Sábado, 28 de Março de 2009

OS TEUS 100 ANOS

 
Se não tivesses partido, se fosses ainda viva, Tia Maria Eduarda, completarias hoje 100 anos de vida. E foi tão pouco o tempo que te separou deste dia: apenas quatro meses. Quatro meses incompletos que fizeram toda a diferença. «Viver sempre também cansa» dizia o poeta José Gomes Ferreira. Resolveste descansar. Ansiei que chegasses até ao dia de hoje. Fiz projectos. Pensei em mil e uma coisas que te agradassem. Que te fizessem feliz. Estavas bem. Nada fazia prever que nos ias deixar. A não ser a tua idade, 99 anos. Mas cheios de lucidez. Tempos atrás falaste-me no Manuel de Oliveira: iria completar, como tu, o centésimo aniversário. Ele conseguiu, tu não. E foi por tão escasso tempo. Não calculas a alegria que me daria dizer-te como foste importante ao longo da minha vida. Aliás, sempre to disse. Mas repetia. Actualmente, eras tu o único alicerce. O único pilar ainda de pé. O elo a ligar ao passado o nome da nossa Família. Composta, hoje, por elementos mais novos – mas que, sem se aperceberem, estão a envelhecer também. Fazes-me muita falta, Tia Maria Eduarda. Resta-me a consolação de teres sido, além de avó da Paula Cristina e bisavó da Mónica, já adolescente, a tia-avó de oito sobrinhos-netos e de cinco sobrinhos-bisnetos, estes muito pequenos ainda. Mesmo assim, já capazes de dizerem o teu nome, de te visitarem e de gostarem de ti. De continuarem a gostar de ti. Como eu. Não tenho palavras para dizer-te que o dia de hoje foi um dia triste, muito triste para mim. Lembrei-me de ti muitas vezes. Perguntar-te se foste feliz, não creio ser necessário. Sei demais da tua vida, tu sabes. Por vezes longe, estive sempre a teu lado. Foste a última a partir. A última de sete irmãos. Calhou-te a ti conhecer os vindouros. Nas suas veias corre o teu sangue. Têm o teu apelido. O nome da Família. Gostaria de ter-te oferecido um bolo com 100 velas. Este que te deixo não chega a tanto. Que sirvam para iluminar o teu caminho até chegares junto de Deus. Se por acaso já lá estiveres, lembra-te da nossa Família. E de mim. Tantas vezes falámos «de como seria depois». Agora já sabes. Eu ainda não. Mas que esse «depois» seja melhor, muito melhor do que este mundo em que vivemos. Deixo-te uma flor e um pequenino poema querida Tia Maria Eduarda.
 
Tua sobrinha
 
Soledade Martinho Costa
 
ESTRADA                         
 
O caminho
De pedras e de escolhos
Que foi para ti
A dádiva da vida
Não o recordes já.
 
Além
Perdida                                    
Atrás da estrela
Que pálida agoniza
Terás
Talvez
A estrada lisa
Que nunca este
Em teus olhos espelhou.
 
S.M.C.
                                                       
                       
 
publicado por sarrabal às 00:16
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2 comentários:
De garatujando a 29 de Março de 2009 às 13:56
Comovedor escrito este, a indiciar uma grande sensibilidade que, aliás, perpassa através de toda a sua poesia.

Carlos Ferreira


De sarrabal a 1 de Abril de 2009 às 13:32
Carlos Ferreira:

Deixo aqui, mais uma vez, o meu agradecimnto pelas suas palavras.

Abraço da Sol


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