Sábado, 3 de Maio de 2008

DIA DA SANTA CRUZ


São Martinho de Anta, Sabrosa, Vila Real.

Não são apenas as festividades rurais ligadas ao primeiro de Maio a merecer reparo pela sua expressividade popular, cumpridas, ciclicamente, em rituais e crenças. Também os dias 2 e 3 de Maio são celebrados entre nós com idênticas manifestações de carácter festivo, comportando todas elas praxes cerimoniais específicas.

Enquanto algumas têm origem em ritos pagãos campestres perfilhados pela Igreja, outras têm por intenção invocar, tão-só, factos ou mitos considerados dignos de relevância. Umas e outras a misturar na sua componente o histórico, o religioso e o profano, particularmente entre a comunidade rural, onde crenças e práticas rituais continuam a verificar-se em datas festivas, como herança perpetuada até aos nossos dias. Já na antiga Roma tinham lugar nos dias 1, 2 e 3 de Maio, as Florais ou Florálias, festas celebradas em louvor de Flora, deusa das flores e mãe da Primavera.

 

                     "A Primavera", Alessandro Filipepi (Botticelli).

Amada por Zéfiro, vento do oeste, e venerada pelos Sabinos – antes da submissão deste povo aos Romanos, em 220 a.C., e da própria fundação de Roma – , Flora apresentava-se no seu templo, no Quirinal, uma das sete colinas onde foi construída Roma, permanentemente adornada com grinaldas de flores.

 

Flora, pomenor do quado "A Primavera" de Botticelli.

As celebrações tiveram, de início, um carácter campestre e popular, com jogos e danças, mas acabaram por tornar-se extremamente licenciosas.

Daí, ser provável, a eventual relação entre as celebrações a Flora e as comemorações rituais campestres que se efectuam no nosso e noutros países nos três primeiros dias de Maio, principalmente no dia 3 – dia da Santa Cruz, ou dia das Cruzes, dia da Bela Cruz, ou dia da Vera Cruz – , data em que se regista uma das mais antigas solenidades litúrgicas da Igreja, já celebrada em Jerusalém no tempo do imperador romano Constantino, baseada na exaltação do triunfo de Cristo sobre a morte.

 

Constantino I, o Grande, imperador de Roma.

Constantino Magno foi o legislador da paz para a Igreja, ajudando a consolidar o Cristianismo como religião nova no Império Romano.

Várias são as tradições que apontam este dia como um dia santificado, ao qual estão ligadas diversas lendas, como a que se refere ao milagre do achamento da verdadeira Cruz de Cristo, por Helena, mãe de Constantino, quando da sua viagem à Palestina, na intenção de procurar o madeiro da Cruz em que o senhor foi crucificado.

 

Santa Helena.

Segundo alguns investigadores, existem  registos desse achado no século XIII, dando-o como ocorrido no século III.

 

Santo Lenho ou a Cruz de Cristo.

Assim terá acontecido, tendo Helena dado a seu filho parte do Santo Lenho como preciosa relíquia.


Relicário do Santo Lenho, em exposição na Igreja Matriz de Santiago do Cacém, Alentejo.

A restante foi repartida pelo mundo cristão, representando a Relíquia Sagrada, que acompanha em relicário e sob o pálio a imagem do Senhor nas procissões, conquanto nem todas as dioceses a possuam.

 

Relicário do Santo Lenho, Igreja Matriz de São Miguel de Travassô, Águeda, Aveiro.

A Festa do Achamento da Cruz passou, entretanto, de Jerusalém para todo o Oriente e logo depois para o Ocidente. Roma realizou estas festividades pela primeira vez no século VII.


Capela de Santa Helena, Praia Formosa, Santa Cruz, Torres Vedras.

Segundo a lenda, o Santo Lenho, roubado séculos mais tarde pelos Persas, terá sido recuperado pelo imperador Heráclio, que o levou às suas próprias costas, desde Tiberíades até Jerusalém, onde a Cruz foi entregue ao patriarca Zacarias, no dia 3 de Maio de 630 - data que recebeu a designação do Dia da Santa Cruz ou Invenção da Santa Cruz.

A sumptuosa Basílica de Santa Cruz, em Jerusalém, foi depois mandada construir por Santa Helena para receber as Relíquias do Santo Lenho, ali abrigadas há mais de 15 séculos


Basílica de Santa Cruz, Jerusalém.

Sob a mesma designação, o acontecimento do Achamento da Cruz é celebrado, oficialmente, no calendário católico a 14 de Setembro.

                

Das inúmeras festas e romarias que têm lugar nestes dias de norte a sul do País, uma praxe é comum a todas elas: a de enfeitar com flores variadas, verdura, rosmaninho e «cordões de maias» (giestas) as fontes, os cruzeiros e, até, as campas dos cemitérios e as encruzilhadas – neste último caso, para «proteger as pessoas e os animais dos malefícios das bruxas, quando à noite por ali passarem».


Serra da Freita, Aveiro.

Assim acontece nas localidades de Fronteira (Cabeço de Vide, Alto Alentejo); no Ribatejo, em aldeias do concelho de Alenquer (Tojal, Casais de Maçaricos, Mossorovia); na serra da Freita (Aveiro, Beira Litoral); no Vimieiro (Beira Alta) e em Alpalhão (Alto Alentejo), entre outras.


Alpalhão.

Designado em Alpalhão pelo «dia em que vão esperar a Dona Rosa», a denominação poderá representar, também ela, uma reminiscência dos rituais praticados na Grécia Antiga, no dia 3 de Maio, em honra de Cíbele, deusa da terra e dos animais, que tinham por finalidade «receber a Primavera», simbolizada por uma jovem vestida com flores e verdura, transportada pelos campos num andor.


Alpalhão.

Antigamente, este dia era também chamado pelos Alpalhoenses «o primeiro dia da sesta», por ser a partir dessa data que eram permitidas aos trabalhadores rurais duas horas diárias para descanso.


Alpalhão.

Situação idêntica verifica-se em Almalaguês (Coimbra), quando os habitantes da freguesia se dirigem à ermida da Senhora da Alegria, no dia que lhe é consagrado.


Ermida da Senhora da Alegria, Almalaguês, Coimbra.

Na volta «traz-se a sesta». Ou seja, a partir da festa da Senhora da Alegria passa-se a dormir a sesta após o «jantar» (almoço), para recuperar as forças, que a lida nos campos não dá tréguas e começa cedo.

Soledade Martinho Costa

        


                                "A Sesta", Vincent Van Gogh

In “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. IV

Ed. Círculo de Leitores
publicado por sarrabal às 01:03
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8 comentários:
De zazie a 4 de Maio de 2008 às 22:30
Estes posts são deliciosos.

É serviço público, evitar que se esqueça todo este património

bjs


De sarrabal a 4 de Maio de 2008 às 23:19
Fico sempre grata às palavras como as suas. Haja quem se interesse por este género de textos. Não foi por acaso que aceitei o desafio do Circulo de Leitores para escrever as "Festas e Tradições Portuguesas" em 8 volumes. Há 12 anos que esperavam por alguém com "coragem" para pegar no tema. A tiragem foi grande mas, felizmente, logo esgotou. Daí para cá, continua a fazer-se pequenas edições, que vão sempre vendendo - e o preço não desceu! Desculpe a imodéstia, mas foram 3 anos de trabalho intensivo (e nem sequer foi muito tempo) que me deu o maior prazer, porque adoro a etnografia e a mitologia, áreas que quase sempre andam a par.
Muito do que escrevo aqui no Sarrabal é retirado dessa colecção, embora num "arranjo" diferente, visto ser destinado a um blogue.
Desculpe o entusiasmo, sim?
Muitos textos destes tenciono publicar aqui.
Volte sempre, zazie!
Retribuo os beijos


De João Wundervald a 7 de Outubro de 2008 às 14:14
olá...meu nome é João, sou acadêmico de História, faço pesquisas referentes a Festas, custumes, tradições...etc. Gostaria (se puder) que me passasse algumas referencias bibliograficas referentes a este seu post ( festa de Santa Cruz), pois estou a fazer uma pesquiisa sobre o mesmo assuto aqui em minha cidade.
desde já agradeço.
Jwundervald@hotmail.com


De sarrabal a 8 de Outubro de 2008 às 00:50
Caro João Wundervald:

Reparei, pela sua escrita, que a «sua cidade» é no Brasil, acertei? Ou estará a escrever de Portugal? Irei tentar ser-lhe útil enviando-lhe, brevemente, alguma informação por email. Festas, costumes e tradições encontra bastante matéria aqui no Sarrabal. É só procurar no arquivo. Essa é, também, a minha área. São de minha autoria os oito volumes «Festas e Tradições Portuguesas» editados pelo Círculo de Leitores, entre inúmera colaboração sobre este tema publicada nos jornais Diário de Lisboa e Público.

Gostei da sua visita e do seu interesse pela etnografia. Volte sempre!

Saudações e um até breve.

Soledade Martinho Costa


De Zelia Bulhões a 2 de Outubro de 2009 às 15:16
Estava convicto que a devoção do invenção da Santa Cruz seria no dia 3 de outubro. Pois sou decentente de Português. Lenbro-me que minha mãe resava no dia 3 de outubro (dia da Invensão da Santa Cruz) para Nossa Senhora da Conceição.Reza no Terço ou seja o Rosario : (Fazia os pedidos no inicio ) Credo, Pai Nosso, 3 Ave Maria e nos Misterios: no Pai Nosso "Minha Nossa Senhora da Conceição Vós não disseste, que no dia da invenção da Santa Cruz , Quem chamaste por Vos 150 vezes, que seria valido" e nas Ave Maria "Valei-me Nosssa Senhora da Conceição " reza-se 3 terços para completar 150 vezes ou seja o rosario. Terminando com a Salve Rainhae agradecimentos.


De sarrabal a 3 de Outubro de 2009 às 19:28
Cara Zélia Bulhões:

A celebração da Invenção da Santa Cruz era celebrada na Gália no dia 3 de Maio, data da descoberta da Santa Cruz, segundo a lenda, por Santa Helena, embora este facto tenha ocorrido a 3 de Setembro de 320. Quando Heráclito recuperou o Santo Lenho das mãos dos Persas, terá sido, também, no dia 3 de Maio. Em Roma, a Festa da Exaltação da Santa Cruz tinha lugar no dia 14 de Setembro.

Em várias localidades do Brasil realizam-se grandes festas com orações, cânticos, música e danças devotas, com início no dia 2 ou 3 de Maio e a duração de 11 dias.

Não sei se me escreve do Brasil, mas interessava saber a localidade onde sua mãe rezava a Nossa Senhora da Conceição. Podia ser uma devoção pessoal. Em Portugal o dia 3 de Outubro, liturgicamente, não é data assinalável . Nossa Senhora da Conceição é celebrada aqui (com feriado Nacional) no dia 8 de Dezembro. Poderá ler sobre este assunto em dois posts por mim publicados com o título «Nossa Senhora da Conceição - Padroeira de Portugal», um publicado em 8 de Dezembro de 2007, o outro na mesma data, mas em 2008.

Grata pela sua visita e interesse.

Saudações cordiais.

Soledade Martinho Costa


De Antonio Emilio da Costa a 3 de Maio de 2011 às 02:30
Soledade, muito legal este blog e esta matéria sobre o culto à Santa Cruz, no dia 3 de maio. É uma joia preciosa, tanto pela informação que nos transmite quanto pelo prazer da leitura que nos proporciona. Nos faz viajar no tempo e na cultura. Parabéns!

Cheguei até seu site pesquisando sobre o tema, para uma nota no almanaque Tencões & terentenas, cujo alvo é o resgate e a preservação da cultura na cidade colonial de São João del-Rei (Minas Gerais / Brasil)

O endereço do tema postado no almanaque é http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/05/dia-de-santa-cruz-pode-ter-mais-cor-em.html. Tem afinidade e é uma visão brasileira, mineira, são-joanense da tradição cultural que você tão bem nos esclarece.

Obrigado e um abraço cordial.

Emilio.


De sarrabal a 6 de Maio de 2011 às 23:10
António Emílio da Costa:

Curiosamente, temos o mesmo apelido! Grata pelas suas palavras tão simpáticas em relação ao meu trabalho. Que o texto lhe sirva para o que pretende. Irei pesquisar o almanaque com muito empenho. Bom trabalho também para si!

Saudações cordiais

Soledade Martinho Costa


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