Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

SEGREDOS - O «PRETO»

 
Estava na minha casa do Bom Velho de Cima (friso sempre o «de Cima», porque há também o «de Baixo») apenas há uns dias quando apareceu por lá um cão desconhecido. Acontece muitas vezes. São cães abandonados, ou que fogem ou que se perdem por entre o matorral e os atalhos a encurtar caminhos pelas matas ou vinhedos, que levam às aldeias. Alguns acabam por regressar ao ponto de partida, outros, perdido o faro e a orientação, vão ficando por aqui ou por ali, entregues ao abandono e à fome.
 
Com um pouco de sorte juntam-se aos demais cães que tomam conta das aldeias e, mais um menos um, não dá grande ralação aos habitantes desses lugares perdidos entre serras, montes e vales. Onde não come um, podem comer dois, esta é a verdade. Felizes aqueles que encontram mão amiga para os socorrer. Aí, é certo e sabido que esquecem o lugar de onde vieram, dispostos a viver uma nova vida.
 
Foi assim que o tal cão por ali ficou, aceite pelos outros rafeiros residentes, mais rosnadela, menos rosnadela. Ainda arredio, olhava-me de longe. Não se aproximava nem quando lhe colocava o prato com comida. O rabo, trazia-o ele entre as pernas, tão escondido que mal se via. Sinal da sua tristeza e do seu medo. Todo preto, e tão feio de corpo e de focinho, como eu nunca vira outro cão igual. Nem cheguei a ver depois.
 
De início, eu acabava por retirar a comida sem que o animal nela tivesse tocado. Permanecia parado, a uns acautelados metros, com a fome estampada no focinho. Mesmo assim, sem se aproximar. De vez em quando estalava uma zaragata com os outros cães, mas ele, embora assustado, não arredava pata.
 
Um dia, finalmente, aproximou-se da comida e o prato ficou limpo. Achei que tinha um ponto a meu favor. Baptizei-o sem originalidade: «Preto», por ser totalmente preto o seu pelo. Assim passei a chamá-lo e assim passou a ser conhecido na aldeia. Nesta altura já ele me seguia os passos, embora a uns metros, poucos. Começava a habituar-se às pessoas e ao ambiente da aldeia.
 
Um dia, uma habitante do Bom Velho de Cima, ali nascida e criada, já bastante idosa, viu o «Preto». Ao olhá-lo, a senhora Mabília, benzeu-se, como era seu hábito em diversas ocasiões, cruzou depois as mãos sobre o ventre e disse sem o desfitar:
- Credo! É um pobre de um penitente. Mas tão feio…Dê-lhe carinho, minha senhora, dê-lhe carinho, que está a fazer uma esmola.
Fiquei impressionada com as suas palavras. Nas aldeias é assim.
 
O tempo foi passando e o «Preto» começou a vir comer juntamente com os outros cães – era eu ainda a cozinheira dos rafeiros da aldeia. Sentados à espera da comida, sem brigas, sem ladrar, comia um de cada vez, mantendo-se os restantes, ordeira e pacientemente à espera da refeição. Assim os habituei.
 
Por opção minha, o «Preto» era o primeiro a ser servido. Deixava quase sempre um resto de comida no prato. Acostumado que estava a passar fome, comia sempre menos do que os outros. Por esta altura já o «Preto» abanava o rabo quando me via, facto que veio marcar mais uns pontos a meu favor. Mais pontos marquei quando uma tarde se deitou no chão, a meus pés, barriga para cima, rebolando-se na terra, à espera de uma festa. Entretanto, tinha sido desparasitado, tomado um banho e mão amiga tirara-lhe as carraças, tipo piercing, que lhe enfeitavam as orelhas. Continuava feio, muito feio, mas o pelo baço apresentava agora um semi-brilho.
 
Fiz-lhe uma cama num velho palheiro abandonado, onde dormia as sestas e à noite. Mas bastava pressentir-me ou ouvir a minha voz, para o «Preto» aparecer de imediato. Se o chamava, corria na minha direcção, vindo quase sempre do palheiro. Diziam-me algumas pessoas que «o animal era já muito velho». Coisa de que não duvidei.
 
Passou entretanto o tempo da minha permanência no Bom Velho de Cima. Perto de três meses, pelas minhas contas. Tinha chegado a altura do regresso. Comecei a preocupar-me com o «Preto». Foi então que pedi às pessoas que residem mais perto de mim, que não deixassem de lhe dar água e algum alimento. Que sim, «ficasse eu descansada», assim fariam.
 
No dia da partida, o «ti» António Maçarico diz-me, com um certo à-vontade, lá da porta:
- Atão, porque é que a senhora não leva o cão consigo?
- Ora, senhor António – Respondi. – Porque se eu quisesse um cão já o tinha arranjado.
- Mas a senhora dá tanto mimo ao «Preto», dá-lhe comida, fez-lhe casa no palheiro… – Continuou.
- Pois sim. Mas o cão não é meu. Apareceu por aqui e limitei-me a tratá-lo. Não me sinto na obrigação de o levar comigo. Agora é a vossa vez de ajudarem o animal. – Rematei.
 
Foi com pena que deixei o «Preto». Já no Algarve pensava muitas vezes nele. Continuava preocupada, confesso. E com razão. Passara pouco mais de um mês quando telefonei para o Bom Velho De Cima. E logo a notícia: o «Preto» tinha morrido. Deram com ele morto dentro do palheiro. O «Preto» descansara  do seu fadário. Fora feliz por uns escassos três meses. Imagino que tivesse passado fome e sede. Imagino que não tivesse voltado a ouvir uma palavra de carinho. Imagino (porque não?) que lhe tivesse faltado a minha presença, a minha voz, os meus cuidados. O «Preto» poderá ter morrido debilitado por falta de alimento. Acredito. Mas ninguém me convence que não terá morrido de saudades. Mais do que a falta de alimento (ele até já estava habituado), foram elas, as saudades, que mataram o «Preto».
 
Soledade Martinho Costa
  
 
 
publicado por sarrabal às 00:33
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5 comentários:
De garatujando a 4 de Abril de 2009 às 19:19
Ora aqui está um exemplo de como, de um tema extremamente simples se faz uma estória enternecedora.
É a capacidade a que habituou os seus leitores. de, ao correr da pena, dissertar com facilidade, acerca de qualquer assunto.
Neste mimoso escrito, a minha querida Amiga Soledade revela também uma bondade para com os animais que muito nos diz do seu carácter.
Aceite o meu amistoso abraço.
Carlos Ferreira


De sarrabal a 7 de Abril de 2009 às 19:48
Amigo Carlos Ferreira:

Grata, como sempre, pelas suas palavras. Sim, o «Preto» deixou-me saudades. Mais por calcular a razão da sua morte. Creio, acredite, que não estou enganada. Geralmente, nas aldeias, os animais ou são para serem comidos ou para trabalhar. Não era o caso.

Abraço amigo da Sol

Tem correio!


De Anónimo a 15 de Abril de 2009 às 00:29
Tenho uma história parecida com esta. Gostei!


De Antonio Cortez a 3 de Junho de 2009 às 23:14
Engraçado o comentário da Senhora velha... Nascido e criado em Lisboa, estou no entanto ligado á Beira Alta por laços familiares, terra onde muitas mulheres parecem ver o não visível e embalam segredos que na cidade são tidos como disparates.

Acredito em muita coisa e acredito também na saudade que mata!... Talvez o cão fosse mesmo velho, talvez o animal estivesse doente, talvez tanta coisa mas no final de tudo vale o amor que se distribui e a memoria de um afecto.

Como sempre, cara Soledade, um belíssimo e envolvente texto.


De sarrabal a 4 de Junho de 2009 às 13:51
Prezado António Cortez:

Ainda bem que passou por aqui. Tinha quase a certeza de que a história do «Preto» iria agradar-lhe. Exactamente pelas razões que aponta, uma delas, «a de que tudo vale o amor que se distribui e a memória de um afecto». Estas crónicas são disso um exemplo.
Sim, nas aldeias as pessoas vivem e sentem de maneira diferente e há coisas para as quais não se encontra explicação. A casa do Bom Velho de Cima (existe o Bom Velho de Baixo) fica na zona de Condeixa-a-Nova, portanto, Beira Alta.
Lá mais para a frente, irei colocar outro post com o título «Soli e os animais». Também desta vezirei falar de cães. Depois lhe direi, para o caso de querer passar pelo Sarrabal.

Abraço da Sol

(Ainda não foi desta vez que me deixou o endereço do seu blog. Eu gostaria de o colocar nos meus links pelo interesse e especifidade dos temas que aborda)


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