Quinta-feira, 19 de Março de 2009

DIA DO PAI - CARTA ABERTA AOS MEUS DOIS PAIS

 
Nunca vos escrevi. A ti, pai Lino António, por ser impossível. A vida apenas te permitiu ficares comigo até eu perfazer um ano de idade. Não me lembro das tuas feições, do carinho das tuas mãos, da tua voz. Mas conheço-te desde sempre. A mãe falava-me muito de ti. Sei muitas coisas a teu respeito. Da tua vida, vivida durante tão pouco tempo: somente vinte e dois anos. Conheço-te, ainda, pelas tuas fotografias. Por exemplo, aquela que tenho na minha sala em Alverca do Ribatejo. Eras um jovem tão bonito, pai! Alto, elegante, moreno, os olhos escuros, o sorriso tão leve que mal escondia a seriedade quase permanente do teu rosto. A teu lado está a foto da mãe, noutra moldura. São as fotografias que trocaram com dedicatórias de amor quando ficaram noivos, lembras-te?
 
Sei que cantavas bem. Que tocavas viola. Que escrevias poemas. Que te interessavas por política e odiavas o Estado Novo. Herdei de ti muitas coisas: canto bem, escrevo, os meus olhos e o meu sorriso são os teus. O meu próprio carácter, a forma de olhar os outros e o Mundo têm muito de ti, dizem. A mãe, tão nova, ficou sozinha. A morte não escolhe idades. Não lhe importa que uma jovem fique viúva. Que uma criança de um ano fique sem pai.
 
Provavelmente, foste tu quem escolheu depois o meu outro pai. Aquele que passados cinco anos viria a ocupar o teu lugar. Que acompanhou o meu crescimento: o pai Rafael. Sabes tão bem como eu que tu, se vivesses, não poderias dar-me mais amor do que o amor que ele me deu. Mais atenção. Mais mimo. Era ele que punha os brinquedos no meu sapato pelo Natal. Que me comprava os livros que lhe pedia. Que lia com enlevo os primeiros e incipientes poemas que escrevi. Junto da mãe era ele o meu intercessor. Foi ele, até hoje, o avô adorado dos teus netos. A tua neta Maria João, pôs ao primeiro filho o seu nome: Rafael. Agora que o teu neto Luís Miguel vai ser de novo pai, se for menino, irá chamar-se Lino Miguel. Em tua memória, pai. Os teus netos e bisnetos gostam de ti. Os teus bisnetos olham o teu retrato e o retrato do pai Rafael e já me perguntaram se «era bom ter dois pais, porque eles só têm um»!
 
Mas quero dizer ao pai Rafael, que deve estar por aí, a teu lado, que sinto uma pena sem medida, por não ter ouvido da minha boca esse chamamento tão doce: «pai». Porque desde a infância nunca consegui pronunciar essa palavra ao dirigir-me a ti, pai Rafael. Havia em mim um impedimento para o qual não encontro, ainda hoje, explicação. Eu sabia que tu não eras o meu verdadeiro pai, o meu pai biológico – embora o fosses na perfeição em todos os aspectos. Mas eu sentia que tinha o dever de preservar e honrar o nome do pai Lino. De não  repartir a palavra «pai»  com mais ninguém. Nem mesmo contigo, que demasiado o merecias. Só tenho a meu favor, e tu sabes, que não te tratando nunca por pai – embora a mãe insistisse comigo –, era por pai que te tratava quando, estando tu a meu lado, falava de ti a outras pessoas: família, amigos, conhecidos ou não. E tu ouvias e ficavas feliz. Na tua presença eu dizia com o maior à-vontade, sem inibições: «O meu pai ontem ofereceu-me dois livros». Ou: «Amanhã vou com o meu pai ao cinema». Ou ainda: «O meu pai não perde o vício de fumar!».
 
E foi o tabaco que te matou, pai, foi o tabaco. Eras alegre, vivido, mãos largas, bondoso, amigo do teu semelhante. Conhecido e estimado como poucas pessoas o foram em Alverca do Ribatejo – onde continuas a ser recordado. E também amado por mim, pai. Muito. Embora nunca to tivesse dito de viva voz. Havia em mim esse retraimento, absurdo, inexplicável, a impedir-me de to dizer. E teria sido tão fácil segredar-te: «amo-te muito, pai». Digo-to hoje. Mesmo assim, penso no pai Lino ao escrever estas linhas. Mas sei agora que ele não iria importar-se. Que nunca se teria importado. Que não se sentiria traído por mim. Nunca. Que a frase «amo-te muito, pai», podia repeti-la e reparti-la dirigindo-me a ele e a ti. Aos dois se ajustava. Por isso, aos dois agradeço. A um por me ter dado a vida. Ao outro, por me ter ensinado a vivê-la. A ambos por me haverem amado tanto.
 
A vossa filha
 
Soledade Martinho Costa
 
                                 
 
 
publicado por sarrabal às 00:05
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2 comentários:
De garatujando a 19 de Março de 2009 às 08:40
Soledade, minha Amiga

Foi com crescente emoção que li esta sua crónica a propósito do DIA DO PAI.
E deixe-me que lhe diga que cheguei ao fim da leitura com uma estranha e acentuada comoção. Talvez porque há notória semelhança no que toca à vivência (ou falta dela) com os nossos respectivos progenitores,
Mas para além disso, tocou-me também a forma como abordou o tema, manifestando uma apurada sensibilidade (que aliás lhe é peculiar) e revela amargurada saudade que lhe advém dos seus tempos de menina, pela precoce falta dos seus entes queridos.
Não poderia a Soledade marcar de melhor maneira este Dia do Pai, senão com este comovente escrito de carácter pessoal.
Permita-me um beijinho de muita simpatia, nestas circunstâncias tão especiais em que, irmanados, experimentamos sentires idênticos, por idênticos motivos.

Carlos Ferreira


De sarrabal a 20 de Março de 2009 às 22:21
Caro Amigo C. Ferreira:

Grata pelas suas palavras sempre tão gentis. O que escrevi deve-se ao facto de sentir em mim uma espécie de dever que ficou por cumprir. Fi-lo tarde, mas fi-lo publicamente.`Foi a maneira que arranjei de me punir. Embora tenha consciência que fui compreendida pelo meu segundo pai.

Abraço amigo da Sol


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