Domingo, 14 de Dezembro de 2008

SEGREDOS - AS FLORES DA DONA CARLOTA

 
Gosto de flores. Desde sempre. Desde que me conheço. Um gosto absolutamente vulgar, convenhamos. Tão vulgar quanto feminino. Na casa do Algarve, no patamar de tijoleira à entrada da porta, tenho um verdadeiro jardim. Um autêntico horto que me dá algum trabalho. Entre floreiras e vasos, há plantas sem e com flores: do roxo ao amarelo, passando pelo branco, o rosa, o vermelho, até chegar às cores matizadas dos hibiscos: cor de fogo, cor de laranja ou rosa velho.
 
Lembro-me da minha infância. O amor às flores vem daí. Até aos dez anos vivi em Lisboa, onde nasci. No prédio de quinto andar onde morava (eu vivia no primeiro), residia uma senhora sem filhos que me adorava. Não vinha dia ao mundo em que eu não subisse ao segundo andar para «ir a casa da dona Carlota».
 
Esta senhora tinha um irmão, dono de uma quinta nos arredores de Lisboa. A dona Carlota também gostava de flores. Na sua casa havia sempre três grandes jarras floridas: uma na sala de jantar, outra na sala de visitas e outra no escritório – sendo aqui que a dona Carlota passava a maior parte do tempo.
 
Lembro-me, principalmente, dos cravos cor-de-rosa, enormes, misturados com gipsófila a transbordarem das jarras. O caseiro entregava à dona Carlota, mais ou menos semanalmente, os ramos de flores trazidos da quinta. Ora, sendo eu «frequentadora» da casa, sabia quando as flores eram mudadas. Sem necessidade de as fazer durar, eram deitadas no caixote do lixo para dar a vez às flores mais frescas.
 
Na manhã seguinte, antes de tomar o caminho da escola, apressava-me a chegar à porta do prédio para tirar do caixote parte das flores ainda viçosas. Umas vezes ganhava eu, outras a camioneta do lixo. Quando ganhava eu, ia a correr deixar as flores em casa, para colocá-las numa jarra assim que voltasse da escola.
 
Ainda hoje me pergunto porque razão a dona Carlota nunca se lembrou de me oferecer um único cravo, sendo eu a presença fiel a seu lado ou ao lado da empregada no dia da entrega e da mudança das flores. Verdade se diga que também nunca contei à dona Carlota que as flores deitadas fora faziam a minha alegria e a beleza da minha jarra colocada (com o sorriso benevolente da minha mãe) sobre um dos móveis da sala de jantar.
 
Recordo, ainda, as minhas passagens (obrigatórias!) pelo Rossio, onde as vendedeiras de flores me ofereciam uma ou outra flor, por acharem graça ao verem-me apanhar as flores caídas no chão. Penso, até, que a minha cara já lhes era familiar…Quantas vezes a minha mãe tinha de repreender-me e puxar-me pela mão, quando eu me aprontava para ir buscar alguma flor depositada em qualquer canto ou noutro caixote do lixo que não fosse o da dona Carlota!
 
Com o tempo, habituei-me a receber flores. No dia dos meus anos, no Dia da Mãe, no Dia da Mulher, mais recentemente no Dia dos Avós, ou noutros dias sem data assinalável. O Rafa, a Teka e a Soli, volta não volta, estão a oferecer-me «uma florinha», apanhada aqui ou ali. Por mais minúsculas que sejam, têm sempre direito a um pouco de água num recipiente igualmente minúsculo. Mais. Têm a observação diária de quem as ofereceu para verificar «se estão para durar».
 
Os meus hibiscos faziam o deslumbramento da Soli este Verão, durante os dois meses de férias que passou no Algarve. Pela manhã, quando os hibiscos, abertos há pouco, estão mais radiosos, era certo chamar-me num alvoroço:
- Vó, vem depressa! É uma urgência. É urgentíssimo, vem! – Depois, abria os bracitos sobre as flores e exclamava rendida:
- Olha só esta maravilha das maravilhas! Esta beleza das belezas! – E tinha razão. Outras vezes dizia:
- Esta flor aqui não me parece muito bem… – Ou, então: - Esta planta parece-me adoentada…
Geralmente, bastava deitar-lhe um pouco mais de água. Da única vez em que a Soli teve mesmo razão, o hibisco foi definhando, foi murchando e morreu. No dia em que só restavam no vaso umas hastes ressequidas, a Soli perguntou:
- Vó, as flores quando morrem vão para o céu das flores?
Não a quis desiludir.
- Penso que sim, Soli. – Respondi.
 
Agora, que alinhavo estas linhas e recordo a pergunta da Soli – enquanto os meus hibiscos continuam, em Dezembro, cheios de flores e de botões, confusos, sem dúvida, com as mudanças climáticas –, mais me lembro do carro do lixo que passava à minha porta, em Lisboa, e das flores da dona Carlota a serem levadas por ele. A diferença está em que nos dias de hoje nenhuma criança apanha flores deitadas num contentor. O que não deixa de ser muito mais cómodo e razoável – sobretudo para as mães, naturalmente.
 
Soledade Martinho Costa
 
 
                 Hibiscos
                                                              
 
publicado por sarrabal às 21:27
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