Segunda-feira, 5 de Maio de 2008

CRÓNICAS DE PORCELANA - SOLI E A ESTÁTUA


Fernando Pessoa - Autor: Lagoa Henriques.

 
Soli tem cinco anos. Nasceu em Portugal mas com poucos meses foi viver com os pais para Angola. Mais precisamente, para Luanda. Visitas a Portugal nestes seus cinco anos, poucas. Agora, que regressou para frequentar a pré-primária, fazer o Ensino Básico e o que virá a seguir, não lhe passaram despercebidas certas diferenças e pormenores a obrigá-la a fazer comentários e perguntas a propósito de tudo. Quer do que lhe causa estranheza, quer do que lhe dá prazer, conforto e alegria.


«Mamã, aqui não há mosquitos!»
Não, mosquitos iguais aos mosquitos de Angola, que “mordem”, a causar doenças como o paludismo – que conhece bem –, realmente, não há. Mas também há por cá mosquitos e melgas, à espera de fazerem a sua triunfal «entrada de Verão», para nos “ferrarem o dente”, que o calor está a chegar. A Soli é que não sabe.
«Mamã, aqui não há meninos da rua!»
Não, meninos da rua iguais aos meninos de Angola, realmente, não há. Mas também há por cá «meninos da rua». Não tantos como os de Angola, é verdade. Estão é “arrecadados”. Por isso, dão menos nas vistas. A Soli é que não sabe.


As primeiras surpresas, as primeiras descobertas, os primeiros passeios foram surgindo. Memorável, a ida à serra da Estrela! Soli é uma menina muito viva, extrovertida, sempre com um sorriso aberto na carinha bonita ou a deixar escapar uma sonora gargalhada, numa demonstração da sua constante e contagiante alegria. Mas é uma menina observadora, cuidadosa, obediente, preocupada com a Natureza, com o nosso planeta, com a «reciclagem», com a alimentação, com a escola e com um conceito de «família» pouco vulgar numa criança tão pequena.

 

É sensível. Gosta de repartir o que tem. Os outros são muito importantes para ela. Se pede alguma coisa para si, pede também para a «comunidade»! Aos primos que deixou em Angola, chama irmãos – ela que não os tem: «O meu mano mais velho, o Ciro.»; «a minha mana mais pequenina, a Cuca.»; «a minha mana do meio, a Lady.». É assim que se lhes refere. Talvez por ter passado estes seus cinco aninhos em África, onde o conceito de família e o respeito familiar, ao contrário do que se passa na Europa, continuam a vigorar atingindo, por vezes, as fronteiras do sagrado. Curiosamente, aos dois primos de Portugal, chama apenas «primos».


O pai gosta de lhe mostrar o que ela ainda não viu. Um destes dias levou-a a conhecer o Terreiro do Paço – a Soli gosta do Tejo e sabe o nome de outros rios portugueses e a sua localização, embora não os tenha visto. Deram depois uma volta pelo Rossio e foram até ao Museu do Chiado, onde almoçaram. No regresso, desceram a Rua Garrett e passaram junto à Brasileira e ao monumento a Fernando Pessoa. O pai explicou-lhe que aquele senhor de «bronze» era um grande poeta português, dizendo-lhe o nome. Soli, acercou-se da figura, tocou-lhe, mirou-a por todos os lados, sentou-se numa cadeira a seu lado, com a maior compostura, sempre com os olhos fitos na escultura. Quando se deu por satisfeita, levantou-se.


Continuaram a descer o Chiado, enquanto o pai ia lembrando os seus tempos de menino «quando vinha, ele próprio, passear a Lisboa com o avô» – amante da capital, onde tinha, por essa época, inúmeros amigos, fazendo parte de algumas animadas tertúlias de café. Soli, foi ouvindo com atenção, sem interromper as recordações do pai. Quando este fez uma pausa, surgiu a pergunta:
- Papá, o avô Rafael também tem uma estátua em Lisboa?
Ante o inesperado quesito, o pai respondeu:
- Não, o avô Rafael não tem uma estátua em Lisboa! – E, levado, naturalmente, pelo amor que o ligou até à adolescência a um homem sábio, bondoso, solidário, respeitado e louco pelos netos, acrescentou:
- Olha, filha, se o avô Rafael tiver uma estátua, a estátua deve estar no céu…
Resposta pronta, da Soli:
- Não, não, papá, isso é que não está!
- Não!? – Interrogou o pai.
- Não, papá. A estátua do avô Rafael não está no céu. Mas eu sei o sítio onde ela está!
- Então, diz ao papá.
A Soli parou, colocou-se de frente para o pai, colocou-lhe a mãozita sobre o peito e disse com um sorriso doce:
- Olha, papá, a estátua do avô Rafael está aqui. Dentro do teu coração!
O pai agarrou nela ao colo e um pouco emocionado, deu-lhe dois beijos em troca da preciosa «informação».

   

             

 Soledade Martinho Costa

           

 


                               

publicado por sarrabal às 00:02
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4 comentários:
De LMB a 6 de Maio de 2008 às 05:44
Quis o destino que viesse a conhecer relativamente bem a obra da Soledade.
Muitas pessoas escrevem bem, algumas escrevem muito bem, e a poucas Deus deu o dom da escrita. Foi talvez quando li o seu trabalho na revista do DN, a alguns anos atras, que percebi claramente que a Soledade pertencia a este ultimo grupo.
Como se deve recordar esse trabalho apresentava, em cada domingo, uma figura publica portuguesa inquestionavelmente - para a maioria de nos - merecedora de admiracao. A estrutura dessa apresentacao era simples, foto a ocupar 2 paginas, resposta a meia duzia de questoes simples e 3 ou 4 linhas de texto escritas pela Soledade sobre a pessoa em causa.
Quando e onde poderei ter o prazer de reler essas linhas ?
Nao acha a Soledade que essas belas palavras - escritas na altura para essas pessoas - alem de serem igualmente justas para outras nao mereceriam seguramente ver-se em formato digital ?


De Passos Manuel a 6 de Maio de 2008 às 19:51
Eu achei aquelas babuseiras do magazine um dpsperdicio de espaço e de tempo, com tanta fotografia recopiada!!!!
Mas agora, a sua escrita no todo, no "Puro", sem as limitações que o editorial nos impõe. ISSO SIM!!!
Assim é que se vê que profundo as profundidades e a pureza se Africa está-lhe no coração .
Continue com o Sarrabal Sra D. Costa, e fale mais de Africa.
Tambem lá estive...
Maldito 25 de Abril...MAldito seja Sra D.Soledad Costa...


De sarrabal a 6 de Maio de 2008 às 19:06
LMB:

Grata pelas suas amáveis palavras. Não mereço tanto, certamente.
O tempo passa depressa; o trabalho de que fala já tem uns anitos. Eram 3 e não duas páginas da revista "Notícias Magazine", 18 palavras para as figuras públicas «desenvolverem» e o meu texto consistia num poema.
Mas pode reler esses mesmos poemas aqui, no Sarrabal, sabia? Basta ir ao Arquivo (coluna da esquerda) e clicar em cada um dos meses. Depois é procurar. Os textos que foram publicados estão lá quase todos. Aliás, também irá encontrar alguns inéditos, que não foram publicados durante aqueles 6 meses. E, já agora, uma novidade que espero se concretize. A revista pensa, para breve, publicar mais uma série de 20 «notáveis», seguidos de outros 20 alguns meses depois.
Com votos de que a notícia lhe agrade, envio-lhe um abraço (e vá aparecendo, terei todo o gosto!)

Soledade Martinho Costa


De sarrabal a 6 de Maio de 2008 às 21:32
Passos Manuel:
Não podemos agradar a todos. Mas olhe que as fotografias não foram «recopiadas», como diz. O fotógrafo do "Notícias Magazine" foi tirá-las, propositadamente, a cada uma das figuras públicas por mim convidadas.
Mas também me dou por satisfeita, visto apreciar a minha escrita! África (onde nunca estive), está no meu coração, sim. Procure no Arquivo do Sarrabal (à esquerda do blog) o mês de Setembro (9/9/2007). Vai encontrar o poema »Para lá do Fundo». É Angola no que tem de mais humano e actual. Penso que irá gostar.
Reparo que é contra o 25 de Abril. Lá terá as suas razões. Hoje, tem muitos apoiantes no que respeita aos países africanos de língua portuguesa.
Irei falar mais da Soli. Vou também colocar em breve alguns poemas (não meus) vindos de Angola.
Será um prazer tê-lo de novo no Sarrabal.
Saudações cordias.

Soledade Martinho Costa


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