Domingo, 12 de Outubro de 2008

HISTORINHAS - A NOITE

 
O menino dava voltas e mais voltas dentro da cama, sem conseguir dormir. Ora cerrava os olhos com muita força e tapava o rosto com a dobra do lençol, ora atirava o lençol para trás, num gesto repentino, e se punha de olhos muito abertos a investigar a escuridão do quarto.
 
- Era tão bom nunca ser preciso dormir. Se pudesse, ficava a noite inteira com a luz acesa! – Dizia ele a conversar com os botõezinhos do pijama. – Não gosto nada do escuro. Não gosto nada da noite!
 
A noite, que estava dentro do quarto do menino, ficou triste ao ouvir as suas palavras: «Se ele soubesse como sou sua amiga!» – pensou ela muito desgostosa. E aproveitando o momento em que a Lua se escondeu atrás de uma nuvem que passava, a noite aproximou-se mais da cama do menino.
 
- É verdade que não gostas de mim? – Perguntou ela numa voz tão mansa como o sopro da brisa sobre as pétalas das flores.
Ao ouvir aquela voz, o menino abriu ainda mais os grandes olhos negros e olhou ainda com mais atenção o escuro do quarto.
- Quem está a falar comigo? – Interrogou ele.
- Sou eu, a Noite.
- A noite?! – Exclamou o menino sentando-se muito depressa na cama. – Mas a noite não fala. A noite é quando está escuro e eu tenho de dormir!
- Enganas-te. Eu falo. Não estás a ouvir a minha voz?
- Estou. – Respondeu o menino cheio de espanto. – Mas…mas eu não gosto de ti, pronto! – Replicou ele.
- É pena, porque eu sou muito tua amiga. – Disse a noite. – Quando o dia termina, venho zelar pelo teu descanso. Sou eu quem faz repousar o teu corpo e o teu espírito depois de um dia de brincadeira. O sono nocturno é muito necessário ao equilíbrio das pessoas. – Acrescentou ela.
- Mas eu não sou uma pessoa crescida! – Protestou o menino.
- Por isso mesmo precisas de mais horas de sono para te poderes desenvolver e crescer com saúde. – Explicou a noite.
- Mas eu não gosto de ti. Tens uma cor preta e o meu quarto fica escuro! – Teimou o menino sem se deixar convencer.
Perante a sua obstinação, a noite achou que o melhor seria tentar uma espécie de jogo. Talvez assim o menino mudasse de opinião. Então, com ternura e paciência, murmurou, na sua voz mansa como o sopro da brisa:
- Lembra-te que as andorinhas são negras e são as aves do céu. Que os teus olhos são negros e, para a tua mãe, são os olhos mais lindos do Mundo…
- Isso são coisas boas. – Concordou o menino.
- Pois são. – Disse a noite. – Mas há muitas outras coisas importantes e boas e que são negras.
- Diz mais coisas.
- Digo que as amoras negras são as mais doces. Que o fumo é negro, quando o forno está a cozer o pão…
- Tens razão. – Concordou o menino.
- Que é negra a tinta que imprime nos livros as histórias que lês e de que tanto gostas. Que é negro o carvão que alimenta a fornalha onde os homens o transformam em fonte de calor…
- Pois é. – Disse outra vez o menino.
- Que é negro o quadro da escola onde aprendes a escrever e a fazer contas. Que são negros os grilos cujo canto embala o sono das searas nas noites de verão…
- Que é negro o meu cão Farrusco! – Riu o menino, por fim, entrando no jogo.
 
- Ora aí está. – Riu a noite com ele, num riso mavioso como o marulhar das ondas na orla da praia quando o mar adormece.
- Afinal, já gosto de ti! – Disse o menino.
- Ainda bem. Fico muito contente. – Respondeu a noite, cheia de satisfação. – Um dia, quando fores mais crescido, saberás outras coisas a meu respeito.
- Quando estudar naqueles livros grandes, com muitas folhas?
- Sim, quando estudares nesses livros, ficarás a conhecer-me ainda melhor.
- Tenho tanto sono! – Murmurou o menino, deitando-se e puxando a roupa para si.
- Então, dorme, que o dia não tarda a chegar.
- Agora já sou teu amigo! – Disse ainda o menino antes de adormecer.
 
De mansinho, pé ante pé, a noite afastou-se da cama do menino. Em seguida, muito lentamente, levantou as asas negras cheias de estrelas e voou pela janela do quarto. Cá fora, suspirou e sorriu: «Pronto, já posso partir descansada. A Madrugada não tarda a chegar e eu acabo de ganhar um novo amigo!»
 
E a noite voltou a suspirar, e lá foi, no voo silencioso das suas asas negras e brilhantes, porque eram horas de abalar para o outro lado do Mundo onde ela já conhecia outros meninos de quem era amiga.
 
Soledade Martinho Costa
 
Do livro “Seis Histórias numa História de Todas as Cores”
Ed. CEBI (Fundação José Álvaro Vidal)
 
publicado por sarrabal às 01:35
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


.posts recentes

. A CONTRACAPA DE «O NOME D...

. O MEU NOVO LIVRO «O NOME ...

. A VOZ DO VENTO CHAMA PELO...

. ALGUMA COISA ACONTECE

. HISTORINHA - A TOUPEIRA E...

. CALENDÁRIO - AGOSTO

. LEMBRAR AMÁLIA

. PARABÉNS SARRABAL - E VÃO...

. CERTEZA

. SÃO JOÃO - O SOL E AS PLA...

. PORTUGAL A ARDER - O FOGO...

. HISTORINHA - A ABELHA E O...

. ALGUÉM SE LEMBRA?

. SANTO ANTÓNIO - AS MARCHA...

. CANTO DO VENTO

. ZECA AFONSO

. 23 DE ABRIL - DIA MUNDIAL...

. DEDICATÓRIA

. SEMANA SANTA - O GALO DAS...

. CELEBRAÇÕES DA QUARESMA -...

.arquivos

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

.links

.Contador

conter12
blogs SAPO