Quarta-feira, 13 de Agosto de 2008

COISAS DA TERESINHA - A LUA

       

  

Fomos passar um tempo à “Casa do Bailo”, no Bom Velho de Cima (Condeixa-a-Nova). Apenas um lugar, pois nem sequer chega a ser uma aldeia. Bem lá no alto, rodeado de denso arvoredo, de um verde cerrado por tudo quanto é olhar. Ar do mais puro. Tão puro, que alguns médicos de Coimbra recomendam o Bom Velho de Cima para quem sofre de problemas alérgicos.
 
Um local fora do Mundo, costumo dizer. A casa, quase desmoronada, foi reconstruída há uns anos. Vestida de novo com o «fato» antigo. Nada foi desperdiçado: pedras, madeiras, ferragens, azulejos…Manteve-se a traça original: a escada de pedra encostada à fachada, muito comum nas casas da Beira Litoral, que dá acesso ao primeiro andar, embora hoje a entrada principal se faça por uma das duas portas do andar de baixo, «as lojas», como se dizia antigamente, de piso térreo, onde se guardava o vinho, o azeite, as batatas, os cereais e se escondiam os gatos, que a caça, por ali, nesses tempos, era farta e não dava canseira.
 
Piso térreo transformado agora em várias zonas distintas, mas integradas, com paredes de pedra a medirem mais de meio metro de espessura, a darem ao ambiente a frescura desejada nos dias de intenso calor: sala de entrada; sala de estar; sala de refeições, repartidas por patamares com degraus também de pedra, tão antiga que se lhe adivinha os anos nas «faces» puídas ou no recorte da «barrela» sulcado no largo degrau que dá acesso à cozinha. Não há portas (só a da casa de banho), mas em contrapartida, toda a liberdade deste amplo espaço conta com várias janelas, além dos postigos das duas portas da frente e da porta de trás, que dá acesso ao jardim.
 
Jardim, fonte dos meus cuidados, onde duas grandes nogueiras dão a sombra apetecida quando é Verão ou erguem ao céu os ramos desnudados no Inverno. Espreito, ansiosa, o despertar dos renovos na Primavera, como assisto, já um pouco saudosa, ao cair das suas folhas no Outono. Folhas novas ou velhas aproveitadas por quem percebe de plantas, como a “ti” Laura, que recolhe as folhas em sacas, pedindo a minha autorização – sempre concedida – para, «depois de tratadas com os conhecimentos que Deus lhe deu» as vender «a um homem que lhas compra e lhas vem buscar de tempos a tempos».
 
Nos muros de pedra sobreposta (à antiga) do minúsculo pomar, espreitam ou deitam-se os fetos e as heras, que fazem lindos arranjos dentro de casa; não há plantas que se harmonizem melhor com as paredes de pedra à vista. Habitantes, alguns nascidos ou a residir permanentemente no Bom Velho de Cima? Apenas 26! Os restantes, como eu, são os residentes temporários. Actualmente, nove pessoas – sem contar com quem aparece de visita. No que me diz respeito, o «temporário» chega a somar alguns meses seguidos, em qualquer altura do ano.
 
Devo a ideia de dar nova vida àquela casa inexoravelmente moribunda a um grande nome das nossas artes plásticas: António Pimentel (Tópi para os íntimos, natural de Condeixa). Fiquei maravilhada com a casa que construiu, quando regressou de França, a partir de uns palheiros, em Alcabideque (aldeia a cinco minutos do Bom Velho de Cima) e avancei com a reconstrução da minha. De tal modo o António Pimentel ganhou novo entusiasmo, que acabou por adquirir outra casa velha no Bom Velho e a fazer dela o belo estúdio/galeria onde trabalhava e expunha as suas obras. Estúdio/galeria que, após o seu prematuro falecimento, se mantém, gerido pela sua viúva, a pintora Collete Villate.
 
Muita gente famosa conhece o Bom Velho de Cima: actores, pintores, cantores, músicos, escritores, jornalistas…Amigos do António Pimentel e da Colette e também meus. Amália Rodrigues preparava-se para ir até lá, não fora o seu falecimento repentino: «Já que vossemecê fala tanto no Bom Velho, eu sempre quero ver como é!». Dulce Pontes e Isabel Silvestre, além de outros amigos, foram minhas convidadas. Assim como Eunice Munhoz, Sinde Filipe, João Perry e outras caras conhecidas, foram convidados do Tópi. Ou seja, todos eles são amigos que aparecem de vez em quando no Bom Velho de Cima. Sim, porque existe o Bom Velho de Baixo…
 
A escolha do nome, “Casa do Bailo”, deve-se ao facto de ser ali que, antigamente, os «jovens» do lugar, que têm hoje mais de 80 anos, faziam os seus bailaricos. A intenção foi a de prestar homenagem aos que estão ainda vivos e recordar, no nome, um passado que não deve ser esquecido. No dia da inauguração da casa, houve festa no larguinho de São João, que lhe fica fronteiro, devidamente engalanado – porque se escolheu, precisamente, o dia 24 de Junho, dia de São João, para se fazer o festejo. Isto, há onze anos atrás. Festa/convívio entre «o povo» do lugar e das aldeias vizinhas, que durou desde o início da tarde e se estendeu pela madrugada dentro, contando com comes e bebes e um animado bailarico.
 
O descerramento do azulejo que dá o nome à casa, da autoria de António Pimentel, foi efectuado pela pessoa mais velha, nascida, criada e a viver no lugar: a “ti” Mabília (que já não se encontra entre nós), «muito honrada e nervosa por lhe caber essa tarefa». Presentes e «agraciados» com um discurso alusivo e a leitura do texto “As Casas”, foram ainda todos os que trabalharam na reconstrução da velha casa renascida das ruínas. De luzes acesas em todas as divisões e portas abertas, a entrada na casa era livre!
 
Depois, o Bom Velho fica pertíssimo de uma série de lindas cidades: Aveiro, Águeda, Coimbra, Figueira da Foz, Lousã, Leiria, Montemor-o-Velho, Pombal, Tomar…
 
Bom, já repararam, certamente, que me «perdi» a falar do Bom Velho e o título da crónica nada tem a ver com o texto em si. Pelo menos, parece. Mas eu vou já corrigir:
 
Numa dessas estadias na “Casa do Bailo” (o primeiro andar tem quartos para toda a família, uma espaçosa casa de banho, um pequenino escritório/biblioteca e um amplo terraço com uma vista espectacular), fomos passar o dia a Aveiro – a chamada Veneza de Portugal. Come-se lá muito bem e a cidade é lindíssima. Depois do jantar, o regresso.
 
 Às tantas, o silêncio dentro do carro foi quebrado pela voz da Teresinha, ainda acordada. O irmão «tombou» antes, mesmo, de aquecer o lugar. Dizia a Teresa:
- Já repararam na lua?
Todos olhámos, mas ninguém falou.
E volta a Teresa a insistir:
- Eu perguntei se tinham reparado na lua!
Fomos unânimes: «Sim, sim, Teresinha, reparámos!»
- Mas não reparam numa coisa, tenho a certeza… – Acrescentou.
- Em quê? – Perguntou a mãe.
- No desenho dela. Parece uma banana, não parece?
E o silêncio a voltar. A instalar-se, de novo, dentro do carro. E a Teresa a insistir mais uma vez:
- Eu disse que a lua parece uma banana e ninguém diz nada!?
Em simultâneo olhámos de novo. A Teresinha tinha razão. Havia alguma semelhança, realmente.
- É verdade, Teresa; tem o formato de uma banana! –Responde o tio.
E a Teresinha, na prontidão do costume, palavra na ponta da língua:
- Se fosse uma banana e pudesse apanhá-la, dava-lhe já uma dentada!
- Ó Teresa, mas acabaste agora mesmo de jantar… – Disse o avô.
E logo a Teresinha:
- Ora, avô, uma bananinha cabe sempre num buraquinho do meu estômago!
 

 

Foi nessa altura que me lembrei dum poema que escrevi para os mais pequeninos e que deixo hoje aqui dedicado à Teresinha e a todos os meninos que tiverem conhecimento dele. É assim:
 
 
O GATO, O MOCHO E A LUA
 
 
 
- Não sei o que tem a lua
Mia o gato no telhado.
Às vezes penso que amua
Hoje falta-lhe um bocado!
 
Pia o mocho empoleirado
Lá do alto do seu ramo:
   
- Mas que grande disparate
És mesmo um ignorante…
A Lua não está zangada
Está em quarto minguante!
  
E continua a lição:
  
- Aprende bem o que digo;
A Lua tem quatro fases
Quando aparece ao postigo:
  
Lua Nova
Quarto Crescente
Lua Cheia
Quarto Minguante.
  
Aprende, pois, meu amigo
Que o saber é importante!
  
Soledade Martinho Costa
 
 
Do livro “O Caracol que sabe Música”
Ed. Exclusiva Fundação Calouste Gulbenkian.
 
publicado por sarrabal às 00:26
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Maio 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
16
17
18
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


.posts recentes

. CANTO DO VENTO

. ZECA AFONSO

. 23 DE ABRIL - DIA MUNDIAL...

. DEDICATÓRIA

. SEMANA SANTA - O GALO DAS...

. CELEBRAÇÕES DA QUARESMA -...

. CALENDÁRIO - MARÇO

. CARNAVAL - A MÁSCARA

. TODOS OS LUGARES SÃO TEUS

. BOLO-REI - ORIGENS

. A VIAGEM DOS TRÊS REIS MA...

. FELIZ NATAL E BOM NOVO AN...

. OUTROS NATAIS

. UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM...

. OUTRO MILAGRE

. «SEARINHAS» DE NATAL

. COMO SE FOSSE HERODES O M...

. NATAL - AS FOGUEIRAS DO M...

. CALENDÁRIO - DEZEMBRO

. VULTO DE UM PAÍS

.arquivos

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

.tags

. todas as tags

.links

.Contador

Site Meter
blogs SAPO