Quinta-feira, 9 de Agosto de 2007

UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM : O HIBISCO

 
 
A manhã acordou há pouco. Os pássaros, ainda adormecidos nos ramos das árvores, só agora começam a dar conta de que o dia chegou. Ouvem-se os primeiros pios, os primeiros trilos. São os papa-figos, as cotovias, os milharocos, os pintarroxos, os tordos e os pintassilgos, de árvore para árvore, numa saudação de bons vizinhos.
 
Por entre a folhagem, espreitam o azul do céu. Tão azul a manhã! A sacudir o sono, esticam as pernitas, espreguiçam as asas. E aí começam eles, num chilreio pegado, a contar dos projectos para mais um dia a viver: dos namoros, dos ninhos, dos filhos, da fartura de grãos por esses campos fora…Lembram-se, então, que são horas de abalada em busca do alimento. E não têm de ralar-se. Nesta altura do ano é encher o papinho até mais não!
 
Um hibisco destaca-se lá ao fundo, na empena de uma casa caiada de branco. Está carregado de flores, e empertiga-se, vestido de cor-de-rosa-vivo nas pétalas dobradas. Alto, tão alto, que as últimas flores quase tocam o recorte vermelho do telhado. Uma romãzeira contempla-o do outro lado da casa:
- São lindas as flores do hibisco! – murmura ela, senhora de um reino perdido na lonjura da Ásia.
 
Pé ante pé, a manhã desliza, como se não quisesse fazer-se notada. A romãzeira, essa, apercebe-se de que nem um arzinho sopra a tocar ao de leve a coroa ainda pequena das suas romãs.
 
O hibisco espera. Sim, espera que a mão de quem mora na casa deite junto da sua raiz a água de que necessita para alimentar-se. E de manhã é a hora mais indicada, enquanto a terra não está ainda quente do calor do Sol. Embora, à tardinha, depois de o Sol abalar, uma rega saiba sempre bem a qualquer planta, para que se revigore e tenha uma noite fresca e descansada.
 
A entreter a demora, o hibisco põe-se a contar quantas flores enfeitam os seus ramos. São tantas, tantas, que lhe perde a conta. Desiste e começa a contar os botões ainda por abrir. Ele sabe que ao cair da tarde deixará de estar assim, tão florido. O rosa-vivo das suas flores abertas durante a madrugada ficará, então, mais desmaiado. Depois, quando a noite vier, cada uma delas enrugará aos poucos a seda das pétalas, para murchar, roxa de saudades.
 
O fim da tarde desliza, cor de anil. Tão sereno e tépido desliza, que a noite se adivinha na sua capa de veludo negro salpicada de estrelas. Como se a senhora Lua, cabeça redonda a espreitar lá do céu, vestisse de gala para ir à festa.
 

 

- Duram tão pouco as flores do hibisco… – lamenta a romãzeira, enquanto o Sol se põe no horizonte.
- Não tenhas pena. De madrugada outras hão-de florir! – Respondem-lhe as romãs, a crescer, dentro das faces rosadas.
 
Soledade Martinho Costa
 
  
Do livro “Histórias que o Verão me Contou”
(Ed. Publicações Europa-América)
publicado por sarrabal às 15:31
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