Sábado, 10 de Maio de 2008

SEGREDOS - TROCOS SEM IMPORTÂNCIA

  
Tempos atrás fiz umas modificações na minha casa de Alverca do Ribatejo. Tratava-se de alterar a cor das paredes de algumas divisões. Nas casas do Algarve e do Bom Velho, as paredes e tectos são brancos. Aqui, dada a decoração, prefiro os tons suaves, a confundirem-se com o próprio branco – «copiados dos tons da Natureza», como diz o catálogo.
 
Precisei, portanto, de um pintor. Por informações recebidas, foi-me indicado um pintor, bom profissional, simpático, muito cuidadoso no seu trabalho: «Vê tu, que cobre tudo com um papel especial, e nem sequer é careiro!».  Era mais do que o ideal. Ouvi o nome e pareceu-me tê-lo decorado. Puro engano!
 
Telefonei-lhe. Apareceu prontamente:
- Já tenho feito trabalhos neste prédio. - Informou.
 Realmente, conhecia quase todos os meus vizinhos.
- Pois bem, senhor Amêndoa, vamos lá decidir as cores. Só lhe peço que comece o trabalho o mais depressa possível, pode ser? – Avancei, numa mistura de pedido e de pergunta.
- A senhora está com sorte, sabe? Acabei ontem de pintar os muros do jardim da dona…, que sei ser sua amiga. Tenho aí mais uns trabalhos, mas por uns dias podem esperar. – Resposta que muito me agradou, como se calcula.
- Óptimo, senhor Amêndoa, vamos lá, então, às cores…
Durante toda essa semana pude comprovar o que me haviam dito: o senhor Amêndoa era simpático, rápido no serviço e, acima de tudo, tinha uma paciência de santo! Sim, porque não é logo à primeira que uma pessoa acerta na cor escolhida num catálogo de cores, longe disso! Há sempre uma diferença, entre a cor eleita e aquela que se apresenta, depois, pintada na parede.
 - Senhor Amêndoa, e se puséssemos um pouco mais de branco para abrir ligeiramente a cor, parece-lhe bem?
Resposta pronta:
- Sim, senhora. Faz-se já a mistura. Põe-se um pouco mais de branco!
- Senhor Amêndoa, ali, junto à sanca, se calhar é melhor passar outra vez com o pincel, não acha?
E a resposta cordata:
 - Com certeza. Vou já passar!
É tão bom não sermos contrariadas nestas pequenas coisas…
Pelo meio da conversa o senhor Amêndoa foi-me contando que gostava de livros:
- Não leio mais porque não tenho tempo.
Acreditei e o senhor Amêndoa subiu mais uns pontos na minha tabela.
- A minha mulher é que lê muito. – Acrescentou. - Lá em casa o que não falta são livros!
Nesta altura, os pontos subiram na tabela da mulher do senhor Amêndoa.
Terminado o trabalho, que ficou um primor, relatei à minha filha o meu agrado:
- O senhor Amêndoa tem tanto de óptimo profissional como de simpático!
Só não contava com a sua inesperada reacção:
- O quê!? Não me digas que trataste o senhor Páscoa por senhor Amêndoa!?
E não é que tinha tratado mesmo!?
- Mas ele não se chama Amêndoa!? A mim pareceu-me… – Tartamudeei.
- Não, mãe, não se chama Amêndoa, chama-se Páscoa!
Recapitulei as vezes sem conta que o tratei pelo nome errado. Tantas, mas tantas… Depois dei comigo a pensar: porque seria que o senhor Páscoa nunca me corrigiu!?
 
Para ser sincera, estes percalços, volta não volta, estão a acontecer-me. A família sabe disso e brinca com o assunto. «São trocos sem importância», digo eu. Eu, que sou uma pessoa ordenada, que tem sempre as coisas no lugar certo (as minhas e as dos outros), mesmo que seja um simples  papelinho ou um objecto, meticulosa, por vezes até perfeccionista, que sabe de cor dúzias de números de telefones, desde telemóveis a fixos!
 
Só existe uma coisa a meu favor: nunca ando muito longe “da verdade”. Dou um exemplo: aqui no Algarve (Cerro Alagoa, Albufeira), há uma pastelaria com o nome “Riviera”. Pois é. Mas eu chamo-lhe sempre “Versailles”! Não é verdade que ambos os nomes têm ligação a França?
 
Agradada quando o senhor “Amêndoa” me contou que gostava de livros, tanto ele como a mulher, disse-lhe que tinha todo o prazer em oferecer-lhe um livro dos meus. Perguntei-lhe qual era o mês do seu aniversário, «Maio», respondeu. E foi o IV volume – Maio – da colecção “Festas e Tradições Portuguesas”, o livro escolhido para a oferta.
- Olhe que eu quero uma dedicatória toda bonita! – Pediu.
Aqui estava, pensei eu, uma boa altura para tirar a questão a limpo.
Telefonei-lhe para vir buscar o livro.
Mal entrou, não contive a pressa e a curiosidade e perguntei:
- Diga-me lá, porque foi que o senhor deixou, durante todo este tempo, que o tratasse por Amêndoa, quando se chama Páscoa!?
- Ó minha senhora! E que mal tem isso!? As amêndoas não se comem pela Páscoa? Então, não se preocupe: vai tudo dar ao mesmo! – E o senhor Páscoa rematou o meu embaraço com uma descontraída gargalhada.
Na dedicatória? Bom, na dedicatória escrevi o nome correcto: «Para o senhor Páscoa…».
Duma coisa estou certa. Não voltarei a trocar-lhe o nome. Porquê? Porque antes de pronunciá-lo irei sempre lembrar-me da quadra pascal. Vai ajudar-me muito.  
 

 

Soledade Martinho Costa
 
 
 
publicado por sarrabal às 00:02
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