Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008

CRÓNICAS DE PORCELANA - SOLI E OS ELEFANTES

 

A tia resolveu dar um passeio com os dois filhos e a sobrinha. A manhã acordou resplandecente, com uma brisa suave e um cheirinho verde a campo e a flores, a segredar que a Primavera tinha, finalmente, decidido dar um arzinho da sua graça.
Havia que aproveitar. «Um piquenique?» – foi a pergunta. - «Sim, sim, um piquenique!». – Gritaram os três.
O passeio prometia. Em determinado local o carro ficou em descanso e iniciou-se a costumada caminhada a pé. E logo a Soli, sempre com vastos conhecimentos sobre esta matéria:
- Pois, pois, andar a pé faz muito bem à saúde! Aos ossos, ao sangue, ao coração, ao cérebro…
A certa altura, passaram por uma fabriqueta, a laborar ao sábado de manhã, que emitia um som um pouco estranho – fábrica não poluente, soube-se depois. Estranhamente, o ruído possuía alguma semelhança com o som emitido por uma manada de elefantes. Uma manada pequenina porque o som, há que dizê-lo, era discreto e pouco incomodativo. Aliás, a emprestar um certo ar africano à paisagem.
Apenas a Soli se manifestou:
- Tia, aquela fábrica ali é uma fábrica de fazer elefantes? – Perguntou com um ar e um jeito de quem sabe – ó, se sabe! - que está a fazer uma pergunta perfeitamente descabida.
A tia percebeu a ironia ou a tentativa de gracejo da pergunta. Respondeu:
- Não, Soli, aquela não é uma fábrica de fazer elefantes. Sabes muito bem que os elefantes bebés nascem das barrigas das mães elefantes, ou não é?
A Soli sorriu, com aquele sorriso que só ela sabe ter nestas ocasiões e argumentou:
- Sei, tia. Mas só perguntei por brincadeira!
Sim, que a Soli, com todos os predicados já aqui descritos de quem tem apenas cinco aninhos, também possui, como não podia deixar de ser, os seus defeitos: «Eu já sei» ou «Eu já sabia» – é a resposta pronta, sempre que alguém tenta dar-lhe uma explicação. Ou, então: «Eu faço» ou «Eu sei fazer» – quando se quer ensiná-la a fazer algo que não sabe ainda.
Noutros casos, a resposta é tão determinada como as anteriores: «Eu já vi» ou «Eu já tinha visto» – sabendo nós que não tinha visto coisíssima nenhuma.
Um exemplo: «Eu já tinha visto a neve» – mal chegaram à serra da Estrela.
- É impossível, Soli. Em Angola não há neve! – Disse-lhe o primo. – O teu nariz está a crescer, estás a inventar…
- Mas eu já vi neve, sim! – Afirma a Soli na teimosia de quem, apanhada em falta, não quer desdizer-se nem dar o braço a torcer.
- Então, diz lá. – Desafia o primo – Onde é que viste a neve?
Sem alternativa, a Soli não se deu por vencida e respondeu depois de alguma meditação, que o caso parecia um pouco complicado para o seu lado:
- Olha, vi a neve quando estava dentro da barriga da minha mamã!
O primo abanou a cabeça e calou-se. A conversa ficou por aqui.
Por enquanto, segundo parece, a Soli julga-se uma menina auto-suficiente. Pelo menos, pretende sê-lo. E autodidacta também. O que a Soli não sabe é que tem ainda muito que ver e aprender pela vida fora. E não vai poder ver nem aprender tudo. Acontece aos melhores. Ela é que não sabe.
Além de imaginar, talvez, que pode ser uma super-menina. A Soli esquece-se, apenas, de uma coisa: que não possui uma capa como o super-homem.
 
Soledade Martinho Costa
 
 
publicado por sarrabal às 19:03
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