Terça-feira, 7 de Abril de 2009

SEMANA SANTA EM BRAGA - OS «FARRICOCOS»

 

 Sé de Braga.

 

Pela sua importância no contexto das cerimónias litúrgicas que ocorrem um pouco de norte a sul de Portugal durante a Semana Santa, não podem deixar de registar-se as que têm lugar em Braga, onde o conjunto impressionante e único das procissões, particularmente as nocturnas, faz acorrer àquela cidade milhares de fiéis vindos de todo o país, mas também peregrinos oriundos de Espanha e de outras partes do Mundo.

 

  

 Procissão do Senhor Ecce Homo.
 
Assim acontece na Quinta-Feira Santa com a Procissão do Senhor Ecce Homo, popularmente designada por Procissão do Senhor da Cana Verde, a lembrar as palavras proferidas por Pôncio Pilatos aos Judeus: «Eis o homem», quando lhes mostrou Jesus Cristo coroado de espinhos, com uma cana verde nas mãos a servir-lhe de ceptro. Nesta procissão incorporam-se, obrigatoriamente, todos os irmãos da Irmandade da Misericórdia.
 
«Farricocos» 
 
À frente, descalços e encapuçados, caminham os «farricocos», vestidos com túnicas negras até meio da perna (os «balandraus»), uma corda atada à cintura, outra a cingir-lhes a testa e a cabeça, sobre uma espécie de capuz com dois buracos para os olhos.
 
 
Chamados igualmente «os homens dos fogaréus», transportam um cabo de madeira, altíssimo, na ponta do qual balança uma bacia de cobre contendo pinhas a arder em chama viva. São acompanhados por outros «farricocos» com cestas cheias de pinhas destinadas a alimentar os fogaréus.
  
  
Em tempos recuados competia aos «farricocos» a tarefa incómoda de «lançar as pulhas», ou seja, de divulgar ou caluniar publicamente os mais íntimos segredos de cada família, a coberto da escuridão e do disfarce, atingindo, indistintamente, quem calhava. Outras vezes, após a procissão, espalhavam-se pelas ruas, noite dentro, causando medo a quem com eles se cruzava.
 
 
Havia também os «farricocos» que se limitavam a fazer soar as «matráculas», após o silenciamento dos sinos, na intenção de chamar os fiéis ao culto ou a lembrar-lhes a confissão e a penitência – tal como se faz ainda hoje em Braga e noutras localidades durante o dia de Quinta-Feira Santa.
 
 
Na sua origem pagã, estes homens tinham por missão anunciar às pessoas, pelas ruas, utilizando as «matráculas», a passagem dos condenados, relatando os crimes por eles cometidos. Posteriormente cristianizados, os «farricocos», associados depois ao relato das «pulhas», limitam-se, actualmente, a tocar as «matráculas», mantendo a tradição litúrgica, e a fazer parte dos cortejos processionais desta quadra.
 

 

Na cidade de Braga, destaca-se ainda, na Sexta-Feira Santa, a Procissão do Enterro do Senhor, instituída em Portugal desde os finais do século XV. Tocante manifestação de fé e recolhimento, nela seguem os irmãos da Misericórdia e de Santa Cruz, encapuçados, a arrastar compridas varas; os cónegos, levando na mão uma tocha acesa e envergando os respectivos mantos negros, com caudas de três metros (seguras por «caudatários», garotos que não conseguem impedir que parte do manto arraste pelo empedrado das ruas) e crianças, umas vestidas de anjos, (transportando símbolos alusivos à Paixão: cruzes, cálices, coroas de espinhos, lanças, cordeiros), outras representando figuras de santos, caso de Nossa Senhora das Dores com as sete espadas cravadas no peito.

 

Nesta procissão as «matráculas» vão caladas e os fogaréus apagados, assentes no ombro dos «farricocos», sempre descalços e encapuçados.
 
Procissão do Enterro do Senhor.
 
O impressionante silêncio que se verifica à passagem do cortejo contribui, decisivamente, para pôr em evidência este desfile humano, sentido e penitente, interrompido apenas, a espaços, por uma voz que se destaca a entoar, perante o recolhimento da multidão: «A el libitum lamentabile»;«Heu, heu, Domine,heu, Salvator Noster!».
          
                                            Procissão do Enterro do Senhor.
 
A Procissão Teofórica – nome que provém de Teofania, designação antiga da Epifania dos cristãos – faz igualmente parte do ritual litúrgico bracarense desta quadra. Efectua-se na Sexta-Feira Santa no interior da Sé (e só ali), ao redor das naves, onde uma hóstia consagrada e a bíblia são metidas num caixão, levado aos ombros pelos Cavaleiros do Santo Sepulcro, assinalando o final da Paixão de Jesus Cristo, cerimónia acompanhada por cânticos medievais.
 
                                                         Procissão Teofórica
 
Neste cerimonial, os cónego vestem paramentos negros e cobrem a cabeça com os amictos, em sinal de luto. Trata-se de um pano rectangular de linho, com uma cruz no meio e fitas em duas pontas, que serve para cobrir também os ombros e o pescoço do sacerdote.   O amicto começou a ser usado no século VIII, sobre a alva (vestimenta de pano branco), sendo utilizado em certas ocasiões para com ele o sacerdote cobrir a cabeça quando ia ou vinha do altar. Hoje, é a primeira veste sagrada e fica por baixo da alva. Significa a fé, base e fundamento das virtudes que devem guindar o sacerdote.
  
 Interior da Sé de Braga.
 
As procissões da Semana Santa foram introduzidas no arciprestado de Braga entre 1500 e 1510.
 
Soledade Martinho Costa
                                                
 
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. III
Ed. Círculo de Leitores
 
 
publicado por sarrabal às 19:16
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2 comentários:
De garatujando a 8 de Abril de 2009 às 16:53
SOLEDADE, minha boa Amiga
Poderia eu transpor para aqui, palavra a palavra, o comentário que deixou no 'Garatujando' acerca do mesmo tema.
Esperando não tome isto como estultícia minha (estou ciente das minhas limitações) uma coisa é certa: temos, ambos, as mesmas preocupações, a mesma motivação, e quase os mesmos processos de divulgar aquilo que nos parece ser de divulgar, para que os leitores fiquem a conhecer melhor a variada e rica etnografia que é uma mais valia do nosso país.
------------------------
A dada altura, escreve a minha querida Amiga:
" Nossa Senhora da Soledade, para mim, é sempre um dos pontos altos. E poucos sabem que o nome significa a tristeza, a solidão,"
Não é, obviamente, o seu caso.
Gosto do nome, com a pontinha de nostalgia que o caracteriza - e lhe dá, mesmo, um certo encanto.
Carinhoso abraço do
Carlos Ferreira


De Anónimo a 2 de Abril de 2010 às 14:30
Boa tarde,
Parabéns pelo site, muito interessante. Pela relevância do artigo tomei a liberdade de o divulgar aqui: http://nortesim.blogspot.com/2010/04/festividades-da-semana-santa-em-braga.html

Boa Páscoa,
vap


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