Domingo, 23 de Março de 2008

OS OVOS E A TRADIÇÃO DA PÁSCOA

 
Associado à doçaria tradicional da Páscoa, o ovo – símbolo da fecundidade e da abundância – representará a eventual homenagem à nidificação, verificada nesta época do ano, sem deixar de personificar o começo da vida: a casca – a Terra; a parte interior – o ar; a clara – a água e a gema – o fogo.  Num sentido mais religioso, poderá estar relacionado com «Cristo que venceu a Morte saindo do túmulo».


Proibidos no século IV pela Igreja Católica durante a Quaresma – proibição que se manteve ao longo da Idade Média –, eram benzidos pelos papas na Sexta-Feira de Paixão e vendidos no Sábado Santo. Segundo a tradição, esta proibição terá levado as pessoas, sem saber o que fazer com eles, a utilizá-los na confecção de bolos destinados a serem oferecidos às crianças na quadra pascal. Assim terá nascido o folar.

 

Folar de Páscoa.

 
Em várias localidades do nosso país, durante o «compasso» ou «visita pascal», costumavam ser oferecidos ao padre meia dúzia ou mais de ovos, de acordo com as possibilidades do ofertante, a que se dava o nome de «ofertas brancas». O padre oferecia, por sua vez, alguns desses ovos aos acompanhantes ou às crianças que o seguiam, constituindo os restantes a sua parte.


Em documentos escritos, referentes aos arredores de Coimbra, faz-se menção a «ser o próprio prior, no Domingo de Páscoa, acompanhado dos seus raçoeiros (aqueles que recebem), a pedir ovos aos paroquianos, levando uma cruz e água benta». Nos arredores de Braga, após o «compasso», organizava-se uma procissão conhecida por Procissão dos Ovos.

 

A primeira referência aos ovos pintados, lê-se na obra que relata a vida de São Luís, rei de França, quando o rei e os seus cavaleiros, cativos em 1250 na Cruzada do Egipto, foram libertos pelos seus inimigos, que ofereceram ao rei, além de carne e queijo, ovos cozidos, com a casca pintada de diversas cores, para testemunhar a sua honra em oferecê-los, uma vez que o monarca ganhara um prestígio incomparável entre os muçulmanos, que lhe chamavam «o Sultão Justo». 
     

 
No século XVIII surgiu a moda de os colorir e decorar com palavras ou desenhos, costume que terá tido origem em França, Alemanha e Suiça.

 

 
Para isso, cozem-se os ovos, adoptando, para lhes tingir a casca, o processo tradicional da infusão feita com casca de cebola ou um pouco de vinagre para lhes dar um tom mais escuro.

  

A beterraba utiliza-se para a cor vermelha.

 

Erva-Moleirinha

 

O sumo de espinafre e certas plantas como o trevo, a hera e a erva-moleirinha para o verde.

 

As flores como o lírio roxo para o anil

 

Açafrão

 

A flor do tojo, o açafrão, a cenoura ou as cascas de laranja ou de limão para o amarelo.

 

Olmo

 

As cascas de olmo, de nozes verdes ou o café para o castanho.

 

   

Processos de tinturaria artesanal que, aos poucos, se foram perdendo, para dar lugar às tintas e anilinas próprias para esse efeito.

 

 
Em casos especiais, em que a imaginação pessoal e o gosto de cada um se sobrepõem à tradição, os ovos podem apresentar-se na sua cor natural, mas pintados com motivos diversos ou ainda decorados com colagens e certos enfeites.

 

  
Os ovos pintados de vermelho – cor do fogo e do sangue e símbolo do amor e do martírio, que incita o amor a Deus – representam, conforme a tradição, «Cristo Ressuscitado, vestido de branco, com um manto vermelho sobre os ombros».

 

Igreja de São Miguel de Travassô, Águeda

 
Outrora, os ovos da Páscoa pintados eram dependurados, acreditando-se que «tinham a virtude de livrar as pessoas da mordidela das cobras». Sob a influência de hábitos vindos de outros países, começa a ser habitual entre nós o costume de se esconderem os ovos pintados ou de chocolate – os «coelhinhos da Páscoa» – em casa ou no jardim, para que as crianças os possam procurar.


Soledade Martinho Costa
 

 
In  “Festas e Tradições Portuguesas”,Vol.III
Ed. Círculo de Leitores


 

publicado por sarrabal às 17:49
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2 comentários:
De Eduardo Freitas a 24 de Março de 2008 às 02:17
Boa Pascoa amiga! Se quiser, pode escolher um para usar caso agrade ou pode mandar o texto por e-mail, leio e crio um desenho. Tenho trabalhado muito, mas os blogues não vão parar, me dão muita satisfação!


De Deolinda a 14 de Maio de 2009 às 01:58
Belissima informação1Muito grata.


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