Quinta-feira, 3 de Abril de 2008

ABRE-LATAS - É AQUI QUE SE MORRE?

 
A minha amiga chama-se Maria Augusta. Nasceu e vive em Alverca do Ribatejo. O hospital que lhe calha em rifa é, por conseguinte, e para azar dela, o de Vila Franca de Xira.
 
O que vou relatar – e que gostaria de ter publicado aqui, ontem, dia 2 de Abril – passou-se há umas três semanas, sabendo eu do caso pela boca da própria, precisamente ontem. Por casualidade, tomei conhecimento da reportagem ou notícia (não li) também ontem publicada no “24 Horas” versando as “anomalias” verificadas no hospital de Vila Franca de Xira. Casualidade ainda o post de um outro blogue que nos conta um traumático episódio passado no mesmo hospital.
 
Voltando à minha amiga, sentiu-se mal: falta de ar, extremo cansaço, opressão no peito. O marido meteu-a no carro e ei-los a caminho do Hospital de Vila Franca de Xira. Chegaram às urgências às 16 horas e 30 minutos. Maria Augusta foi atendida por um médico, que apenas sabe chamar-se Luís e ser deficiente de uma das mãos. Ouviu-lhe as queixas e, mesmo ali, tirou-lhe o sangue e providenciou um electrocardiograma.
«A senhora traz acompanhante?», perguntou. «Sim, o meu marido», respondeu a custo a minha amiga. «Então, vá para a sala de espera». Foram as ordens secas do clínico.
 
Pois é. “Sala de Espera”. Nunca um nome assentou tão bem numa sala!
Maria Augusta e o marido viram o tempo passar. Eram 11 horas da noite e o marido dirigiu-se às Informações. O conselho que lhe deram foi que Maria Augusta «fosse entrando, para ver se descobria o médico que a tinha assistido». Seguindo o conselho, a minha amiga avançou, a sentir-se cada vez pior. Acercou-se de um médico que tinha feito paragem por ali, a conversar com uma colega, e perguntou pelo tal dr.Luís. Que não sabia, respondeu, mas que aguardasse até o colega aparecer. «O melhor é sentar-se um pouco», sugeriu. Maria Augusta sentou-se. Mas não aqueceu o lugar. O mesmo médico solicita: «Olhe, se não se importa, sente-se antes ali», e apontou, sabe-se lá porquê, outra cadeira. Mas também desta vez o médico achou que a minha amiga não estaria na cadeira certa: «Oiça, pode sentar-se antes aqui?», e nova cadeira foi apontada pelo médico. Maria Augusta lembrou-se do “jogo das cadeiras”, em versão diferente, mas lá voltou a mudar de lugar. Por esta altura, eis que avista o médico Luís. Daí à pergunta, foram uns passos (vacilantes, é certo): «Então, doutor, estou aqui há tantas horas, tão mal e sem saber de nada…», queixou-se. A resposta foi cortante, desabrida, arrogante: «A senhora não tem nada. Pode ir embora». A minha amiga ainda arriscou um tímido: «Mas, doutor…». De nada lhe serviu. A resposta veio, repetida, no mesmo tom.
 
A coisa não era bonita se ficasse por aqui. Mas ficou ainda mais feia. Quando uma outra médica se acercou e apontando com o polegar para a minha amiga, deixa sair este mimo: «Esta, é daquelas que anda nos consultórios particulares e quando não tem dinheiro vem ao hospital»!
Bom, só vos digo: ainda bem que a doente era a minha amiga. Olha se calha ser eu?!
 
Indignada, mas sem dizer palavra – não teve energia para tanto – a minha amiga acabou dentro do carro com o marido a ligar pelo telemóvel para o hospital Inglês. Era tarde, mas o médico cardiologista esperou que chegassem a Lisboa. Observada, novo electrocardiograma e o resultado foi «um complicado e grave problema de coração». Veio já medicada e com exames marcados, que fará de imediato.
 
Maria Augusta: ainda bem minha amiga, que tens possibilidades económicas para seres atendida em consultórios e hospitais particulares. Não é «quando te falta o dinheiro que recorres ao hospital de Vila Franca de Xira». A “outra” desconhece a tua conta bancária. Daí, que a impertinência não tenha passado de «um erro médico»! No entanto, deixo uma pergunta dirigida ao director do citado hospital: são mesmo médicos a exercer, aí, no hospital que dirige? Acredito que haja excepções no comportamento dos seus clínicos, mas a maioria deixa muito a desejar, sabia?
 
Costumo dizer que tudo na vida corria melhor se as pessoas fossem mais solidárias, simpáticas, competentes, humanas. Muito daquilo que se passa no nosso país, do que se critica, que nos confrange, atemoriza, revolta e indigna, nem sempre é culpa dos ministérios, dos ministros, do(s) governo(s). É, também, o espelho daquilo que somos. Em relação ao nosso semelhante. Ao nosso comportamento para com os outros. Será que os culpados, afinal, somos nós próprios? Não tenho dúvidas de que parte das nossas preocupações, enquanto sociedade, resulta dos ventos que semeamos.
 
Não sei se a história é recente, mas foi-me contada por pessoa credível. No badaladíssimo hospital de Vila Franca de Xira, encontrava-se, há horas, na sala de espera, um indivíduo de etnia cigana com um familiar doente. Não encontrou outra saída, coitado: às tantas, saca da pistola e ei-lo por ali dentro. Não me perguntem se foi atendido. Todos temos a certeza que sim.
 
P.S. Prezadíssima amiga Rosinha (presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira): há muito que não nos encontramos. Mas é triste ser “obrigada” a escrever este post.
 
Antes do tal hospital novo (?), porque não “reciclar” o velho? Mais exactamente, corrigir e melhorar o aspecto humano ou humanitário, a formação que deve presidir aos clínicos que nele trabalham com o dever de servir aqueles que dele necessitam, se não já com competência médica, pelo menos, com o respeito devido a qualquer pessoa que procure os serviços do hospital de Vila Franca de Xira?
                                                                 
Soledade Martinho Costa
                           
 
      
 
publicado por sarrabal às 18:11
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9 comentários:
De Eduardo Freitas a 4 de Abril de 2008 às 02:50
A rede de hospitais no Brasil também tem cada história triste. Preciso voltar a pagar um plano particular de saúde urgente. Gostaria de não arriscar minha vida na rede pública hospitalar de São Paulo onde moro. Abs Sol!


De sarrabal a 4 de Abril de 2008 às 16:47
Edu:

Como digo no texto, sempre há excepões. Pena serem poucas.
Abraço da Sol


De sarrabal a 4 de Abril de 2008 às 16:55
É claro que queria dizer «excepções»!
Outro abraço da Sol

P.S. Dois amigos meus brasileiros voltaram ontem para o Rio de Janeiro. Estiveram em Portugal (Algarve) durante quatro anos. Deixaram-me saudades, mas vamos continuar com a nossa amizade utilizando o Sarrabal ou o email.


De saltapocinhas a 4 de Abril de 2008 às 23:20
vi o teu comentário na "cabra de serviço" e, quandovi o nome... vim logo aqui.
só para te dizer que gosto muito da tua escrita, sobretudo os poemas para os mais pequeninos!


De sarrabal a 5 de Abril de 2008 às 01:08
Saltapocinhas:
Grata pela visita. Qualquer autor (também) de literatura para crianças, fica feliz por o seu trabalho agradar. Neste caso, os meus livros de poesia para os mais novos. É nossa obrigação fomentar o gosto pela leitura - principalmente pela Poesia. Se reconheceste o meu nome na "cabra de serviço", não deves ser criança, mas adulto ou adulta, acertei?
Volta sempre!
Abraço da Soledade Martinho Costa


De sarrabal a 5 de Abril de 2008 às 02:05
Como não me lembrei de perguntar, pergunto agora:
Saltapocinhas é nome de blogue? Se é, gostaria de conhecê-lo. Dás-me informação?
Sol


De sarrabal a 5 de Abril de 2008 às 02:14
Já é demasiado tarde, mas dei contigo clicando em saltapocinhas. Fui ler o perfil. Bem detalhado. Também partilho alguns dos teus gostos. És, então, professora? Belo blogue! Li o post do Goucha. Não conheço o assunto da "fita-cola". Vou tentar saber. Podes contar com as minhas visitas.
Boa noite!
Sol


De rvn a 5 de Abril de 2008 às 12:26
caríssima,
logo no dia em que deixou o seu comentário vim aqui ler a pormenorização do que eu só sabia de ouvido. Incrível, não é? Esperemos que o seu recado à presidente da Câmara seja ouvido pela própria.
Cumprimentos


De sarrabal a 5 de Abril de 2008 às 14:04
RVN:
Como vê, é o que se passa lá pelo hospital «da minha terra» - para não falar dos outros. Mas há mais histórias aterradoras de que tenho conhecimento.
Vou lendo os seus posts e alguns - salvo a desgraça - são tão opotunos como engraçados.
Se a Rosinha ler, não tenha ilusões: tudo vai permanecer igual.
Tenho um outro caso, passado comigo, aqui nas Areias de São João, no Algarve, onde continuo por os tempos mais chegados, que vou colocar em post por estes dias no Sarrabal. Posso adiantar que a Conceição Lino, da SIC, que conheço desde criança, vem aqui fazer uma reportagem durante a próxima semana. Esteja atento, que merece a pena.
Abraço da Sol


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