Quarta-feira, 11 de Março de 2009

SEGREDOS - «O LIVRO DE GAZÉIS»

Carlos Nejar

 

Há coisas que mesmo a mim surpreendem por ser eu a própria protagonista delas. Trata-se dos tais lapsos, de que já aqui falei numa outra crónica. De qualquer modo, não passam de distracções que, felizmente, a ninguém prejudicam. Nem sequer a mim. Deixo hoje aqui outro exemplo de mais um desses meus «pequenos trocos» (trocas).
 
Como é natural, recebo convites para estar presente na apresentação de obras literárias. Umas vezes enviados pelos autores, outras pelas editoras. Como também é natural, umas vezes estou presente, outras não estou. Assim aconteceu com um convite que recebi da Moraes Editora, aqui há uns bons anos. Tratava-se do lançamento da obra «O Livro de Gazéis», incluída na «Colecção Canto Universal» (livro publicado no Brasil pela Record-Poesia). O seu autor era Carlos Nejar e o lançamento tinha lugar no Centro de Estudos Judiciários (CEJ). Resolvi ir.
 
Conhecera Carlos Nejar uns anos antes, durante o Encontro de Poesia Peninsular que se realizou na Figueira da Foz. Na altura conversámos, trocámos impressões sobre o Encontro e também sobre algumas das comunicações apresentadas, Nejar pediu-me uma cópia da minha comunicação («A Importância da Poesia na Literatura para a Infância») e por ali nos encontrámos durante os dias que durou o Encontro.
 
Entretanto, sou sincera, com o tempo, as feições de Carlos Nejar foram-se diluindo da minha memória visual. Sucede que dias antes do lançamento de «O Livro de Gazéis», recebi a obra pelo correio com uma amável dedicatória do seu autor: «Para Soledade Martinho Costa, com amizade, desde a Figueira da Foz».
 
Quando cheguei ao Centro de Estudos Judiciários, encontrei amigos e a conversa instalou-se. Pouco depois, entrava o editor, na altura Nelson de Matos, acompanhado de dois autores e de um terceiro elemento que não identifiquei. Foi este último que se me dirigiu, dizendo que «tinha imenso gosto em voltar a encontrar-me». Mais. «Que não estava esquecido do Encontro na Figueira da Foz». Era brasileiro. Com várias dezenas de escritores na Figueira da Foz, incluindo brasileiros, a revelação não me disse muito. Fiquei apenas a saber que a pessoa com a qual conversava me havia conhecido nessa ocasião. Entretanto, alguém chama o meu interlocutor, que se perde na sala.
 
Nesse dia tinha alguma pressa, e a apresentação de uma obra literária seguida da costumada sessão de autógrafos leva o seu tempo. Por isso, antes do início da apresentação, preferi dirigir-me ao autor, tanto mais que teria de agradecer-lhe o amável envio do livro. Depois, assim que me fosse possível, retirar-me-ia discretamente. Era esta a minha intenção. Aproximei-me de um pequeno grupo que conversava quase a meu lado, e perguntei:
 
- Sabem se já chegou ou onde está o Carlos Nejar?
Reparei que me olharam surpresos e um deles disse:
- Estás a brincar, não?
- Não, não estou. E porque razão havia de estar? – Respondi.
Para meu espanto a explicação:
- Ora, porquê? Então não estiveste a falar com ele este tempo todo?!
 
Fiquei muda. Envergonhada. Naquele momento a minha situação tornou-se incómoda, embaraçosa. Bastava-me ver a cara dos meus conhecidos a olharem para mim. O caso não era para menos, pensei. Não é que se me tinham varrido completamente as feições do autor e não havia aliado, nem pelo sotaque, o nome à pessoa com a qual conversara momentos antes? Ainda ouvi uma gracinha vinda do grupo: «Se calhar, são os efeitos da caipirinha!»
- Não, porque não bebo. Mas qualquer um pode ter um lapso, ou não? – Defendi-me, sabendo que a causa não tinha defesa possível.
 
Já não fui cumprimentar Carlos Nejar. Durante a nossa conversa, além de não lhe haver agradecido o envio do livro, nem sequer lhe apresentara os convencionais parabéns pela saída da obra. Agora era tarde e o propósito inadequado. Ignoro o que ele terá pensado. Fosse o que fosse, não seria, certamente, muito abonatório para o meu lado…Não deixei de assistir ao lançamento e saí «à francesa», antes da sessão de autógrafos.
 
Aqui fica mais este registo das minhas confusões, ou aquilo que lhe quiserem chamar. Também é certo que não há ninguém perfeito, não é? Daí, estes meus «pequenos trocos» que se não servem para muito, servem, pelo menos, para alinhavar estas linhas.
 
Para ser sincera, esta crónica surgiu também por uma razão simples. Li há dias que o poeta Carlos Nejar, advogado e professor, nascido em Porto Alegre, membro da Academia Brasileira de Letras, é considerado um dos 20 poetas fundamentais do Brasil contemporâneo. Ao lado do espanhol Ricardo Alberti e do francês Yves Bonnefoy, Nejar figura ainda como um dos grandes poetas da actualidade entre «37 poetas chaves do século» abrangendo 300 autores memoráveis, no período compreendido de 1890-1990, assim o classifica a influente e conceituada publicação “Quarterly Reviw of Literature”, de Princeton, New Jersey (EUA). Juntamente com Octávio Paz, Jorge Luís Borges, César Vallejo, Nicanor Parra, Cruz e Sousa e Carlos Drummond de Andrade, Carlos Nejar, uma voz emblemática e universal, é igualmente o escritor distinguido no ensaio do crítico suíço Gustav Siebenman, “Poesia y Poéticas del Siglo XX En La América Hispana y El Brasil” (Ed. Gredos, Biblioteca Românica Hispânica, Madrid, 1997).
 
Estudado nas principais universidades do Brasil e Exterior, com vastíssima obra publicada (mais de 30 livros, incluindo alguns títulos para a infância), tradutor e romancista de talento reconhecido, Carlos Nejar é detentor de cerca de uma dezena de prémios literários e outras importantes distinções que lhe foram atribuídas.
 
Que «O Livro de Gazéis» me tinha agradado é uma verdade, embora não me tenha sido possível, pelas razões expressas atrás, comunicá-lo de viva voz ao seu autor. Mas desconhecia o percurso e prestígio literário alcançado e consolidado, entretanto, por Carlos Nejar.
 

 

Receosa de que «O Livro de Gazéis» tivesse desaparecido do lugar onde o havia posto, fui procurá-lo. Lá estava, entre outros livros, no sítio onde o tinha colocado, capa branca, com o título a vermelho, o nome do autor, discreto, a negro. Fiquei mais descansada.
 
Na casa de Alverca do Ribatejo houve um tempo em que os livros ocupavam não apenas as estantes e escrivaninhas, mas também algumas gavetas e armários. Fui obrigada a fazer uma opção. Retirei – com alguma pena minha – todos os livros que, por um motivo ou outro, me diziam menos e ofereci-os à Biblioteca Municipal da minha cidade. Depois do que li sobre o escritor, confesso que foi com outros olhos que reencontrei «O Livro de Gazéis». Um dia, quem sabe, talvez mande uma cópia desta crónica ao Calos Nejar.           
 
Soledade Martinho Costa
 
publicado por sarrabal às 00:51
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2 comentários:
De garatujando a 11 de Março de 2009 às 17:00
Ah Soledade, se soubesse as vezes que a mim me têm acontecido situações do género da que relata nesta sua crónica.
Quem não tem lapso desses ?!
Abraço Amigo

Carlos Ferreira

Nota: Tem correio urgente


De sarrabal a 12 de Março de 2009 às 01:29
Caro Carlos:

Pois é, coisas «destas» ou parecidas, acontecem-me muitas vezes. Como digo, «se não prejudicam», pelo menos, servem para alinhavar umas crónicas!

Nota. Tem resposta no seu correio com a urgência pedida. Penso que terá chegado tudo em ordem.


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