Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

O «ENTRUDO» E OUTROS BONECOS E FIGURAS REPRESENTATIVAS DO CARNAVAL NO MUNDO

 

O «Entrudo» e a «Quaresma», Canelas, Vila Nova de Gaia.
 
Por aldeias, vilas e pequenas cidades portuguesas, ainda não se perdeu a tradição de se efectuar na noite do último dia de Carnaval (Terça-Feira Gorda) a «Queima do Entrudo», por vezes acompanhado de uma boneca, a «Quaresma», quase sempre à meia-noite em ponto, antecedida de «julgamento» ou da leitura de «testamento» do popular boneco, um dos símbolos desta quadra, a marcar, em diversas localidades, o ponto alto dos festejos carnavalescos e o seu encerramento.
 
Leitura do «Testamento do Entrudo», Canas de Senhorim, Nelas.
 
Poderá mesmo dizer-se que o ritual tem vindo, nestes últimos anos, a ganhar gradualmente entre nós um novo impulso, graças ao empenho de algumas colectividades de recreio ou de grupos que se esforçam na recuperação desta prática tão do agrado do povo.
 
«Queima do Entrudo», Almodôvar, Beja.
 
Não deve deixar de referir-se, todavia, a semelhança deste costume carnavalesco com o que se verifica em vários países da Europa, a mostrar o seu carácter tão universal quanto remoto. A salientar há o facto de ser efectuado de duas formas distintas entre si: a primeira, que antecede a «queima», pela alegria e brincadeiras, pelo excesso de comida e de bebida, pela música e pelas danças. A segunda, que preside à «queima» do boneco, pelo sentido de desagravo e de castigo, com a sua figura destruida pelo fogo.
 
«Enterro do Entrudo», Brunhoso, Mogadouro.
 
Ao longo dos tempos, tem sido também ponto de encontro de opiniões a ligação da «queima» do boneco ao final do Inverno e à chegada da Primavera. Naturalmente, a fazer lembrar sobrevivências de práticas pagãs que se foram sacralizando e mantiveram até aos dias actuais, continuando as populações a atribuir-lhe fins mágico-profilácticos de purificação e excomunhão de poderes considerados maléficos.
 
«Queima do Entrudo», Torrão, Alcácer do Sal.
 
Por isso, na Rússia, sobretudo em zonas rurais, aparecia outrora nesta data o «Metsik», «Espírito dos Bosques», ou «Ancião da Floresta», considerado como deus da fertilidade, boneco umas vezes vestido de homem, outras de mulher, amarrado no topo de uma árvore, tendo culto diário por meio de preces e oferendas, como prática mágica de protecção contra todos os males, especialmente em favor dos rebanhos.
 
Carnaval na Rússia.
 
Hoje o boneco dá pelo nome de «Maslenitsa», procedendo-se à sua «queima» ritual, igualmente em analogia ao Inverno e à Primavera, após sete dias de duração do Carnaval.
 
«Maslenitsa», Rússia.
 
O «Maslenitsa» está tradicionalmente associado às panquecas, que o povo saboreia nestes dias, servidas quentes e com diversos recheios, acrescidas da superstição de que «ao comê-las o Sol irá brilhar com mais luz e calor».
 
Panquecas, manjar cerimonial do Carnaval na Rússia.
 
Na Alemanha o destaque vai para as festividades carnavalescas que têm lugar nas cidades de Colónia, Dusseldorf, Mainz e Aachen. Aqui, a figuração simbólica do Carnaval é representada por um boneco vestido, calçado e com chapéu, que costuma ser enterrado, mais a sul do país, enquanto mais a norte é queimado numa fogueira, a dar os festejos por encerrados.
 
O «Nubbel».
 
O «Nubbel», assim é conhecido por toda a Alemanha, aparece, por norma, colocado nos locais onde vai festejar-se o Carnaval.
 
 
Retirado somente na Terça-feira para proceder-se ao seu enterro, os acompanhantes do «Nubbel» trajam de luto, com a «queima» a realizar-se, rigorosamente, à meia-noite. Quase desaparecida, esta tradição voltou, nos últimos anos, a ganhar nova força por toda a Alemanha.
 
                                               «Zamalzain»
 
Outra figuração sempre presente nesta quadra em diversas localidades da Alemanha é o popular «Zamalzain» (o cavalo com saias), representado por uma espécie de bobo carnavalesco.
 
Desfile de Carnaval, Nice.
 
Em França, Nice continua a ser a cidade que marca a preferência na época carnavalesca.
 
Corso de Carnaval, Nice.
 
O boneco, conforme as regiões, é afogado, decapitado ou queimado, caso do «Saint-Pansard», um boneco pançudo, que tem o seu fim na Terça-feira à noite.
 
«Gilles».
 
Os «Gilles» representam outras figuras representativas do mais conhecido Carnaval da Bélgica, efectuado na cidade de Binche( a lembrar os nossos «caretos» do Nordeste Transmontano).
 
 
Aparecem em grupos pelas ruas, vestidos rigorosamente de igual, com fatos e adornos antigos, ricos e coloridos, por vezes ostentando chapéus de plumas que atingem considerável altura.
 
 
Outras vezes com máscaras cobertas de cera, onde se destacam os característicos óculos e bigodes retorcidos.
 
                      Os «Gilles» com os tradicionais cestos de laranjas.
 
Para demonstrarem a sua generosidade, oferecem laranjas a quem com eles se cruza, «símbolo da fertilidade e do trabalho do homem». Conforme manda o preceito, somente é permitido vestirem-se de «Gilles» os naturais da cidade de Binche.
 
Corso de Carnaval, Patra.
 
Na Grécia, com o Carnaval a ter a duração de uma semana, o realce vai para a cidade de Patra. Por todo o país o boneco leva o nome de «Senhor Carnávalos», e a sua sorte, como a da maioria dos seus congéneres, é a fogueira, ateada no último domingo dos festejos.
 
Desfile nocturno do Carnaval em Patra.
 
Na ilha grega de Corfu, que aufere, igualmente, de  grande projecção nesta quadra do ano, o «Senhor Carnávalos» tem direito à leitura do seu «testamento», antes de proceder-se, no domingo, à simbólica «queima».
 
O «Tetális», Grécia.
 
Por toda a Grécia, a época carnavalesca é anunciada  por um outro boneco, o «Tetális», transportado no cimo de um carro, a percorrer as ruas, mal desponta o primeiro dia de Carnaval.
 
O «Chicharro», Espanha.
 
Em Espanha, onde os festejos carnavalescos ganham particular relevo em Salamanca, Cádiz e Tenerife, o símbolo do Carnaval é representado por um «Chicharro» ou uma «Sardinha», sendo esta última considerada a mais popular. Em muitas outras localidades de Espanha e mesmo em Madrid, o tradicional «enterro da sardinha» apresenta extenso cortejo com a maioria dos acompanhantes mascarados ou trajando de luto.
 
Carro alegórico do «Enterro da Sardinha», Espanha.
 
Tanto o «chicharro» como a «sardinha», na sua maioria esculpidos em madeira e transportados em carros alegóricos, têm a sua «queima» na tarde de Quarta-Feira de Cinzas (primeiro dia da Quaresma).
 
 
Na Itália, além do popular boneco, vamos encontrar algumas máscaras representativas de várias das suas cidades:
 
                           «Arlecchino», de Pérgamo e Veneza.
 
                             «Pantalone»,de Veneza.
 
                             «Colombina», de Veneza.
 
                             «Pulcinella», de Nápoles.
 
                             «Dott Balanzone», de Bolonha.
 
                                        «Gianduia», de Turim.
 
Nestas e noutras cidades e localidades italianas, desde tempos remotos e até hoje, o «Senhor Carnevale» morre sempre de uma causa só: por ter comido demais (a dar motivo a diversas encenações), realizando-se o seu «enterro» com a leitura do «testamento» e a respectiva «queima» no último domingo dos festejos. Na região da Calábria adopta o nome de «Nonno» (avô), com a figuração a mostrar um homem idoso, mais uma vez em alusão ao final do Inverno, seguindo-se as restantes fases do ritual.
 
 
Veneza guarda para si a consagração de ter sido considerada «a máscara de Itália». Em tempos passados, o Carnaval começava naquela cidade no dia 26 de Dezembro, aprovado por decreto-lei, decorrendo com todo o folguedo e número incontável de mascarados até à Quarta-Feira de Cinzas.
 
 
Após essa data era concedida uma licença especial a quem a solicitasse, que permitia o uso da máscara e do trajo carnavalesco. Mesmo durante a Quaresma, era normal decorrerem festejos carnavalescos, embora de forma mais discreta e restrita.
 
 
Actualmente, o Carnaval em Veneza tem a duração aproximada de dez dias, respeitando a data estipulada no calendário.
 
 
Além do «enterro do João», outras «queimas» e «enterros» rituais percorrem ciclicamente o calendário, sendo disso exemplo «a queima do compadre e da comadre» pelo Carnaval; «a queima da velha», pela Quaresma; «a queima de Judas» pela Páscoa; «a queima de São Martinho», em Novembro; «o enterro da carne», na Quaresma (caído em desuso nas últimas décadas); «o enterro do bacalhau», pela Páscoa e o «enterro do galo» pelo Carnaval e pela Páscoa
 
 
Soledade Martinho Costa
 
               «Queima do Compadre e da Comadre», Alvarelhos, Carregal do Sal, Viseu.
               Foto: Lino Dias.
publicado por sarrabal às 00:11
link do post | comentar | favorito
|
7 comentários:
De remando a 20 de Fevereiro de 2009 às 23:27

Minha querida Soledade

Na linha a que habituou os seus leitores - com artigos muito bem elaborados e documentados graficamente q.b. - este seu trabalho é uma autêntica enciclopédia sobre o Carnaval. Faço ideia o tempo que gastou, as fontes que teve que consultar, e aplicação que forçosamente teve que usar, para conseguir tão completo resultado.
Os meus parabéns.
E, a propósito, divirta-se, que a quadra convida.

Abraço de admiração e amizade.

Carlos Ferreira


De garatujando a 22 de Fevereiro de 2009 às 23:34
Minha querida Soledade

Na linha a que habituou os seus leitores - com artigos muito bem elaborados e documentados graficamente q.b. - este seu trabalho é uma autêntica enciclopédia sobre o Carnaval. Faço ideia o tempo que gastou, as fontes que teve que consultar, e aplicação que forçosamente teve que usar, para conseguir tão completo resultado.
Os meus parabéns.
E, a propósito, divirta-se, que a quadra convida.

Abraço de admiração e amizade.

Carlos Ferreira

Nota: O comentário que se lê a seguir, saiu, por lapso como sendo de REMANDO, quando deveria ser GARATUJANDO. Aqui fica, com as minhas desculpas, a devida rectificação


De sarrabal a 24 de Fevereiro de 2009 às 00:50
Caro Carlos Ferreira:

Ainda bem que gostou. Este trabalho sobre o Carnaval foi escrito na altura em que tive acesso a variadíssima documentação sobre as festividades carnavalescas, quando da elaboração da colecção "Festas e Tradições Portuguesas". Aproveitei e fiz o texto, embora sem integrar o segundo volume da colecção, uma vez que somente as tradições portuguesas podiam ser incluidas. É inédito e resolvi publicá-lo agora. Acontece o mesmo com o post «Baloiços Festivos», que não sei se leu. Neste âmbito tenho ainda outros textos inéditos que penso publicar.
Trabalho deu, devido às muitas fotografias. Ficou-me o hábito dos livros com ilustrações, provavelmente.
Então, e essas «obras», vão demorar muito tempo? Espero bem que não. Eu vou espreitando até estarem concluidas!
Abraço amigo da Sol


De garatujando a 25 de Fevereiro de 2009 às 09:28
Minha boa Amiga Soledade:

Fiquei agradavelmente surpreendido ao ver o seu comentário de hoje.
Surpreendido por a Soledade o ter colocado, bem poderá dizer-se, logo após eu ter “postado” o meu recente trabalho. (é permitido o anglicismo ?!)
Tomo isso como seguro indício, para mim extremamente gratificante, do interesse que o meu modesto blog parece merece-lhe.

Refere, de novo os meus desenhos. Como muito bem diz, já a Soledade o havia feito em 10 deste mês quando escreveu:

“Aliás, não é a primeira vez que os classifico desta maneira. Uma pergunta: já fez alguma exposição dos seus trabalhos?”

Foi uma falta minha, de que me penitencio, não ter respondido a esta sua pergunta. Certamente, ao falar do seu blog, ter-me-ei “perdido” e daí a minha “gafe”

Por outro lado, o lugar para comentários não propicia a possibilidade de alargar o que há a dizer, Há que resumir.

Ora, em termos de relação de convívio cibernético ocorre-me, neste contexto, fazer-lhe uma sugestão:
vê a Soledade algum inconveniente em utilizarmos o meio directo de contacto por E-mail ?

É que, dadas as afinidades (permita-me esta estultícia) entre os nossos blogs, certamente que teríamos aí matéria para trocar ideias, conhecimentos, informações, matéria publicável, etc., o que não é praticável através do espaço destinado a comentários.

Fica a sugestão que, obviamente, a Soledade aceitará ou não, como melhor entender.
Por minha parte aqui lhe deixo o meu endereço de E-mail:
csfpoveiro@sapo.pt.

Grato pela sua sempre agradável visita

Fraterno abraço do
Carlos Ferreira




De Lino Dias a 16 de Fevereiro de 2016 às 09:53
Excelente artigo. Adorei, porque gosto destas vivências carnavalescas. Permita só uma correcção. A aldeia de Alvarelhos que tem a tradição da Queima da Comadre e do Compadre pertence ao concelho de Carregal do Sal, distrito de Viseu. Posso garantir isso, porque fui eu que tirei a foto que aparece no texto e terá sido pesquisada na net. Parabéns pelo artigo!


De sarrabal a 21 de Maio de 2016 às 03:52
Sim Lino Dias «apanhei» a foto na Net e confiei na informação da localidade. Assim que puder corrijo e coloco o seu nome. Apesar de tudo, ainda bem que gostou. Grata por isso e pela informação. saudações!


De Lino Dias a 21 de Maio de 2016 às 10:42
Muito bem! Se for permitido, o genuíno Carnaval de Cabanas de Viriato, da Dança dos Cus, também tem muitas curiosidades. Vejam fotos em:
- http://www.faroldanossaterra.net/2015/02/19/carnaval-de-cabanas-de-viriato-voltou-a-destacar-se-pela-originalidade-e-espontaneidade/


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Junho 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

12
13
15
16
17

20
21
22
24

25
26
27
28
29
30


.posts recentes

. SÃO JOÃO - O SOL E AS PLA...

. PORTUGAL A ARDER - O FOGO...

. HISTORINHA - A ABELHA E O...

. ALGUÉM SE LEMBRA?

. SANTO ANTÓNIO - AS MARCHA...

. CANTO DO VENTO

. ZECA AFONSO

. 23 DE ABRIL - DIA MUNDIAL...

. DEDICATÓRIA

. SEMANA SANTA - O GALO DAS...

. CELEBRAÇÕES DA QUARESMA -...

. CALENDÁRIO - MARÇO

. CARNAVAL - A MÁSCARA

. TODOS OS LUGARES SÃO TEUS

. BOLO-REI - ORIGENS

. A VIAGEM DOS TRÊS REIS MA...

. FELIZ NATAL E BOM NOVO AN...

. OUTROS NATAIS

. UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM...

. OUTRO MILAGRE

.arquivos

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

.tags

. todas as tags

.links

.Contador

Site Meter
blogs SAPO