Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008

COISAS DA VELHA DO ARCO - «EU É QUE SOU A MULHER DO PRESIDENTE DA JUNTA»

O episódio passou-se na altura em que elaborava a colecção «Festas e Tradições Portuguesas». Um trabalho que me levou três anos a realizar (e não foi muito, considerando que se tratava de oito volumes), durante o qual não tive, propriamente, direito a férias. Numa esplanada ou na praia, levava comigo a documentação imprescindível, de modo a dar continuidade à escrita, que prazos são prazos, e sem a entrega dos textos não havia selecção de fotografias (cada volume conta com mais de duas centenas de fotos) e o restante percurso gráfico ficaria comprometido. Horas de sono, três a quatro, no máximo cinco horas por noite. Assim foram sendo publicados os oito volumes, pontualmente, um em cada mês, conforme compromisso do Círculo de Leitores para com os sócios que subscreveram a aquisição da obra.

 

Sei que precisei de confirmar uma informação relacionada com uma festividade realizada numa recôndita e pequena aldeia minhota. A pessoa indicada para me dar esse esclarecimento seria o presidente da Junta de Freguesia. Conforme acontece em muitas outras localidades, a Junta de Freguesia funcionava na casa do próprio presidente e sem funcionários. Em lugares pequenos a opção costuma ser esta. O horário de atendimento ao público varia, consoante os afazeres pessoais de cada presidente.
 
Eis-me, portanto, a efectuar o respectivo telefonema. Do lado de lá da linha alguém indaga antes que eu me adiante:
- Tá lá, quem fala? – A voz de uma mulher.
- Bom dia, minha senhora, poderei falar com o senhor presidente da Junta? – Perguntei.
E logo a voz num tom em que se vislumbrava algum incómodo:
- Ele não está.
- E sabe dizer-me quando é que ele está? – Insisti.
Uma pequena pausa e a informação:
- Tralmente lá prá hora do almoço.
- E a hora do almoço é quando? Trata-se de um assunto importante… – Acrescentei.
- Lá prá uma. – O som do clique a informar-me de que havia desligado.
A voz não era simpática, mas a interessada era eu.
Por volta da uma hora repeti a chamada. A resposta veio, seca como a anterior:
- Ele não está.
- Mas a senhora disse-me para ligar a esta hora… Então, quando é que poderei ligar novamente?
- Lá prá hora do jantar.
A igual economia de palavras e a minha pergunta, semelhante à que já fora feita:
- E a hora de jantar é quando?
- Lá prás oito.
O clique outra vez a dar por findo o breve diálogo.
O dia tinha passado e a confirmação sobre a informação pretendida tardava, a atrasar o meu trabalho. Mas às oito, lá estava eu ao telefone. A mesma voz e a mesma rudeza:
- Tá lá!
- Sim, minha senhora. O senhor presidente está? É a pessoa que precisa da informação…
De repente, como se o chão se abrisse num buraco sem fundo a tragar-me por inteiro, o espanto que não nos deixa sequer abrir a boca para dizer um ai. E ouvi, bem alto, uma voz alterada, iracunda, indescritível, vinda lá dos confins daquela aldeia minhota:
- Olhe cá, não tem mais nada que fazer, não, do que andar atrás dos homens? Ora vá mas é trabalhar, ouviu, e deixe os maridos das outras em paz!
Fiquei atónita. A custar-me a acreditar nas palavras inesperadas que escutava. Mas eis a gargalhada. Num impulso. Irreprimível, sonora, completamente incontrolável, a soltar-se, a quebrar a inicial mudez do meu espanto, da minha primeira reacção, da minha perplexidade. E a voz da mulher, escandalizada:
- E ainda se ri, é?
No meio do riso apenas consegui dizer:
- Que grandessíssimo disparate o seu!
Do outro lado o clique. A criatura tinha desligado.
Depois do riso, que não parava – à mistura com algum nervosismo –, veio ao cimo o meu amor-próprio, a dimensão da injúria, da afronta de que tinha sido alvo. Ainda por cima, a informação que pretendia tinha ficado sem resposta.
Sendo impensável ligar de novo para casa do presidente da Junta, no dia seguinte obtive pela PT o número de telefone do único estabelecimento da aldeia. Desta vez, uma voz de homem, amável. Perante as minhas desculpas pelo incómodo, a resposta:
- Olhe, minha senhora, eu aqui vendo de tudo. Desde bacalhau a sapatos. E ainda sirvo umas «bicas». Mas também cá estou para ajudar naquilo que puder!
Sem grandes pormenores, perguntei se me sabia dizer como poderia entrar em contacto com o presidente da Junta de Freguesia. Em vez da resposta, a pergunta com uma indesmentível nota de indignação:
- A senhora não me diga que houve problemas com a mulher?!
Fiquei calada e quem cala consente. E o dono do estabelecimento a adiantar, a mostrar que sabia muito mais do que eu própria:
 - Aquela mulher é o diabo. Coitado do homem…Olhe que é uma jóia de pessoa. Não há nada que se lhe aponte. Mas a mulher faz-lhe a vida negra com os ciúmes!
«Ora aí está!», pensei, a relacionar os factos.
E o meu interlocutor, desta vez:
- Olhe, minha senhora, está com sorte. O senhor presidente parou agora mesmo aqui defronte da loja. Não desligue, não desligue, que eu vou já chamá-lo. É só um momento!
E foi assim que cheguei à fala com o presidente da Junta de Freguesia da pequena aldeia perdida lá pelo Minho.
Postos os pontos nos «is» (assim teve que ser), o desabafo do homem feito de constrangimento:
- A senhora desculpe, sim, desculpe. A minha mulher só me faz passar vergonhas! – E numa confissão sincera, um tudo-nada ingénua: - Ainda a semana passada, numa reunião de Câmara com os presidentes das Juntas de Freguesia do concelho, me foi dito que as coisas não podem continuar assim. Há queixas, sabe? Até sugeriram que a minha mulher está a precisar é de uma boa lição!
Não perguntei qual seria a lição prevista. Mas fiquei a pensar se haveria lição capaz de acabar com os ciúmes da mulher do presidente da Junta. Tive dúvidas.
Quanto ao assunto que me levou a efectuar o telefonema, a informação fora obtida. Mas não digo que não me senti solidária com o homem que se mostrava tão fragilizado, impotente e infeliz perante o comportamento e os dislates da esposa. Pelo contrário.
 
Dias depois recebia uma carta em que me apresentava, uma vez mais, as suas desculpas. Dizia-me também que a mulher estava «arrependida e envergonhada» pelo ocorrido. Num impulso, pensei fazer-lhe um telefonema. Pedagógico. Mas controlei-me. Não o fiz. Talvez porque o meu amor-próprio falou mais alto. Há coisas difíceis de aceitar. Mesmo com a minha gargalhada e o meu riso – à mistura com o nervosismo, volto a crer –, as palavras que nunca havia escutado antes e me foram dirigidas, impunemente afrontosas, soavam ainda aos meus ouvidos. Poderia entendê-las como uma espécie de anedota, uma leviandade, uma brincadeira de mau gosto. Mas não consegui. Os ciúmes não podem desculpar tudo.
 
Não sei se na aldeia mudaram de presidente. É provável. Mas em 2004 era aquela a mulher do presidente da Junta.
 
Soledade Martinho Costa
 

 

publicado por sarrabal às 00:32
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3 comentários:
De rvn a 4 de Dezembro de 2008 às 19:55
sol,
ora aqui está aquilo que eu chamo um saboroso naco de prosa! Já tinha saudades deste seu tipo de crónicas, que muito aprecio. Devia escrever mais destas, se a minha boa amiga me permite a opinião. Não só porque os seus leitores gostam, mas também para evitar andar para aí a desencaminhar os bem casados presidentes de junta...eheheheh
:-)))))))))
cumprimentos


De sarrabal a 4 de Dezembro de 2008 às 20:49
Caro Rui:

Acredite que foi assim, exactamente, que as coisas se passaram. Não se trata de fantasia. Ainda hoje me dá vontade de rir, apesar de tudo.
Sim, parece-me que as crónicas têm os seus adeptos. Há mais na manga, agora que lhe tomei o gosto. Umas mais divertidas do que outras, é claro.

Abraço grande da Sol


De noticiasdesvbeira a 1 de Outubro de 2010 às 15:36
Agradeço que as fotos que foram retiradas sem autorização do site www.svbeira.no.sapo.pt, fotos da fogueira do Natal, fossem devidamente identificadas e mencionada a origem e o seu autor. Como sabe, o autor das fotos tem os seus direitos protegidos por Lei e espero que muito brevemente esta situação esteja corrigida. São todas as fotos de São Vicente da Beira - Castelo Branco


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