Sábado, 28 de Junho de 2008

NOITE DE SÃO PEDRO - «O QUINTAL DA FESTA»

 São Pedro
 
As festas populares em louvor de São Pedro, obedecem às mesmas características das festas de Santo António e de São João: marchas, fogueiras, ruas enfeitadas, sardinha assada, bailaricos e demais folguedos.
 
Procissão por mar, Festas de São Pedro, Montijo
 
Festividades a servir de remate aos festejos em louvor dos santos populares, que se prolongam, em alguns lugares, por todo o mês de Junho.
 
Igreja de São Domingos, Viana do Castelo.
 
Dos rituais que lhe são dedicados, refira-se a festiva e popular «Coroação de São Pedro», em Viana do Castelo, consumada na imagem de granito que ladeia a porta da fachada da Igreja de São Domingos.
  
Interior da Igreja de São Domingos, Viana do Castelo.
  

Consiste o antigo cerimonial em florir o arco do nicho onde se encontra a imagem com um outro de madeira revestido de hortênsias, em colocar uma coroa das mesmas flores na cabeça do santo e um ramo na mão que segura a chave. Para assistir ao acto, congregava-se outrora um mar de gente, havia tocatas e descantes e uma enorme fogueira feita com troncos de pinheiro.

   
São Pedro, Peter Paul Rubens. 
  
Hoje, mantém-se a concentração do povo, mas aproveita-se a saída das recuperadas marchas populares, na noite de 28, para dar cumprimento à coroação.
 
Hortências
 
Como manda a praxe, o ritual é efectuada por uma criança, que se eleva até ao nicho – levada por um bombeiro com o auxílio da respectiva escada –, para colocar as flores e depor um beijo na face de São Pedro. 
 
 
 São Paulo, Rembrand.
 
Todavia, visto a imagem de São Paulo se encontrar num outro nicho, continua a verificar-se o costume de lhe colocar também uma coroa florida.
 
 
                             São Pedro, Igreja Matriz de Penedono, Viseu
 
E porque lembrar do passado as tradições antigas deve ser quase uma obrigação, para que se não percam no futuro, como vai acontecendo, aqui fica, por invulgar e pouco conhecida, a celebração a São Pedro, que tinha lugar, por tempos idos, em Nisa (Alto Alentejo), onde o «príncipe dos apóstolos» (assim o denominavam ali) e patrono dos lavradores nisenses era festejado durante três dias.
   
Capela do Calvário, Nisa.
  
Da parte religiosa constava o Canto de Vésperas, na Capela de São Pedro, com a participação de todos os lavradores, que se dirigiam para o local com dois porta-bandeiras, uma levada pelo lavrador que nesse ano «dava a festa», a outra pelo que a tomava a seu cargo no ano seguinte.
 
 
Igreja Matriz, Nisa.
 
No dia 29 havia missa cantada e sermão na igreja matriz, para onde a imagem do santo era conduzida em procissão, voltando depois à sua capela.
 
Castelo, «Porta de Nisa».
 
A parte profana consistia no «segundo casamento» do lavrador que «oferecia a festa», procedendo este de acordo com a antiquíssima tradição, ou seja, como se de facto voltasse a unir-se pelos laços do matrimónio com a mesma consorte.
 
 
Varanda de Nisa.
 
Oito dias antes, o lavrador ou festeiro, percorria as casas dos familiares e amigos para proceder aos convites, contribuindo os convidados com o empréstimo das louças destinadas ao «quintal da festa».
 
Peças típicas de barro, Nisa.
 
Quintal da casa onde decorria o banquete, que se prolongava por três dias, com iguarias idênticas às da antiga boda.
 
 Pratos de Nisa.
 
As louças eram devolvidas depois, acompanhadas por bolos, praxe cerimonial que continua a manter-se.
  
Rendas de Nisa. 
 
A «cama da festa» (cama dos noivos) ostentava as melhores peças do bragal ainda existentes: colchas, lençóis, toalhas, etc. As vestimentas eram também aquelas que tinham usado no dia do casamento – mais apertadas, naturalmente…
 
Trajos regionais de Nisa
 

No «quintal da festa», na mesa destinada ao festeiro, colocava-se uma maçã vermelha cravada com um ramo de manjerico e grandes palanganas de barro vidrado contendo vinho, que os convivas retiravam utilizando púcaros de folha.

 
 
A certa altura o festeiro levantava-se, segurava a maçã e saudava: «É com grande alegria/ e grande satisfação/que vou beber à saúde/de todos quantos estão».
 
 
Dava uma volta à mesa, dando a maçã a cheirar a todos os convidados, até chegar àquele a quem cabia «dar a festa» no ano seguinte. Oferecia-lhe a maçã a cheirar e este dizia: «Vou beber este vinho/vinho cor de romã/é com grande alegria/que pego na maçã».
 
Queijos de Nisa. 
 
Findo o repasto, onde não faltava a tradicional sopa de afogado (sopas de pão que levam por cima o caldo e a carne de borrego cozida), o arroz de vinagre e os afamados queijos de Nisa, organizava-se um novo cortejo que se dirigia à Capela de São Pedro.
 
Janela de Nisa.
 
Ali, tinha lugar a cerimónia da «entrega da bandeira» pelo festeiro cessante ao festeiro eleito, com aclamações e vivas a São Pedro, considerado o «pastor máximo» dos zagais de Nisa. 
 
 
Os bombos de Nisa.
 

Os três dias em que durava o «quintal da festa» eram abrilhantados por músicos (pífaro e tambor, a começar no alvorecer do primeiro dia), bailaricos, foguetes e fogo-de-artifício. Toda a vila se associava ao festejo, com a rua do festeiro coberta de junco, além da costumada oferta de tremoços e de vinho à população.

 

 
Janela de Nisa.
 
Em tempos ainda mais recuados, efectuava-se a chamada «chacota», cortejo que saía de casa da festeira na tarde do dia 28, com os músicos na frente (pífaro, tambor e gaita-de-foles), seguidos de seis jovens vestidas com esmero a ladear a festeira, que transportava o estandarte, atrás os zagais, outras seis pastoras e duas mulheres com pandeiros de soalhas (chapinhas de lata), às quais cabia «levantar» as cantigas em louvor de São Pedro, que as restantes repetiam em coro acompanhadas por violas.
  
Casas antigas com «quintais», Nisa.
 
Os «quintais da festa» ainda hoje são utilizados em Nisa para oferecer o almoço e o jantar da véspera do casamento. Trata-se de espaços amplos, agregados às casas antigas (os quintais), cedidos ou alugados a quem os não tem. Da Capela de São Pedro, entretanto extinta, resta o nome, a designar o local onde existiu outrora o templo do santo.
 
Capela de São Pedro demolida em 1970.
 

A antiga imagem foi transferida para a igreja matriz, enquanto as pedras serviram à reconstrução da capela de Santo António, que, à época, se encontrava em ruínas.

 
Soledade Martinho Costa
  
 
In “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol.V
Ed. Círculo de Leitores
 
 
publicado por sarrabal às 10:28
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