Domingo, 2 de Novembro de 2008

O CULTO DOS MORTOS

 
A primeira referência às comemorações por intenção dos defuntos, efectuada anualmente e em data fixa associada à Festa de Todos os Santos, é atribuída a Santo Isidoro de Sevilha no século VII, conquanto se deva a Santo Odilão de Cluny a introdução do ritual no seu mosteiro entre 1025 e 1030, daqui se estendendo a festividade litúrgica aos demais mosteiros da ordem e depois a toda a Igreja.
 
Em 1915, por concessão de Bento XV, através da bula Incruentum, foi autorizado a todos os sacerdotes da Igreja Católica celebrarem três missas no dia dos Fiéis Defuntos. Este privilégio já havia sido concedido a Portugal, Espanha e América Latina pelo papa Benedito XIV em 1748 – devido à influência desse antigo e piedoso costume verificado na Igreja de Aragão –, enquanto Leão XIII estende a concessão a toda a Igreja, pedindo que «no último domingo de Setembro todos os sacerdotes celebrem uma missa pro defunctis, extensiva aos sacerdotes falecidos.
 
O Ofício de Defuntos é difundido pelos mosteiros a partir do século XIII, embora, desde os tempos apostólicos possam encontrar-se textos alusivos à oração pelas almas.
 
 
                  
                 «Alminhas» do Vale, Carrazeda de Ansiães, Bragança.
                            
«ALMINHAS»
 
 
Independentemente das celebrações piedosas pelos defuntos, refira-se um outro culto que, desde há séculos, se presta às almas do Purgatório. Manifesta-se pela existência de pequenos altares ou nichos construídos em pedra ou cimento, guarnecidos por pequenas imagens religiosas, esculpidas em pedra ou barro, ou pintadas de forma singela em azulejo, alusivas a santos ou ao Purgatório.
 
«Alminhas» de Freixinho, Sernancelhe, Viseu.
 
Trata-se das «Alminhas», designação pela qual são conhecidos popular e piedosamente estes altares propiciatórios em favor e memória dos defuntos, sendo frequente depararmos com estas pequenas construções erguidas à beira das estradas, nos caminhos, nas encruzilhadas, ou mesmo no meio dos campos, quer em locais ermos ou habitados. A revelar, quase sempre, o acto de mão piedosa, dado pela deposição de algumas flores, ou pelo acender de uma vela, lamparina ou candeia de azeite, cuja chama, a alumiar a noite, nos faz lembrar os que já não se encontram entre nós.
 
«Alminhas» no lugar de Eirós, Ventosa, Vieira do Minho.
 
Localidades há onde são entregues aos habitantes «correndo a roda às casa», a fim de que todos possam contribuir para a sua preservação, limpeza e alindamento. Aquele que a tiver a seu cargo deverá alumiá-la todas as noites até findar o seu mandato. Daí, o uso, em certos lugares, de se realizarem «peditórios de azeite para as alminhas», ou proceder-se à entrega dele em cumprimento de promessa. É também usual, principalmente pela Quaresma, efectuar-se uma novena, em que durante esses nove dias a pessoa que fez a promessa vai alumiar as «alminhas» e fazer orações.
 
«Alminhas» do Pontão, Moimenta, Vinhais, Bragança.
 
Símbolos da religiosidade e do sentido piedoso do povo, deve-se às confrarias das almas, no século XVII, a sua contribuição para a divulgação das pinturas do Purgatório nelas representadas. No século XVIII as irmandades e confrarias das almas espalham-se de norte a sul do País.
 
«Alminhas» de Lagoa, Aboim da Nóbrega, Vila Verde, Ponte da Barca.
 
Nas suas inscrições, pedem apenas a quem por elas passar, uma breve oração em seu favor, ou tão-só, um pensamento piedoso por sua intenção.
 
«Alminhas», Marmeleira, Rio Maior, Santarém. 
 
«Irmão, lembrai-vos das Almas que estão no Purgatório com um Pai-Nosso e uma Ave-Maria», ou «Ó vós que ides passando/Lembrai-vos das almas que estão penando», ou ainda «Ó vós que aqui vindes tão descuidados de nós/Lembrai-vos das almas/Que nós nos lembramos de vós», são alguns dos dizeres afixados nesses altares.
 
«Alminhas» da Bazanca, Padornelo, Paredes de Coura.
 
Em Sesimbra, por tempos idos, as «alminhas» eram lembradas naquela vila (devido às terríveis epidemias de cólera e de febre-amarela que dizimaram a população em 1856 e 1857), praticando-se o piedoso culto de se subir ao Calvário, local situado no Forte de Santa Cruz, onde as vítimas foram enterradas por não haver espaço nos cemitérios, para colocar junto à cruz ali existente lanternas com azeite para «alumiar as almas».
 
Soledade Martinho Costa
 
 
Do livro “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. VIII
Ed. Círculo de Leitores
publicado por sarrabal às 11:48
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