Sexta-feira, 6 de Março de 2009

HISTORINHAS - A LEBRE

 

Comadre lebre, à porta da toca, orelhas levantadas, deita um olhar ao matorral que cerca a sua casa.

 

- Não há dúvida de que a geada fica bem bonita, assim, pousada sobre os campos como um véu de lantejoulas brancas! – Exclama ela. – O pior é que de beleza ninguém enche a barriga. Enchem-se é os olhos, isso sim. Agora o papinho, era bom, era. Hoje, por exemplo, com tanta beleza, enchia-se a barriguinha até fartar. Mas não. Pobres dos bichos que têm de procurar alimento nas manhãs como esta. Que, por mim, pouco me ralo. Vou continuar a dormir um sono e só pela tardinha tenciono pôr as patas fora da toca. Quanto ao frio, ora, no Inverno já estou habituada. Também, para alguma coisa me há-de servir o fato de pêlo…Assim não me saia ao caminho bicho ruim ou algum caçador! – E a lebre entra no buraco que lhe serve de toca e volta a enroscar-se na cama quente do calor do seu corpo.
 
Para ela, os dias no Inverno, embora os mais curtos do ano, em nada alteram a rotina a que se habituou. Dorme durante o dia e só ao entardecer ou à noitinha se mostra activa e afoita. Activos são também os seus filhos, os lebrachos, que nascem de olhos abertos e com pêlo a cobrir-lhe o corpo. Mãe lebre amamenta-os então durante três semanas. Apenas com um mês de idade os filhotes estão prontos a deixar a casa materna e a enfrentar a vida. Sendo por natureza um bicho solitário, a lebre aceita a companhia do marido, o senhor lebrão, embora recuse viver em comunidade.
 
 
De cauda curta e orelhas demasiado compridas, ouve muitíssimo bem mesmo a dormir. O seu olfacto e visão são igualmente apurados. Agora corredora, não há outra! Por isso, tem as patas traseiras mais desenvolvidas do que as dianteiras, o que lhe permite uma melhor adaptação à corrida, extremamente veloz. Mas cautelosa, a nossa amiga lebre não corre nunca em linha recta. A mesma precaução faz com que mude de casa numerosas vezes. Abre muitas tocas mas nunca regressa às tocas onde já tenha morado.
 
No que respeita à comida, não passa fome durante o Inverno. Come raízes, folhas, ervas, bagas, cogumelos, cascas de árvore e troncos tenros, Uma felizarda, a comadre lebre, talvez por ser herbívora. Conquanto não se importe de saborear animal que lhe apareça à frente morto por doença ou por algum caçador…
 
Soledade Martinho Costa
 
                                                       
Do livro “Histórias que o Inverno me Contou”
Ed. Publicações Europa-América
publicado por sarrabal às 00:23
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