Quinta-feira, 1 de Maio de 2008

PRIMEIRO DE MAIO - «MAIOS» E «MAIAS» OU O ELOGIO DAS GIESTAS

Giesta.
 
Muitas das remotas celebrações que continuam a ter lugar entre nós, ligadas ao primeiro dia de Maio, a apresentar um cunho marcadamente rural, terão como origem antigos ritos e cultos agrários, praticados pelos nossos antepassados, com o objectivo de assinalar o final do Inverno e a chegada da Primavera.
 
Minho.
 
Além das consagrações florais representadas por pequenos ramos de giesta, colocados na noite de 30 de Abril para 1 de Maio, nas janelas e portas das casas – principalmente nas fechaduras –, nos currais, portões, cancelas, carros de lavoura e até nos animais, vamos encontrar, neste dia, outras práticas mágico-profilácticas e supersticiosas que o povo continua a manter (bebidas e manjares cerimoniais), tendo por objectivo a sublimação e erradicação do «Maio», igualmente chamado o «carrapato» ou o «burro», identificado com o mal e a doença – mascarando, assim, discretamente, a personificação do nome temido: o demónio.
 
 
A identificação do Maio com o burro, poderá, eventualmente e por sobreposição de conceitos, representar o tributo, designado «cavalo de Maio», pago na Idade Média, no dia 1 de Maio, por todos aqueles «que não possuíam um cavalo em boas condições para a guerra».
 
       
Por outro lado, «burro», é também o nome que se dá em certas localidades de Trás-os-Montes a uma espécie de aranha, popularmente designada por «arranhola», bichinho que ataca as palheiras. Por isso se dizia em Bragança que se deviam colocar as «maias» – neste caso simbolizadas não por flores, mas por castanhas – nos currais e nos celeiros.
 
Porto.
 
Resquícios de ritos pagãos perfilhados pela Igreja, umas vezes a lembrar antiquíssimos cultos agrários, outras de significado menos preciso, o certo é que continuamos a observar nesta data a praxe de se colocarem cruzes floridas, feitas de cana ou madeira, nos campos de linho, de centeio e de trigo, dizendo-se em Nisa «que se vai pôr a cruz no pão».
 
 
Antigamente, até as próprias crianças, os «maios» e as «maias» eram, neste dia – a norte, rapazes, a sul raparigas –, vestidas com flores e adornadas com objectos de oiro. Costume que, segundo parece, se mantém em certas localidades do Sul, onde se diz «ir enfeitar a «maia». Praxe idêntica registava-se, pelo menos, em França e em Inglaterra.
 
Taveiro, Coimbra.
 
Com efeito, vários povos e países celebram o primeiro de Maio – que se apresenta com carácter universal –, ritualizando praxes semelhantes às nossas, a lembrar remotíssimos cultos agrários ou festas solares, onde se revelam origens de uma comunidade predominantemente pastoril.
 
As «maias» chegaram mesmo a ser «proibidas temporariamente em Lisboa, por carta régia, em 1402, e substituídas por «procissões muito devotas», visando, este impedimento, proteger a religião cristã». As celebrações do primeiro de Maio «vistas como rituais pagãos» foram avaliadas por D. João I, numa carta de 1385, «como um costume diabólico e um crime de idolatria».
 
Este e outros rituais cíclicos do calendário aparecem, por vezes, associados às Florais, festas em louvor de Flora, deusa das flores e dos jardins e mãe da Primavera, realizadas em Roma nos dias 1, 2 e 3 de Maio.
 
«Coroa das maias», Vila Verde, Monte Gordo, Algarve.
 
«Coroa das maias», Vila Verde, Monte Gordo, Algarve.
 
Outra das tradições desta data consistia na «coroa das maias» (feita, por vezes, com flores de papel e enfeitada com laços e fitas de cores), que os rapazes depunham à porta das raparigas tendo, como significado, uma declaração amorosa. Com a mesma intenção, no Alto Alentejo, havia o uso de «deitar a maia», ou seja, de os rapazes atirarem um ramalhete de flores pelas aberturas das casas das namoradas, como testemunho amoroso.
 
O costume, praticamente caído em desuso, ainda hoje é cumprido pelos rapazes em Vila Nova de Anços (Soure, Beira Litoral), onde, no dia 1 de Maio, as raparigas, pela manhã, deparam com ramos de flores, as «maias», junto às portas das suas habitações.
 
 Albufeira, Algarve.
 
Os «maios», na configuração de bonecos vestidos ao gosto de cada um, continuam a encontrar-de um pouco por todo o País, embora mais acentuadamente no Sul.
 
Montenegro, Faro, Algarve.
 
Com destaque para  Quatrim (Olhão, Algarve), sendo os «maios» confeccionados, regra geral, pelas pessoas mais idosas da terra. Os bonecos representam pastores, cantoneiros, lavadeiras, entre outras profissões, retratando tradições e ofícios antigos e mesmo figurações actuais.
  
Quatrim, Olhão, Algarve.
 
O mesmo costume ocorre por quase todas as freguesias de algumas das ilhas dos Açores: São Miguel, São Jorge, Graciosa, Terceira e Santa Maria.
 
Santa Maria, Açores.
 
Nas ruas, à porta das casas, sobre os muros, no cimo das árvores, nos jardins, colocados nos carros e noutros locais – por vezes em encenações cuidadas e imaginativas –, podemos apreciar os populares e divertidos «maios», sentados, deitados ou de pé, a marcar a tradição do dia 1 de Maio em solo Açoriano.
 
Santa Maria, Açores.
 
Nas festas anuais de Monsanto (Idanha-a-Nova), realizadas no primeiro domingo a seguir ao dia 3 de Maio, as «maias» chamadas ali também «marafonas», representam um símbolo local e elemento fundamental da festa. Confeccionadas em pano por mãos femininas, expressamente para esta romaria (Festa de Santa Cruz ou do Castelo), não possuem rosto desenhado, mas antes uma almofadinha branca que lhes serve de cara. Vestem de cores coloridas, com um pequenino lenço na cabeça e laço de seda atado à cintura. As raparigas, ao voltarem da romaria, têm por antiquíssimo costume colocar as «marafonas» sobre as camas, para «proteger as casas dos raios quando faz trovoada».
 
É Monsanto, igual a Mundo Santo ou a Monte Santo, a lembrar, quem sabe, o monte Olimpo, a morada dos deuses, onde reinou, talvez, a deusa ou ninfa Maia, protectora das trovoadas, que as «marafonas» propiciatórias, à sua semelhança, arrastam para longe, a «livrar do raio», após terem dormido o sono da tradição na cama das raparigas.
 
 
Soledade Martinho Costa
 
                                        «Marafona» 
  
In “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol.IV
 
Ed. Círculo de Leitores
publicado por sarrabal às 12:02
link do post | comentar | favorito
|
1 comentário:
De Ermelinda a 6 de Maio de 2008 às 19:49
O Sarrabal é um bom blog. Eu gosto muito do Sarrabal. Tomara que todos os blogs da nete fossem como o Sarrabal. O Sarrabal é laranja. O laranja é uma boa cor. A minha tia Esperança gostava muito do cor de laranja. Deus tenha em paz a sua alma. Gostava que falasse de música no seu blog do Sarrabal. Os meus interpretes favoritos são o Joaquim Bastos, e a Manuela Santos Silva, esses grandes senhores. Também gosto de música popular brasileira. Se o Sarrabal falasse de música era o melhor blog do mundo.


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Outubro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


.posts recentes

. CALENDÁRIO - OUTUBRO

. 1 DE OUTUBRO - DIA MUNDIA...

. «O NOME DOS POEMAS»

. HISTORINHA - O MOCHO E A ...

. A CONTRACAPA DE «O NOME D...

. O MEU NOVO LIVRO «O NOME ...

. A VOZ DO VENTO CHAMA PELO...

. ALGUMA COISA ACONTECE

. HISTORINHA - A TOUPEIRA E...

. CALENDÁRIO - AGOSTO

. LEMBRAR AMÁLIA

. PARABÉNS SARRABAL - E VÃO...

. CERTEZA

. SÃO JOÃO - O SOL E AS PLA...

. PORTUGAL A ARDER - O FOGO...

. HISTORINHA - A ABELHA E O...

. ALGUÉM SE LEMBRA?

. SANTO ANTÓNIO - AS MARCHA...

. CANTO DO VENTO

. ZECA AFONSO

.arquivos

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

.links

.Contador

conter12
blogs SAPO