Terça-feira, 3 de Junho de 2008

ABRE-LATAS - O PRETO NO BRANCO

 

Em Alverca do Ribatejo, embora seja uma cidade – eu gostava mais do nome vila, mas os interesses autárquicos falam mais alto –, ainda se diz «ir na carreira». Ora, «ir na carreira» significa ir na camioneta.

 
Os horários da «carreira» coincidem com os horários dos comboios. Assim, os passageiros – e não apenas os que viajam de comboio –, podem, comodamente, chegar até aos locais onde moram, em lugarejos, aldeias ou povoações, que se situam, sobretudo, na periferia ou nos montes que rodeiam a cidade.

 
«Moro nos montes» é outra frase muito ouvida ainda hoje. Ou: «moro na Alverca velha», que quer dizer na parte alta, mais antiga de Alverca do Ribatejo. Há também quem diga «moro no alto». E não precisa dizer mais nada. Todos sabem que se trata, igualmente, da parte nobre da cidade. É lá que fica a velha e linda Igreja de São Pedro, a Junta de Freguesia o pelourinho e as poucas «lojas à antiga» que teimam em manter-se por ali.


Refiro-me à primitiva Alverca, cortada depois pela estrada Nacional nº 10. À Alverca do Ribatejo das grandes propriedades rurais, dos grandes rebanhos, da grande produção de leite e de queijos, das grandes quintas – de terrenos férteis e de riquíssimas águas no subsolo –, há muito transformadas em pequenas ou grandes urbanizações: «a Quinta das Drogas» (hoje teriam escolhido outro nome, certamente); «a Quinta do Forno»; «a Quinta da Vala»; «a Quinta do Moinho de Ferro»; «a Quinta da Panasqueira»; «a Quinta da Ómnia»; «a Quinta do Lagarto»; «a Quinta de Santa Maria»; «a Quinta da Formigueira», entre outras – com algumas das urbanizações a manterem o nome das antigas quintas. Mas não era bem disto que tencionava falar. O assunto que me traz aqui é «a carreira».

 
Ora, a «carreira» é uma espécie de sala de visitas em andamento onde todos se cumprimentam pelo nome e, obviamente, se conhecem. Naturalmente, por morarem para as mesmas bandas. O que pressupõe, que muitos dos utentes da «carreira» sejam vizinhos. Apercebi-me disso quando, há uns tempos, viajei pela primeira vez na «carreira» entre Alverca e a aldeia da Calhandriz. Conversas amigáveis dos bancos da frente para os bancos de trás e vice-versa, algumas perguntas e respostas, a dar a entender que se trata de gente que se conhece bem.


Despertou-me a atenção, mais do que o resto, o diálogo que se estabeleceu entre duas passageiras, carregadas com sacos do “Jumbo”. Ambas sentadas não ao lado uma da outra, mas em lugares paralelos no «corredor» da «carreira».
Começa uma:
- Ai, vizinha “Estrudes”, este mês já não volto ao «Jumbo». E não trouxe nada de jeito. O dinheiro foi-se todo!
Responde a outra:
- Atão, não? Gasta-se uma pipa e olhe, o avio não dá nem para a semana. Estou como vocemecê. Sabe que mais vizinha Floripes? Vou-me às couves e ao feijãozinho, faz-se uma sopinha, enche-se a barriguinha, e pronto!
Torna a vizinha Floripes:
- E esta do arroz!? Parece que são lá os chineses é que têm a culpa do arroz estar a faltar à gente. A vizinha “Estrudes” já ouviu dizer?
A “Estrudes” tira os óculos, que limpa com um lenço, e só depois dá opinião:
- É capaz. Raispartam os chineses, que só há lojas de chineses por todo o lado e agora mais isto do arroz. Já tinha ouvido dizer, já, sim senhora…
Amainou o descontentamento do arroz, da sanha contra os chineses, dos gastos considerados excessivos e a conversa mudou de tom.
- Quem anda agora muito contente é a ti Laura. Já sabe da novidade, vizinha “Estrudes”? – Volta a vizinha Floripes a retomar a conversa.
Menos efusiva, a outra confirma:
- Já ouvi qualquer coisa, sim…
- É. Vai ser avó. A filha lá conseguiu engravidar, coitada. Agora a ti Laura não se cala, anda mesmo contente a mulher!
E logo a “Estrudes” a imaginar-se na pele da avó da criança em vias de nascer:
- Depois é que vão ser elas, quando a filha lhe deixar o neto ou neta lá em casa. Que a rapariga tem o seu emprego…
- Pois tem, isso tem. – argumenta a Floripes. – Mas uma criancinha, deixe lá, é uma alegria. E atão eles, a Laura e o marido, só com aquela filha e sem descendentes!
Outro ponto final nas novidades em relação a gente nova na terra.
Foi a vez da vizinha “Estrudes” perguntar à vizinha Floripes:
- E o novo inquilino do ti Manel do Poço, que me diz dele, ó Floripes”?
A outra, cruzando os braços:
- O que digo? Olhe, é que saiu a sorte grande ao ti Manel do Poço, é o que digo! Já se viu sorte assim? Um inquilino que lhe pôs a casinha toda num brinquinho!?
- Mas o ti Manel merece! – Defende a “Estrudes”.
A Floripes contemporiza:
- Não digo que não. Mas o homem tem-lhe arranjado tudo! E habilidoso? Olhe-me só o jardinzito, sempre abandonado, agora cheio de vasos e de flores. Está um mimo! Tudo pintadinho, o portãozito concertado…
E a “Estrudes” acrescenta, numa gabação:
- E prestável para toda a gente? Só visto! Sempre pronto a ajudar, asseado, bem-educado…
- Olhe, vizinha “Estrudes”, sabe o que lhe digo? – Remata, por fim, a Floripes: - É tão boa pessoa que nem parece preto!
«Ó dona Floripes, pensei de mim para mim, que necessidade tinha a senhora de estragar um diálogo até aqui tão familiar, tão caseiro, tão a mostrar que a vida das pessoas também se faz fora das cidades, ainda com um arzinho de como se convivia por tempos não muito distantes.» Francamente!
Mal «a carreira» estacionou as duas mulheres saíram à minha frente com o avio do “Jumbo”. Saí atrás.
Cá fora, respirei bem fundo o ar puro, com cheirinho a mato e a flores silvestres que enfeitam a paisagem desta aldeia, conhecida, em tempos – e ainda hoje, embora menos –, pelas suas belíssimas cerejas.


Mas tenho a certeza de que o inquilino do Ti Manel do Poço, se soubesse do desfecho desta conversa, nem sequer ia ficar zangado. O apreço destas mulheres por ele suplanta, de longe, qualquer pontinha de racismo. Se é que a Floripes e a “Estrudes” sabem, exactamente, o significado dessa palavra. Posso estar enganada, mas, por mim, até acredito que não sabem.

  

Soledade Martinho Costa

 

 

 

 

publicado por sarrabal às 19:34
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