monarca, os pajens e os fidalgos.
 
Quase sempre baseados em histórias de cavalaria – de influência francesa –, os «momos» realizavam-se por altura de festividades régias que comportassem celebrações religiosas importantes ou em ocasiões particulares da corte portuguesa, por exemplo bodas reais, muitos deles tendo ficado célebres.
 
                                           
                                             A seguir: Parte II - Origens e Tradições
 
Soledade Martinho Costa
 
                                                      
publicado por sarrabal às 00:19
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