Domingo, 24 de Agosto de 2008

SÃO BARTOLOMEU - A VIDA E A LENDA

 

São Bartolomeu, igreja matriz de Parambos, Carrazeda de Ansiães, Bragança.
 
São João Evangelista chamou-lhe Natanael (dom de Deus), enquanto os restantes evangelistas (São Mateus, São Lucas e São Marcos) o designam por Bartolomeu – Bart-Tolomai, filho de Tolmai. De acordo com a tradição cristã, terá sido o esposo nas bodas de Caná, em que Cristo realiza o seu primeiro milagre ao transformar a água em vinho.
 
Acompanha Jesus até à Sua morte, participando e assistindo às Suas pregações, milagres e outros episódios da Sua vida. Estava presente à beira do mar de Tiberíades quando Jesus, após a Sua Ressurreição, apareceu a alguns dos seus apóstolos.
 
Atribui-se-lhe grande apostolado na Índia, na Arábia e na Arménia. Segundo a lenda, nesta última região, possuía o Demónio um oráculo, prática que consistia em responder às perguntas dos seus seguidores pela voz do sibilo (bruxo) Astaroth. Todavia, quando São Bartolomeu entra no templo, logo a voz do Demo emudece. O santo ordena então ao Demónio que anuncie o nome de Jesus Cristo como o do verdadeiro Deus e destrua os ídolos pagãos existentes nos templos. E assim acontece.
 
Convidado por Astiage, que governava uma parte da Arménia, o santo aceita o convite, mas Astiage, traiçoeiramente, manda esfolá-lo vivo e cortar-lhe a cabeça – lenda religiosa que nasce no século XIII, com a indicação do martírio a 24 de Agosto, se bem que a morte aponte, também, para a crucificação e afogamento.
 
O seu poder de exorcista permanece no imaginário religioso popular, daí resultando a devoção e as práticas relacionadas com as possessões ou estados entendidos como demoníacos, ou atribuídos a entidades incorporadas nos pacientes, a pesadelos, terrores e outras coisas mais.
 
Várias são as versões para a trasladação das suas relíquias. Uma delas aponta para Lipari, a norte da Sicília, conquistada pelos Sarracenos em 838, que profanaram o seu túmulo, espalhando os ossos de São Bartolomeu pelas ruas.
 
Diz-nos ainda a tradição que, por inspiração do santo, estes brilharam de noite como estrelas, tendo sido recolhidos, piedosamente, pelo monge grego Teodoro. As relíquias são levadas em 839 para Benevento (Nápoles), em cuja catedral se lhe preparou uma capela própria.
 
A 25 de Agosto de 1338 voltam a ser trasladadas para uma sumptuosa basílica. Destruída esta por um terramoto, os ossos do santo, encontrados intactos, regressam de novo à catedral. Numa outra variante, as relíquias repousam na Basílica de São Pedro, em Roma, enquanto uma outra indica que transitaram no ano 1000 para a Igreja de Santo Adalberto, igualmente em Roma.
 
Devido ao seu martírio, São Bartolomeu é o padroeiro daqueles que trabalham em peles: curtidores, luveiros e encadernadores, entre outros.
 
Soledade Martinho Costa
 
Do livro “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. VI
Ed. Círculo de Leitores
 
  São Bartolomeu, Capela de São Bartolomeu, Várzea do Monte, Santo Tirso.
 
 
OS DIABOS DE AMARANTE
 
"Casal de Diabos", Museu Municipal Amadeu de Souza-Cardoso, Amarante.
  
No dia 24 de Agosto cumpria-se outrora em Amarante (Porto) uma tradição muito especial, a fazer com que as pessoas não fossem trabalhar nessa data, de modo a poderem prestar culto, antignóstico aos ritos canónicos, a duas imagens existentes na sacristia do convento dominicano de São Gonçalo, designadas, popularmente, pelo "Diabo" e pela "Diaba".
 
Igreja de São Gonçalo, Amarante.
 
Nesse dia as estatuetas – adoradas até 1809, ano em que foram queimadas – eram ornamentadas e recebiam oferendas dos seus devotos, num ritual nitidamente pagão. Representando um casal de Diabos, as duas figuras, de acordo com a lenda provenientes do Averno (Inferno), simbolizavam, segundo se crê, «a força criadora da Natureza», despertando alguma simpatia aos próprios monges do convento.
 
Interior da Igreja de São Gonçalo, Amarante.
 
É provável que as duas figuras tenham sido obra de antigos brâmanes – grupo religioso indiano que perfilhava as superstições aborígenes – trazidas por mercadores lusitanos das longínquas paragens do Império, que se estendiam então até à Índia.
 
Quando das Invasões Francesas, os soldados do general Loison, após terem incendiado e posto a saque Amarante, e antes de queimarem as duas figuras, exibiram-nas pelas ruas com as vestes sacerdotais.
 
Expulsas as tropas napoleónicas, os frades dominicanos, pesarosos pela perda do casal de Diabos, decidiram encarregar o artífice António Ferreira de Carvalho de executar outras duas figuras para substituir as primitivas, irremediavelmente perdidas. Tempos depois surgia um outro casal de Diabos, feito de madeira de carvalho, o mais parecido possível com o anterior, agora com orifícios na cabeça, a mando do prior do convento, de forma a poder colocar-se-lhe a cruz e a umbrela.
 
As duas figuras, escuras, de tamanho aproximado ao natural e com dois chifres, encontram-se sentadas numa espécie de banco circular. Os braços estão abertos e apresentam entre os dedos de cada mão uma pequenina bola que os separa. O Diabo veste uma tanga e tem a boca cerrada, ao contrário da Diaba, que mostra a língua de fora, traja uma saia curta com recortes na ponta e corpete ajustado, de decote redondo, a mostrar os seios volumosos. Os pés de ambas as figuras assemelham-se a garras com quatro dedos assentes sobre bolas.
 
Ponte sobre o Rio Tâmega, igreja e convento de São Gonçalo, Amarante.
 
Colocados os Diabos no local que os primeiros ocupavam, dá-se a visita a Amarante do rei D. Pedro V, que resolve ir prestar culto a São Gonçalo. Tanto bastou para deparar com as duas estatuetas, que manda de imediato retirar do lugar sagrado, passando «os pobres Diabos», a partir daí, a não ter lugar próprio, ou seja, a deambular pelo claustro.
 
Primeiro claustro do convento (1606).
 
Em 1870 o arcebispo de Braga, ao tomar conhecimento da existência das figuras «diabólicas» no templo, ordena, por sua vez, que as mesmas sejam queimadas, salientando «a sua indecência perante as imagens dos santos no mosteiro». O prior do convento limita-se a queimar os órgãos sexuais da figura masculina, entregando depois as figuras à Câmara Municipal, embora estas continuem sem lugar certo, de um canto para o outro do convento.
 
São Gonçalo de Amarante
 
É por essa altura que um inglês de visita ao mosteiro se interessa por elas e as deseja adquirir. Tratava-se de Alberto Sandeman, que pretendia promover os seus vinhos, servindo-se, para tanto, das duas figuras.
 

 
Com o negócio fechado e já com as estatuetas encaixotadas para seguirem rumo a St. Swithin’s Lane, na Grã-Bretanha, eis que as gentes amarantinas vêm a saber do caso e logo se unem num protesto junto à Câmara, tudo fazendo para impedir a ida dos seus Diabos para Inglaterra – chegando ao ponto de os «arrecadar» num velho forno do Convento de Santa Clara.
 
De nada lhes valeu. O Diabo e a Diaba acabaram por ser devolvidos ao seu (agora) legítimo dono, que de pronto os embarca na estação de caminho de ferro de Caíde (Lousada, Porto), com o casal de «mafarricos» a dizer adeus a Amarante e aos seus desolados habitantes e adoradores. Sabe-se que em Londres o «casal» fez sensação e que figurou em diversas exposições, entre elas a Exposição Universal de Paris, em 1889.
 
Por cá, os amarantinos continuavam inconformados, de tal jeito que, graças à intervenção do ministro dos Negócios Estrangeiros da época, foi possível que o casal de «divindades demoníacas», cumprida a sua missão no estrangeiro em função da publicidade ao vinho Sandeman, fosse devolvido à proveniência, isto é, à sua terra de origem: Amarante.
 
A euforia foi total, com as estatuetas vindas de barco para Leixões, depois de carro até à estação da Campanhã, de novo em carruagem especial rumo à Livração (ali já com grande multidão a recebê-las) e, por fim, a fazerem o transbordo para a Linha do Vale do Tâmega.
 
À chegada a Amarante aguardavam-nas uma multidão entusiasmada e feliz, entidades públicas e particulares e a banda filarmónica. Duas juntas de bois engalanadas com um manto vermelho, deixando à vista apenas os chifres e os olhos, esperavam o famoso casal de Diabos, organizando-se de seguida um cortejo com os «chifrudos» sobre o carro a abrir o desfile, acompanhados por charangas, gente montada em burros ou jericas, a edilidade, a banda filarmónica e o povo, aqui e ali com alguns jovens mascarados de mafarricos.
 
Assim percorreu o cortejo as ruas de Amarante aos gritos de «Aí vêm os Diabos!», numa animada recepção que se arrastou até de madrugada. A partir daí, e durante ainda muito tempo, o casal de Diabos continuou a ser venerado anualmente pelo povo no dia 24 de Agosto com manifestações de culto e oferendas «ao Diabo e à sua senhora», conforme diziam por essas épocas as gentes de Amarante.
 
Museu Municipal Amadeu de Souza-Cardoso, Amarante.
 
Hoje, o Diabo e a Diaba encontram-se expostos no Museu Municipal Amadeu de Souza-Cardoso, depois de muito terem viajado e de muito terem sido admirados – nunca, embora, com a veneração e o carinho dos amarantinos.
 
                                   "Procissão dos Diabos"                                 
  

Actualmente, para lembrar o cortejo de outrora, Amarante celebra esta data com a «Procissão dos Diabos», na noite de 23 para 24 de Agosto, constituída por cerca de 300 figurantes vestidos de diabo, os respectivos «demónios» (o ano passado com as figuras verdadeiras, cedidas pelo Museu, transportadas em andores, este ano com duas cópias das estatuetas originais, desfilando em carro de bois) e a Banda Municipal de Amarante. A festa prossegue com o «Baile dos Mafarricos», no Largo de São Gonçalo, junto ao mosteiro, e o ritual de «beber a queimada (bebida alcoólica) para purificar e excomungar o mal», como manda a praxe.

 
Tradição recuperada pela Câmara Municipal em 2007, o evento chama a Amarante milhares de visitantes que, juntamente com a população local, enchem, animadamente, as ruas do Centro Histórico da Cidade, embora com especial destaque para o Largo de São Gonçalo – à semelhança de tempos idos, a recordar a chegada do casal de «Diabos» resgatados e entusiasticamente recebidos pelos amarantinos.

 

Soledade Martinho Costa

 

 

 
publicado por sarrabal às 12:54
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4 comentários:
De Daniel a 8 de Junho de 2011 às 12:08
Olá! Boa iniciativa! Gostava de saber onde encontrou as referencias aos diabos de Amarante, para eu poder consultar. Pois nunca encontrei referencias bibliográficas sobre o assunto. Obrigado


De sarrabal a 8 de Junho de 2011 às 17:45
A documentação pode ser solicitada ao Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Amarante. Penso que não irá encontrar mais informação sobre o assunto do que aquela que se encontra no meu texto. Tente também a Junta de Freguesia e o Museu Municipal. Pode ser...

Cumprimentos
Soledade Martinho Costa


De armsou a 4 de Março de 2013 às 14:40
dai se dizer que no dia 24 de agosto anda o diabo as soltas ...


De Almir Costa Requião a 10 de Setembro de 2013 às 02:10
Por essa festa em Amarante, aqui na Bahia na cidade de Maragogipe acontece a festa das carêtas e Pierrôs na lavagem de São Bartolomeu e no carnaval. São as tradições religiosas no Recôncavo baiano trazidas pelos portugueses.
Almir Requião


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