Segunda-feira, 31 de Dezembro de 2007

PASSAGEM DO ANO OU NOITE DE SÃO SILVESTRE

Lisboa
 
Falar da noite de 31 de Dezembro é, obrigatoriamente, lembrar praxes, superstições, costumes ligados ao ano que finda e nos permitem, pela sua vertente profiláctica e intercessora, ter esperança no novo ano que começa. Com essa crença, comem-se passas de uva, fazem-se soar apitos, colocam-se na cabeça chapelinhos coloridos, veste-se uma peça de roupa azul, salta-se para cima de uma mesa ou de uma cadeira, bebe-se uma taça de champanhe, deita-se fora um caco velho. Repetem-se, por escrito ou de viva voz, os votos de «boas saídas», «boas entradas», «prosperidades», «saúde», «paz», «felicidade».
 
 
Tudo isto a fazer lembrar remotas sobrevivências de ritos mágico/propiciatórios de purificação, de abundância e de fertilidade, assim como de excomunhão de poderes maléficos ou nocivos.
 
 
Comem-se as tradicionais passas de uva, uma por cada uma das doze badaladas da meia-noite, expressando doze pedidos (um por cada passa), «que serão concretizados, segundo a versão popular, um em cada um dos doze meses do ano que começa», ou atiram-se, nessa noite, três pedras para diante, à medida que se caminha, fazendo ao mesmo tempo um voto por cada uma das pedras atiradas (votos que, parece, serão realizados por todo o ano que chega).
 
 
O costume de se fazer barulho na noite do ano que começa, terá o sentido popular de «enxotar o velho» (o ano que termina), prática seguida noutros países, em que se fazem ainda grandes fogueiras na Noite de Ano Bom para «queimar o ano velho» e se realizam praxes mágicas com o fim de «expulsar as bruxas e os espíritos maus».
 
O hábito, antiquíssimo, de atroar os ares com maior ou menor barulheira, utilizando diversos objectos (latas ou tampas de panelas), poderá ter a sua origem em certos países da Europa e noutros onde se procedia ao ritual «de se bater com um pau (ou mangual) no chão de cultivo durante a noite do último dia do ano e nas noites seguintes», com a intenção de «afugentar os espíritos malignos que prejudicavam a renovação do solo, o revigorar das raízes e o germinar das sementeiras».
 
Também a tradição de «escacar» (partir) loiça já velha constitui uma prática com objectivos mágicos, profilácticos ou propiciatórios, ligados ao sentido de felicidade.
 
 
Nas nossas aldeias, em tempos idos (o mesmo acontecendo noutros países), havia o uso de as mulheres irem guardando, durante o ano, a loiça velha, principalmente loiça de barro (cântaros, tachos, bilhas rachadas, sem asas, sem bico), para ser completamente «escaqueirada» na noite de passagem de ano, juntando-se o povo nas ruas para assistir e participar no ritual – ainda aqui simbolizado pelo acto de «deitar fora o ano velho».
 
 
Outro costume que se conserva em algumas aldeias portuguesas (como na Beira Baixa e Alentejo), consiste em marcar as portas com farinha na Noite de Ano Bom, para «dar sorte». Chamado, popularmente, «o milagre das portas», conta que «um soldado de Herodes terá descoberto a casa onde Jesus se albergava. Por ser de noite lembrou-se de marcar a porta com farinha. De manhã, quando regressou com outros soldados, todas as portas estavam marcadas do mesmo modo, acabando os perseguidores por desistir da busca». Lenda semelhante vamos encontrá-la pela Páscoa, com as portas assinaladas com ramos de giesta.
 
Ribeira, Porto
 
A noite de passagem de ano é festejada entre nós, exuberantemente, um pouco por todo o lado, quer em locais de diversão fechados, quer em amplos espaços públicos, sendo imprescindíveis a música e o fogo-de-artifício. Neste contexto, o destaque vai, sem dúvida, um pouco mais longe: para a ilha da Madeira (Funchal), onde se realizam as grandes Festas do Fim do Ano ou de São Silvestre, a oferecer aos naturais e visitantes (turistas nacionais e estrangeiros) um espectáculo de beleza inesquecível e invulgar. Pela música e cantares tradicionais (os «bailinhos»), mas, sobretudo, pelo deslumbrante fogo-de-artifício, saído de cerca de cinquenta pontos distribuídos ao longo de toda a cidade, deitado sobre a baía, a iluminar a esperança dos homens no novo ano prestes a chegar.
 
 Funchal, Madeira
  
SÃO SILVESTRE – O ISAPÓSTOLO
 
 
São Silvestre, capela de Vila Dianteira, São João de Areias, Santa Comba Dão
 
Eleito papa em 314, a Silvestre I se atribuem diversas inovações no seio da Igreja Católica: o decreto de «Ordenação das datas», que faz do domingo um dia feriado (321); a construção da primitiva Igreja de São Pedro (actual Igreja do Vaticano), sob a contribuição do imperador Constantino Magno (324); a convocação do Primeiro Concílio Ecuménico Universal em Niceia, que reuniu mais de trezentos bispos, com o próprio imperador a presidir em lugar de honra (325); a obrigação do uso da sotaina e o jejum da sexta-feira.
 
Nascido em Roma, moderado e prudente, simples e humano, serviu fiel e apagadamente o imperador Constantino, agindo, por vezes, como um verdadeiro bispo da Igreja, principalmente no Oriente, onde o distinguiam com o nome de Isapóstolo (igual aos Apóstolos).
 
Data do seu pontificado a chamada «Doação Constantiniana», que se traduz na entrega efectuada por Constantino à Igreja, na pessoa de São Silvestre, da Dumus Faustae (Casa de Fausta, nome da esposa do imperador), ou seja, do Palácio Imperial de Latrão (residência papal durante 10 séculos, até João XI). Junto do palácio ergueu-se depois uma sumptuosa basílica de cinco naves, primeiramente dedicada a Cristo Salvador e mais tarde a São João Baptista e São João Evangelista, hoje a Catedral Episcopal de Roma: São João de Latrão, uma das cinco basílicas patriarcais de Roma. Ao mudar-se para as margens do Bósforo, onde inaugurou, em 330, a cidade de Constantinopla (antiga Bizâncio), Constantino, o protector da religião cristã, doaria também à Igreja a própria cidade: a actual cidade de Istambul, capital da Turquia.
 
São Silvestre encontra-se associado à noite da passagem de ano pelo facto da sua morte ter ocorrido no último dia do ano: 31 de Dezembro de 335. Sepultado no cemitério romano de Priscila, os restos mortais de São Silvestre seriam trasladados por decisão do papa Paulo I (757-767) para a igreja erguida em sua memória.
 
Pelo menos até ao final do século XVIII foi uso dar às crianças nascidas neste dia o nome de Silvestre, em homenagem ao santo.
 
Minho 
 
São Silvestre é referido ainda como um dos santos protectores do gado.
 
Soledade Martinho Costa
 
 
In Festas e Tradições Portuguesas, Vol.I e VIII
Ed. Círculo de Leitores

 

publicado por sarrabal às 20:39
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