Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

ABRE-LATAS - RAFEIROS E CÃES DE RAÇA

 
Assim que a casa do Bom Velho de Cima ficou pronta, renascendo das ruínas em que se encontrava quando a adquirimos, comecei a passar lá alguns meses no ano. Por norma o Março e o Abril seguidos depois pelo Julho e o Agosto.
 
Tratando-se de uma casa grande, também o Natal tem sido contemplado algumas vezes, com a família reunida. E, não há dúvida, a Consoada tem outro sabor com o quentinho da lareira e da salamandra. Até o presépio, a árvore de Natal e os enfeites natalícios parecem melhor enquadrados naquele ambiente rústico onde não falta, fora da porta, a paisagem linda e invernosa e o frio que se faz sentir ali com maior intensidade do que em Alverca do Ribatejo ou no Algarve, locais onde estou habituada a passar esta quadra.
 
Gostando como gosto de animais, é natural que depressa os cães da aldeia se tornassem meus amigos. Na altura em que se passou o episódio que dá motivo a esta crónica, tinha eu começado a servir, diariamente, um verdadeiro banquete aos quatro cães que faziam a vigília diurna, mas especialmente nocturna, do lugar. À solta, mas com donos, os animais não estavam muito habituados a mimos. Talvez porque as pessoas do campo vejam os bichos com olhos diferentes dos olhos das pessoas da cidade. Ali, os animais ou são para comer, para vender ou para trabalhar. Neste caso, a tarefa que competia aos quatro cães era, principalmente, a de serem os «guardas-nocturnos» do lugar. E como «cão que ladra, não morde», poderei acrescentar que o ditado se aplicava em absoluto aos quatro bichos. Morder, não mordiam, mas que assustavam quando se punham, desenfreadamente, a ladrar ao mesmo tempo, lá isso, assustavam.
 
Para lhes fazer a comida, costumava comprar num talho em Condeixa bofe ou miudezas de frango que depois cozia com arroz e pedaços de cenoura. Sempre em quantidade suficiente, cozinhada e guardada depois no frigorífico, em recipientes destinados apenas para esse efeito. Enquanto durava, retirava a porção necessária, que aquecia no micro-ondas na altura de servir a refeição aos animais.
 
Poucas pessoas sabiam destes requintes em prol dos quatro rafeiros, habituados a passar fome ou sede, frio ou calor. Em locais tão pequenos como o Bom Velho de Cima há coisas que devemos calar por prudência…
 
Durante os meses que passava ali era essa uma das minhas tarefas: fazer a comida dos cães – com o grato prazer de lha dar depois. Só deixei essa missão quando comecei a aperceber-me da atitude dos donos: cessavam por completo a assistência alimentar aos bichos, que deveria ser da sua responsabilidade. E comecei também a ter consciência de que aquilo que fazia por amor aos animais estava a tornar-se numa quase obrigação imposta pelos donos dos bichos. Um dia perguntei:
 
- Então, deixaram de dar comida aos vossos cães? – E logo a resposta:
- Ora, para quê, a senhora dá. E tão boa que chega a ser pecado. Aquilo não é comida para cães, é comida para gente!
Ignorei a crítica e prossegui:
- Bom, mas o que fazem à comida que lhes davam antes de eu chegar?
- Os nossos restos? São para as galinhas e os porcos. Para a engorda.
Não gostei da resposta. Não gostei mesmo nada. De tal maneira que, aos poucos, a partir daí, com alguma pena minha, conquanto continuasse a dar-lhes um ou outro «acepipe», deixei de ser a cozinheira dos pobres rafeiros.
 
Certo dia entrei num outro talho, que não o do costume. A dona, que estava ao balcão, explicou:
- Aqui não vendo bofe nem miudezas de frango. Mas tenho outra coisa de que os cães gostam muito: são goelas de borrego; cartilagens. Já estão embaladas e congeladas. É o que dou aos meus e olhe que são cães de raça!
 
Confiei. Aquisição feita, levei para casa o saco congelado, sem conseguir ver, por isso mesmo, o seu conteúdo. Deixei descongelar e, para meu espanto, verifiquei que goelas de borrego havia uma ou duas se tanto, o resto eram apenas ossos tão limpos de carne e tão grandes, que nem um leão teria dentes para eles. Meti tudo no saco e no dia seguinte voltei ao talho.
 
Coloquei o saco sobre o balcão e disse à senhora que na véspera me tinha atendido:
- Está aqui o saco que levei ontem. Não é um saco de goelas, como me disse, mas um saco de ossos. Não venho pedir-lhe a devolução do dinheiro, embora não goste de ser enganada. Os cães do Bom Velho, mesmo rafeiros, com pulgas e carraças, quando comem enchem a barriga…
E a dona do talho, numa repetição:
- Mas é aquilo que eu dou aos meus cães e são cães de raça!
- Pois pode dar-lhes estes também, que já estão descongelados. – Alvitrei.
No talho, vazio de fregueses, encontrava-se somente um homem que me pareceu estar apenas à conversa. Volta-se para ele a dona do talho:
- Ó senhor João, não é destes sacos que costuma levar para os seus cães?
Resposta do homem, numa atitude de quem sabe, na altura própria, estar do lado que mais lhe convém:
- Sim, senhora. É desses que levo e os meus cães chamam-lhe um figo!
 
Saí do talho a sentir-me duplamente ludibriada. Porque o saco não continha goelas mas ossos e porque me pareceu duvidosa a resposta do homem. Passos andados, dirigi-me ao talho do costume, onde sempre comprara o bofe ou as miudezas de frango. À saída, no passeio em frente, vejo o tal senhor João. Não me contive. Atravessei a rua e dirigi-me ao homem:
 
- O senhor desculpe, mas queria só fazer-lhe uma pergunta, posso? – Perguntei com um sorriso, na intenção de obter a resposta certa.
- Faça favor, minha senhora. – Respondeu
- É o seguinte: há pouco, ali no talho, disse que costumava comprar aqueles sacos de ossos para os seus cães…
- Exactamente. – Confirma o homem.
- Diga-me então uma coisa. – Continuei – Os seus cães comem os ossos?
O homem ficou calado por uns momentos, olhou-me depois com um ar um pouco acanhado e respondeu:
- Bom, comer, comer, eles não comem. Lambem.
- Pronto, senhor João, fiquei a saber aquilo que já sabia, obrigada, sim?
 
Segui o meu caminho a pensar que os cães do Bom Velho, apesar de tudo, eram cães com sorte. E mais: que enganar a fome dos cães tem os seus preceitos e os seus adeptos. Preceitos e adeptos a que não escapam nem os cães de raça.  
 
Soledade Martinho Costa
 
 
 
publicado por sarrabal às 00:50
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4 comentários:
De Maripa a 6 de Fevereiro de 2009 às 01:45
Bem-haja pela sua visita e palavras, tão gentis, que deixou no meu mar.

Fiquei contente por saber que gostou ...Afeiçoei-me ao blogue ... ajuda-me no passar do tempo. Há um pouco de mim nas palavras que o fazem.

Senti-me bem aqui e voltarei com mais tempo ...

Beijo amigo.






De sarrabal a 8 de Fevereiro de 2009 às 03:03
Maripa:

Também eu agradeço a visita e as palavras amáveis que deixou. Volte sempre que desejar. Fiquei contente por se ter «sentido bem aqui» Creia que aconteceu o mesmo comigo em relação ao seu blog. Relativante ao seu, embora o meu blog seja mais «saltitante» no que se refere a posts, há, igualmente, muito de mim em tudo o que escrevo. Sou eu que lá estou. Em verso ou em prosa - ou naquilo que for.

Retribuo o beijo com amizade
Soledade Martinho Costa


De Antonio Cortez a 30 de Maio de 2009 às 14:28
Andava eu aqui na net a procurar artigos sobre cães rafeiros pois acabei de adoptar há uns dias uma cadela que deambulava pelas ruas perdida e venho aqui parar fascinado com a imagem que publicou no seu post.

Entretanto li o que ele continha e fiquei deveras impressionado com o texto... Que agradável leitura e que honestidade simples de palavras, gostei mesmo muito!...

Parabéns pelo seu acto de cuidar de alguma forma desses animais que apenas conhecem a mão humana no sentido de levarem porrada.
Existem muitas formas de estar e a sua por mais que lhe digam o contrario, está correcta!
Bem haja!


De sarrabal a 31 de Maio de 2009 às 04:08
Caro António Cortez:

Grata pelas suas palavras. Verifiquei que possui um blog e fui espreitar. Deixei lá um comentário. Para não me repetir, posso dizer-lhe que, se o texto lhe agradou, poderá ler um outro versando o mesmo assunto, aqui no Sarrabal, com o título «O Preto», publicado no dia 1 do passado mês de Abril. Para mim, além de ser verídico é comovedor. Por estes dias irei publicar um outro, «A Surprêsa», que também fala de uma rafeirita, que não mais irei esquecer. Ambas as fotos são fantásticas!
Fica o convite para quando quiser aparecer...

Saudações cordias da Soledade Martinho Costa


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