Sábado, 5 de Janeiro de 2008

ÚLTIMA CARTA A LUÍZ PACHECO

 
Caríssimo Luíz Pacheco:
 
Acabei de ouvir na TV a notícia do seu falecimento. E fiquei triste. Uma tristeza calma. Pressentida de há muito. De há muito temida. Por isso, conformada.
E logo escolheu esta altura para nos deixar? Em que me sinto em falta para consigo?
Publiquei  aqui, no Sarrabal, no dia  6 de Novembro/2007,   a sua foto e o respectivo poema a pensar: “vou telefonar ao Luíz Pacheco”. Mas umas vezes por uma coisa, outras por outra (o lugar-comum de sempre), os dias passaram. Não telefonei. Fica-me esse peso.
Eu sei que teria gostado da foto que escolhi. O poema, esse, já o Luíz o conhecia. Lembra-se do que me escreveu quando o trabalho saiu? Isto:
“Palmela, 1 de Abril, mas sem mentir. Soledade! Veja o que é a glória (a minha): vou ao supermercado e a menina da caixa sorri e diz: - vi o seu retrato…temos ali guardado! Era a Notícias/Magazine – revista de domingo passado. Deixe-me dizer-lhe: gostei daquilo tudo. Mas a Soledade obrigou-me a ir ao dicionário ver que raio era enfiteuses que rimava com deuses. Tenho, tirei aí em 1948 ou 49 a cadeira de História de Portugal na Fac. De Letras de Lisboa. Vaga memória que aquilo se relacionava com alugueres de terras, talvez coisa da lei das sesmarias…”
Falei consigo e disse-lhe que tinha acertado. Eu apenas alarguei a lei às casas e aos quartos alugados (os seus). Foi fácil e rimou. Só para si foram três páginas da revista, com fotos, poema e “pinsamentos”, como você lhe chamava. É natural que a menina da caixa lá do supermercado tenha ficado impressionada. Provavelmente, só o conhecia do saquinho das compras…
Fiquei em falta para consigo também pelo “ritual” que mantinhamos sobre o “Bolo-rei”. Comi uma fatia, mas não me soube a bolo. Soube-me a tristeza. A saudade. De si. De todos os que fazem parte dessa já longa lista de nomes amigos que nos trazem à memória essa ternura estranha vestida de distância. Mas também o privilégio de podermos recordar momentos passados, bons momentos, fraternos, alegres, cúmplices. É certo que não conseguimos contrariar a vida quando a morte resolve fazer-nos a sua inexorável visita. Mas podemos recordar depois aquilo que nem sempre o tempo apaga. É a nossa vitória sobre a morte. É o nosso triunfo sobre a saudade.
Encontrámo-nos pela primeira vez, à noite, numa daquelas “sessões de esclarecimento” (em cima do 25 de Abril) na Soc. Nacional de Belas Artes, lembra-se? Mas já nos tinhamos visto por aí (Lisboa) uma ou outra vez. Eu sabia quem você era. Você, pouco ou nada sabia de mim. Depois, aconteceu aquele encontro na Associação Portuguesa de Escritores, por esse tempo na Rua do Loreto. O Luíz pediu-me um livro meu para ler. Entreguei-lho em mão (nessa altura o único publicado). Prometeu devolver-mo. E cumpriu. Quando me entregou o livro, não lhe perguntei a sua opinião. O Luíz também não se pronunciou. Disse-me apenas: “Permite-me que lhe dê dois beijos?”. Permiti. Foram dois beijos, um em cada face. Como testemunhas tivemos José Gomes Ferreira, à época presidente da APE, e a risonha Maria Seizette, secretária (até hoje) da Associação.
Estávamos no início de 1975. Eu era tão jovem, Luíz Pacheco… E você, feitas as contas, afinal, também bastante novo.
Como sabe, tenho todos os seus livros (mesmo os tais, que só se encontram nos alfarrabistas). E os outros, que foi editando na Contraponto. Em cada um (dos seus) guardo uma carta sua, uma fotografia, um cartão (costumo fazer isso com outros escritores amigos) …Tenho debaixo dos meus olhos o cartão de boas-festas que me enviou o ano passado. Diz assim:
“Porque hoje é um dia muito especial para nós, só para te dizer que…gosto de ti mais que ontem! – Soledade, darling! 29 / XII / 2008”.
Foi um engano seu, eu sei. Por lapso (ou premonição?), antecipou-se na data. Por isso, ao ler agora o cartão, fica-me a vaga sensação de que não nos deu o desgosto de se lembrar de partir. Estas coisas, Luíz, fazem mal ao coração, sabia?
Apesar de me sentir em falta por não ter telefonado no mês de  Novembro, por não ter aparecido a visitá-lo nos últimos tempos (lembro as suas palavras numa fotografia: “esta é a porta por onde tenho esperado, há meses, que a Soledade me apareça. O que é feito de si? V. telefona-me do Algarve, do Bom Velho, de Alverca, mas esquece-se de Palmela”), por me ter esquecido da “tradição” do “Bolo-rei”, aqui estou, a despedir-me de si, Luíz Pacheco. Não com lágrimas (essas estão guardadas), mas com o meu sorriso de sempre. Aquele, especial, que dedico só aos meus amigos.
Não sei se estará no Olimpo (como vaticinei), mas que escolheu a véspera de Dia de Reis para nos dizer adeus, é uma verdade. Daí, entre deuses ou reis, no Olímpo ou no Céu (ou no Purgatório), esteja com quem estiver e onde quer que esteja, aqui em baixo, na Terra, caro Luíz, o seu nome, a sua obra e a sua memória (tão discutidos, tão discursivos, tão “amaldiçoados” quanto louvados), cá ficam, para todos nós e para o conhecimento dos vindouros. No lugar reservado apenas aos eleitos. Aos eternos. Aos que não morrem nunca. Isso lhe garanto eu, meu saudoso amigo.
 
Abraço carinhoso da Soledade Martinho Costa 
 
 
      
publicado por sarrabal às 18:34
link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De rvn a 15 de Fevereiro de 2008 às 20:38
sol,
provavelmente (muito) a melhor prosa (no género) que li a propósito do derradeiro manguito do génio maldito.


De sarrabal a 17 de Fevereiro de 2008 às 18:35
RVN:

As suas palavras fizeram-e sentir feliz, mais por ele do que por mim. O texto foi escrito com o coração. Aliás, é com o coração que escrevo a maior parte das vezes.
Gostei que tivesse vindo até ao Sarrabal. Não quero que tome como "troca de galhardetes", mas tenho muito apreço por aquilo que escreve nos seus "gatos". É sempre com prazer que o leio.
Abraço da Sol!


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Dezembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


.posts recentes

. 8 DE DEZEMBRO - NOSSA SEN...

. MEDITERRÂNICA

. SAUDADE

. CALENDÁRIO - OUTUBRO

. 1 DE OUTUBRO - DIA MUNDIA...

. «O NOME DOS POEMAS»

. HISTORINHA - O MOCHO E A ...

. A CONTRACAPA DE «O NOME D...

. O MEU NOVO LIVRO «O NOME ...

. A VOZ DO VENTO CHAMA PELO...

. ALGUMA COISA ACONTECE

. HISTORINHA - A TOUPEIRA E...

. CALENDÁRIO - AGOSTO

. LEMBRAR AMÁLIA

. PARABÉNS SARRABAL - E VÃO...

. CERTEZA

. SÃO JOÃO - O SOL E AS PLA...

. PORTUGAL A ARDER - O FOGO...

. HISTORINHA - A ABELHA E O...

. ALGUÉM SE LEMBRA?

.arquivos

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

.links

.Contador

conter12
blogs SAPO