Domingo, 11 de Novembro de 2007

MAGUSTOS - O LOUVOR DA CASTANHA, DO VINHO E DA ÁGUA-PÉ

 
Consagrado por tradição, à abertura nas adegas do vinho novo e da água-pé, o dia de São Martinho reveste-se, entre nós, país vinícola, de um simbolismo particular e ainda marcadamente pagão. Daí, dizer-se que as festas populares da abertura do vinho novo do mundo pagão grego-romano vieram a ter a sua réplica cristã nas festividades em louvor de São Martinho.
 
" Os borrachos ou o triunfo de Baco", Velasquez
  
Com efeito, por esta data realizavam-se em Roma em honra de Baco (na Grécia, Dioniso), deus do vinho na religião grega e romana, as Grandes Dionisíacas, as Leneias ou Festas dos Lagares e as Antestérias, na altura da prova do vinho novo. Com a mesma finalidade celebravam ainda os Romanos as Lundi Compitales e as Meditrinálias (embora não se conheçam referencias à deusa Mediatrina).
 
Pinhel, Guarda
  
Tanto as Grandes Dionisíacas como as Lundi Compitales integravam nas suas festividades autos populares dramáticos, representados na altura das vindimas – à semelhança dos autos ou dramas populares representados, outrora, nas nossas aldeias nesta mesma data. Em Portugal chegou mesmo a ser proibido «vender o vinho novo antes do São Martinho, sob pena de multa».
 
Antigos toneis de carvalho, Bucelas
  
Dia particularmente festivo, encontra-se associado ao ritual dos «magustos», que se realizam um pouco de norte a sul do País, com maior incidência no Minho, Trás-os-Montes, Beiras, Douro, Porto e Estremadura, reunindo à volta de fogueiras, em celebrações alimentares conjuntas, os apreciadores do vinho, da água-pé e das castanhas.
 
Marmelete, Algarve
  
A tradição, com início logo a partir do dia 1 de Novembro («Magustos dos Santos»), estende-se até ao dia 11 e mesmo após esta data, associada ao final das colheitas e à chegada do Inverno.
 
Castanheiro
  
Mas é em Trás-os-Montes – região de castanheiros – que a castanha se apresenta como alimento de eleição, quer nesta data, quer durante o ano inteiro, tendo chegado, por tempos idos e difíceis, a substituir o pão e a batata, sendo considerada, no século XVII, um dos produtos básicos da alimentação das populações beirãs.
 
 
Colhidas nos meses de Outubro e Novembro, comem-se cruas, fritas, assadas e cozidas, levando, neste caso, o nome de «castanhas mamotas». Para se conservarem são dispostas sobre ripas (os «caniços»), colocadas acima do lume das lareiras e mexidas de vez em quando, para apanharem todas elas a mesma corrente de ar quente e seco e o mesmo calor.
 
 
Geralmente, são retiradas no final de Dezembro, altura em que dão lugar aos enchidos da matança do porco, que passam a secar no fumeiro.
 
Chaves
  
Para melhor se conservarem é costume mantê-las nos «ouriços» (cascas), só as retirando quando se querem comer, dar ou vender.
 
 
No caso de serem piladas, as castanhas são introduzidas em cestos apropriados e pisadas (trabalho a cargo dos homens, calçados com botas bem ferradas, revestidas de pregos curtos de cabeça larga) até se soltarem da casca e saírem pelas ranhuras do respectivo cesto, com este a ser levantado e «esquivado» (abanado).
 
À semelhança das «desfolhadas» e das «espadeladas» (linho), a tarefa é efectuada por grupos de vizinhos, familiares e amigos, que se juntam, uns depilando, outros esquivando as castanhas, até estas ficarem libertas da casca e secarem, entretanto, com o passar do tempo.
 
É com a castanha pilada, depois de demolhada e cozida, que, na região de Pampilhosa (Beira Litoral) se acompanha o tradicional prato de cozido à portuguesa. Com ela prepara-se também o «caldudo» ou «caldelo», o mais famoso dos doces portugueses feitos com castanhas.
 
 
A partir dos anos vinte as castanhas começaram a escassear, principalmente na região da Beira Baixa, devido à «malina», ou «doença da tinta», que matou, desde aí, milhares de castanheiros no nosso País, embora a sua maior implantação se situe no Norte interior, na região de Entre Douro e Minho e no Nordeste Alentejano (onde dão aos «magustos» o nome de «castanhada»), com alguma relevância ainda na zona de Monchique (Algarve). Aqui, a castanha é também acompanhada com a tradicional aguardente de medronho e os «magustos» feitos, igualmente, com batata-doce (as «castanhas da terra»), assadas numa cova aberta no chão e tapada com terra sobre a qual se acende uma fogueira.
 
Batata doce
  
Mas é na região de Entre Douro e Minho que se tornam particularmente vivas e bastante comuns as festividades a São Martinho, com a caruma apanhada dias antes, para estar bem seca no dia do «magusto».
 

 

Marmelete
  
Depois, à roda das fogueiras, onde estalam as castanhas, o povo reúne-se, então, em alegre convívio para celebrar o santo e provar o vinho novo e a água-pé – num concelho que se estima como o maior produtor de vinho verde de Portugal.
 
 
Associadas aos «magustos» ou ao santo, vamos encontrar diversas praxes e rituais que não se perderam ainda totalmente entre nós, como sejam, entre outras, as «enfarruscadelas» entre os convivas, feitas com a cinza resultante da assadura das castanhas; a figuração de São Martinho, simbolizada num boneco vestido com roupas velhas, à qual se ateia fogo, após lido o testamento do santo; a divisão da «castanha-afilhada» (pegada a outra), repartida entre namorados, acompanhada com vinho ou água-pé bebidos do mesmo copo ou, ainda, quando são encontradas duas castanhas dentro da mesma casca, a oferta do «filho» (a castanha mais pequena) a quem se desejar, ficando ambas as pessoas «compadres» até ao São Martinho do ano seguinte.
 
 
A designação «martinhada» dada em certas localidades ao «magusto», faz lembrar que, na Idade Média, era no dia de São Martinho que se pagava a «martinhádega», imposto também chamado «martinega», isto é, a receita cobrada pelo senhor feudal em Novembro de cada ano – o mesmo acontecendo com o pagamento do foro ao rei e seus sucessores «em cada ano desde o dia de São João Baptista até ao dia de São Martinho».
 
 
Soledade Martinho Costa
 
In “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. VIII
Ed. Círculo de Leitores
   
publicado por sarrabal às 01:30
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