Quinta-feira, 20 de Março de 2008

O «GALO DAS TREVAS» E O TRÍDUO PASCAL

Os ofícios celebrados antigamente ao princípio da noite de Quarta, Quinta e Sexta-Feira da Semana Santa eram designados por «ofícios das trevas» – em que a luz não entra nos templos. Esta denominação, conhecida desde o século XII, deriva, talvez, do costume introduzido nas Gálias (nome antigo de regiões protegidas pelos Romanos), de apagar, progressivamente, as velas nos lugares de culto, de forma a terminar o ofício na escuridão total.


A prática manteve-se até à reforma litúrgica, quando os ofícios passaram a celebrar-se na manhã destes dias, desaparecendo, então, oficialmente, o nome de «trevas». Apesar disso, a designação continua ainda hoje a ser popularmente empregue. Daí, nestes mesmos dias, fazer parte do antigo ritual litúrgico, colocar-se nas igrejas, perto do altar, o «candeeiro das trevas», de madeira, em forma de triângulo, com treze velas, uma maior do que as restantes (seis de cada lado, de cera amarela, e uma no centro, de cera branca) – a remeter-nos para Jesus Cristo e os apóstolos.


Consistia o ritual, caído entretanto em desuso, que entre as «matinas» (primeira parte do ofício divino rezado antes de romper a manhã, ou logo após a meia-noite) e as «laudes» (salmos de David, em louvor de Deus, que se seguem às «matinas»), se acendessem as treze velas do tocheiro, apagadas depois, ora de um lado, ora do outro do candeeiro, uma por cada um dos salmos que se cantava. No último salmo (Miserere), a vela maior, colocada no centro do candeeiro, era retirada e posta, escondida, ao lado da Epístola (lado direito do altar, à direita do celebrante). Ao terminar o ofício, a vela voltava a ser colocada no «candeeiro das trevas», representando este ritual «Cristo, cuja divindade esteve oculta durante a Paixão». E só depois a chama da vela era extinta.


No Minho davam a esta vela – a mais alta do candeeiro de três bicos, representando a Santíssima Trindade – o nome de «galo das trevas», ou «vela Maria». É possível que a primeira designação se refira às palavras que Jesus disse a Pedro no final da Sagrada Ceia: «Antes que o galo cante negar-Me-às três vezes» (sendo certo que só depois de o galo ter cantado «se fez luz em Pedro»). A segunda poderá significar a Mãe de Cristo, como imagem da derradeira esperança, da última luz que se apaga, perante o filho agonizante. Na Beira Alta designavam o tocheiro por «candeeiro das trévoas».


Igrejas há que guardam (e utilizam) ainda o «candeeiro das trevas» como relíquia a preservar, enquanto noutras o seu destino terá sido o lume ou outro fim qualquer, uma vez que não se sabe já do seu paradeiro. Caso exemplar é o da Sé de Braga, onde este cerimonial litúrgico nunca deixou de realizar-se.     

               

                                                                              «Pietá», Robert Hupka

    

TRÍDUO PASCAL

 


Expressa um espaço de tempo considerado dos mais importantes de todo o ano litúrgico e que abrange, exactamente, os três últimos dias da Semana Maior: Quinta-Feira Santa, Sexta-Feira Santa e Sábado Santo. As celebrações eclesiásticas iniciam-se na Quinta-Feira Santa – também chamada Dia do Perdão, da Indulgência ou das Endoenças – com a Missa da Ceia do Senhor (à tarde ou à noite), onde se recordam os derradeiros instantes da vida de Cristo.
 

               Missa da Ceia do Senhor, Cenáculo, Jerusalém

 

A última ceia com os apóstolos, considerada um dos principais momentos, assinala a instituição da Eucaristia, ou seja, a primeira e única missa celebrada por Jesus Cristo na presença dos discípulos, com o pedido de que a ministrassem e difundissem depois, em Sua memória, como lembrança da ceia conjunta. 
  

«Última Ceia», Leonardo de Vinci, Convento de Santa Maria delle Grazie, Milão

   

«E Jesus tomou o pão e disse: “Isto é o meu corpo que será entregue por vós; fazei isto em memória de Mim.” E tomou também o cálice dizendo: “Este cálice é a Nova Aliança do Meu sangue; todas as vezes que beberdes dele, fazei-o em memória de Mim.”» 
  

 

As comemorações litúrgicas prosseguem na Sexta-Feira Santa – dia do aniversário da morte de Cristo, em que não há missa – com a celebração da Paixão do Senhor (às três horas da tarde sempre que possível), que inclui três significativos momentos: a Liturgia da Palavra (ou Leitura da Paixão do Senhor) a Adoração da Cruz, o mais relevante dos três, que significa a redenção da humanidade operada por Cristo na Cruz e a Comunhão.

  

 

Missa da Adoração da Cruz, igreja matriz de Monchique, Algarve


O tríduo termina no Sábado Santo com a Vigília Pascal, efectuada à noite, e que finda sempre antes de romper a manhã. Neste dia também não se realiza missa, uma vez que ele se constitui como o «dia do silêncio», em que a Igreja permanece de luto, calada, junto ao túmulo do Senhor, após a longa noite de interrogatórios, sofrimento e morte de Cristo de Sexta-Feira Santa para Sábado Maior.

 

                              «As Três Marias»

 

Tendo Jesus ressuscitado na noite de sábado para domingo, esta vigília é reconhecida como «a mãe de todas as santas vigílias, na qual a Igreja espera a Ressurreição de Cristo e a celebra nos sacramentos». Considera-se, pois, incorrecto dar ao sábado o nome de sábado de Aleluia. Repare-se que durante a Quaresma a Igreja deixa de pronunciar a palavra «aleluia», para só voltar a proferi-la a meio da Missa da Vigília Pascal, no momento da Glória – versículo que se reza ou canta após os salmos, que significa Glória ao Pai –, altura em que se faz ouvir o repicar dos sinos em todas as igrejas e em que no seu interior as campainhas soam transportadas, por vezes, pela mão das crianças do coro, em voltas rituais ao redor do espaço litúrgico.
 

                  Capela da Relva, Monteiras, Lamego

 

O «aleluia» continuará a ouvir-se ainda, falado ou cantado de forma especial, isto é, de um modo particularmente exultante e festivo, durante o período que medeia a Ressurreição e o Pentecostes. Registe-se, por isso, o costume que tem lugar na Igreja Matriz de Idanha-a-Nova – e noutros pontos do País, para além da Beira Baixa –, de os rapazes dentro do templo, quando o sino toca as «aleluias», agitarem ramos no ar, utilizarem chocalhos e apitos e baterem com os pés e as mãos fazendo o maior barulho possível, associando-se assim à alegria da Ressurreição de Cristo.
 

        «Cantar das Alvíssaras», igreja matriz de Idanha-a-Nova

 

As mulheres, por seu turno, ao som do adufe cantam as «alvíssaras» – cantares tradicionais festivos ou regionais, por vezes com quadras improvisadas, neste caso alusivas à Ressurreição. Forma-se depois um cortejo, com centenas de participantes, que percorre as ruas da vila, sempre no meio da mais alegre e contagiante barulheira de apitos e chocalhos, acompanhados pela banda filarmónica.

 

                        «Cortejo de Aleluia», Idanha-a-Nova

 

O ritual termina com a «apanha das amêndoas», arremessadas pelo padre, oferecidas em sinal festivo à população que se reúne no adro da igreja.

 

 Soledade Martinho Costa
                                    


In “Festas e Tradições Portuguesas, Vol. III
Ed. Círculo de Leitores

  

publicado por sarrabal às 21:29
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Dezembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


.posts recentes

. 8 DE DEZEMBRO - NOSSA SEN...

. MEDITERRÂNICA

. SAUDADE

. CALENDÁRIO - OUTUBRO

. 1 DE OUTUBRO - DIA MUNDIA...

. «O NOME DOS POEMAS»

. HISTORINHA - O MOCHO E A ...

. A CONTRACAPA DE «O NOME D...

. O MEU NOVO LIVRO «O NOME ...

. A VOZ DO VENTO CHAMA PELO...

. ALGUMA COISA ACONTECE

. HISTORINHA - A TOUPEIRA E...

. CALENDÁRIO - AGOSTO

. LEMBRAR AMÁLIA

. PARABÉNS SARRABAL - E VÃO...

. CERTEZA

. SÃO JOÃO - O SOL E AS PLA...

. PORTUGAL A ARDER - O FOGO...

. HISTORINHA - A ABELHA E O...

. ALGUÉM SE LEMBRA?

.arquivos

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

.links

.Contador

conter12
blogs SAPO