Sábado, 20 de Setembro de 2008

CRÓNICAS DE PORCELANA - SOLI E A CARTOLA MÁGICA

 

   

A Soli gosta de desenhar. É natural. Todas as crianças gostam. Umas mais do que outras, o fascínio pelo desenho é uma das coisas que desponta cedo, assim que surge o primeiro contacto com o papel e os lápis de cor. 
 
Regra geral, começam por desenhar as mães, os pais, os irmãos, os avós, as casinhas, as árvores, as flores, o Sol. Dir-se-ia, que o autor seria apenas um, caso não soubéssemos que se trata de crianças diferenciadas. Isto, na hipótese de juntarmos, num montinho só, todas as obras pictóricas infantis que se apresentam diante dos nossos olhos.
 
Na altura em que a criança faz a descoberta do papel e das cores, alguns pais, atentos e interessados, investigam, a tentar descobrir nos filhos o gosto pelo desenho – se não mesmo pela pintura – partindo do pressuposto de que a verdadeira Arte nasce de raiz, tocando com a sua varinha mágica cada um dos eleitos. E nunca se sabe, não é?
 
Mais tarde, a Arte com que se nasce, vai-se aperfeiçoando, corrigindo, burilando. Porque toda a Arte necessita de um trabalho de «oficina». Aprender Arte, quando se não é um dos eleitos, torna-se difícil. Direi mesmo impossível. Não existem escolas onde se aprenda a ser um bom escritor ou um bom poeta. Mas existem escolas onde se aprende música, escultura ou pintura. E aí, sim. Os alunos podem vir a ser bons músicos, bons escultores ou bons pintores. Pode-se melhorar, aprendendo com os mestres. Mas tudo depende da Arte ter nascido ou não com cada um desses alunos. Só dessa maneira se pode ser reconhecido, um dia, como um artista na acepção da palavra.
 
Em escolas ou bibliotecas onde tenho ido, há crianças que afirmam, enquanto me perguntam: «Eu, quero ser escritor. Como é que devo fazer?». A resposta, costumo baseá-la, mais ou menos, nas linhas que escrevo acima. Se já se nasceu com esse fantástico dom, melhor. É só aproveitá-lo. Aconselho a que leiam muito – boas obras –, e escrevam muito também. Ajuda bastante a obter o «estatuto» que a criança, pelo menos nessa idade, pretende alcançar: ser escritor.
 
Noutros casos, as coisas não são bem assim. Acontece quando os pais, bem menos preocupados ou sensibilizados em relação à Arte do desenho ou da pintura latente nos seus rebentos, sugerem, sem que a ideia tenha partido dos próprios filhos: «E se fosses fazer um desenho? Não achas uma boa ideia?». Normalmente, a resposta é sim. E instala-se na casa a calma, o silêncio, a tranquilidade tão apetecida. «Nem que seja só por uns momentos»!
 
A seguir às folhas em branco e aos lápis de cor, aparecem, quase em simultâneo, os cadernos para colorir. Para qualquer criança escolher a cor que vai vestir as calças do palhaço, a saia da menina que corre atrás da borboleta, ou a própria borboleta, além de ser um deslumbramento, é a liberdade transferida para o seu desejo de escolha. É a sua vontade a impor-se perante as muitas opções da caixa dos lápis de cor.
  
Era isto que a Soli estava a fazer nesse fim de tarde: a colorir um coelhinho a espreitar do chapéu de um mágico.

 

O pai perguntou, no chamado género de perguntas desnecessárias: 

- Estás a pintar um coelhinho, Soli? 

 

- Sim. – Confirmou ela, distraidamente.
O pai insistiu noutra pergunta tão desnecessária quanto a primeira:
- Já reparaste nas patinhas do coelho? Estão pousadas na borda do chapéu! – Receoso, talvez, de que as patitas do animal ficassem por colorir…
- Já reparei, papá. Também as vou pintar. – Respondeu a Soli no mesmo tom.
O pai calou-se. Nesta altura, a Soli levantou os olhos do desenho e perguntou:
- Papá, sabes o nome deste chapéu onde está o coelhinho?
-Sim, sei. E tu, sabes?
Resposta da Soli:
- Sei. É o chapéu de um mágico. Mas não se chama chapéu, papá. Chama-se cartola. O mágico fez uma magia e saiu da cartola este coelhinho!
- Pois foi, Soli. – Confirmou o pai, meio surpreso com a explicação da filha.
- Às vezes, também saem da cartola mágica pombinhas brancas e outras coisas. – Continuou a Soli. E rematou:
- Eu perguntei só para saber se tu sabias, papá!
A Soli tem cinco anos. Pois tem. «Não sei como é que ela sabe tantas coisas!», espanta-se o pai.
 
Muitas mais coisas há-de saber a Soli para «explicar» ao pai. De tudo isto, só há uma lição a tirar: os adultos andam muito, mas muito distraídos. As crianças, essas, apenas aparentam que andam. Mas não andam.
 
Soledade Martinho Costa

 

   

 

publicado por sarrabal às 00:11
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